Precisamos falar sobre estupro

Acordei pra abrir o facebook e me deparar com uma solicitação de amizade do meu estuprador que, inclusive, tem 10 amigos em comum comigo. Dez. Todos pessoas da família. Dez. Incluindo familiares que sabiam do que estava acontecendo, que viveram aquele período comigo e que, mesmo assim, não me acreditaram. 

Abri o facebook e vi uma pomba branca voando na tela, anunciando o Dia Internacional da Paz. Ela voa pra lá e pra cá e é livre para perdoar e seguir em frente, para desfazer conflitos e ter o coração cheio de amor. Mas eu não sou. Não sou porque como poderia ser se há anos que virei essa pessoa destroçada, esse ser amorfo que se encolhe ao mínimo toque, que não se entrega, que tem medo, que não consegue nem ao menos dormir porque tem pesadelos vívidos que envolvem estupros não apenas do corpo, mas também da alma? 

Abri o facebook e, logo após a solicitação de amizade da pessoa que destruiu a minha vida e da pomba branca da paz, havia a notícia dizendo que 42% dos homens dizem que mulher que se dá ao respeito não é estuprada. 42%. Sabem o que isso quer dizer? Que quase metade da população masculina entrevistada - lembrando que isso é apenas uma amostragem e o número certamente é bem maior - pensa que a culpa do estupro é toda minha. Que meu estuprador não passou de um homem agindo de acordo com seus instintos, coitado, ao ver uma guria ali, não se dando ao respeito, de roupa curta, provocando-o ao usar um short num dia de calor. 

Fim de semana passado o Fantástico exibiu uma reportagem sobre pedofilia no país e um especialista foi lá falar que a pedofilia é uma doença e seu portador - portanto, o pedófilo - precisa de tratamento, pois é doente. Chamar o pedófilo de doente nada mais é do que inventar uma desculpa para que o homem, mais uma vez, saia por alguém que não pode se controlar, que merece ser desculpado, cujas atitudes têm de ser analisadas com cuidado porque o pobre portador da pedofilia não tem domínio sobre seus atos. 

Eu tinha 13 anos quando fui estuprada por um homem de 40. Um homem que vivia dentro da minha casa, um homem que era parte da minha família próxima, um homem que tinha a confiança de meus pais, meus irmãos e minha. Não fui estuprada por um bandido perigoso no meio da noite, na rua, ao voltar de uma festa. Não fui estuprada por um desconhecido, numa esquina. Não fui estuprada por uma pessoa mentalmente perturbada que fazia tratamento contra suas doenças psicológicas. Não. Fui estuprada por uma pessoa saudável em todos os sentidos, por um homem que não tem doença psicológica alguma, que possui pleno controle de seus atos e que mesmo assim estuprou a mim, sua sobrinha, simplesmente porque quis, porque tinha poder suficiente para isso, porque sabia que eu jamais conseguiria revidar e se sentiu grande ao ver uma criança subjugada à sua vontade. 

Estupro é sobre poder. Pedofilia também. Não é doença, não é algo a ser tratado, tampouco incontrolável. A sociedade em que vivemos é extremamente patriarcal e ensina os meninos, desde pequenos, que as mulheres não passam de buracos onde eles podem meter, satisfazerem suas vontades. 

Toda vez que alguém, numa roda de conversa, fala sobre perda da virgindade e pergunta como foi a minha primeira vez eu não posso responder, dou um sorriso enviesado e saio do meio porque eu não perdi a minha. Me foi arrancada. Eu nunca mais consegui confiar em alguém, perdi a docilidade que tinha, perdi a visão bonita sobre as pessoas, virei esse bicho do mato que não confia em ninguém, que sofre de insônia e tem crises de choro silencioso no meio da madrugada.

O cara que me estuprou me mandar solicitação de amizade indica algumas coisas: a. ele está de olho em mim de novo; b. se ele puder, me estuprará novamente; c. o sistema não funciona porque se funcionasse ele estaria apodrecendo na prisão; d. não posso andar sozinha porque se ele me atacar e eu conseguir revidar e acabar matando-o, quem irá presa será eu e ainda me condenarão por não ter denunciado antes sendo que sempre que tentei denunciar me diziam que faltavam provas porque aparentemente anos de um psicológico quebrado e um emocional ferrado não são o suficiente. 

Mais uma vez estou aterrorizada e terei medo de ir à faculdade hoje. 
E ninguém se importa porque a culpa, afinal de contas, é minha. Por ser mulher. Por usar roupas provocantes. Por estar no lugar errado na hora errada. Por não perdoar meu pobre estuprador. Por não conseguir seguir em frente. Por não lhe oferecer ajuda e tratamento psicológico para sua doença. A culpa é minha e de mais ninguém. 

Ghostlight

Ghostlight
Marion Zimmer Bradley
Editora Rocco
379 páginas
Ano de publicação: 1995 
Sobre o que é: Verdade Jourdemayne é filha de um cara ocultista da onda hippie dos anos 60 e de sua seguidora ritualística. Ambos morreram. A guria cresce tendo raivinha de tudo isso e vira uma cientista cética, criada pela tia. Mas coisas acontecem e ela acaba decidindo escrever uma biografia sobre o tão odiado pai para desmascará-lo como grande mago conhecedor das magyas e abridor de portais. Nisso, conhece um cara que me lembra o Antonio Banderas em todos os filmes que ele fez com o Almodóvar e a situação fica caótica - pra dizer o mínimo. Verdade não sabe mais em que acreditar: na sua tão incontestável ciência ou num mundo em que magia, espíritos e rituais são coisas aceitáveis e cotidianas. 

Por que ele é bom? Cês já leram alguma coisa da Marion Zimmer Bradley? Não? Então, é o seguinte: a mulher era uma escritora excelente que sabia envolver seus leitores com uma narrativa realmente incrível e sedutora. Ela é a autora de As Brumas de Avalon (amo ♥) e todos os seus livros trabalham com o conceito de reencarnação, ou seja: mudam as histórias, mas as almas são as mesmas. 

Disse isso tudo pra deixar claro que: se tem uma autora cuja lista de compras eu leria, é ela. 

Em Ghostlight temos a história de Verdade e de como seu mundo se desfaz em poucos dias. A mulher, extremamente cética, vai pra Shadow's Gate, antiga mansão do pai e lugar em que sua mãe morreu após um ritual bizarro, para começar a investigar o passado de Thorne Blackburn, seu pai, e escrever uma biografia pra desmascará-lo e mostrar ao mundo a grande farsa da magia que ele era. 

Lá, ela encontra um cara com ares megalomaníacos que comprou a casa e está tentando reavivar A Obra de Blackburn, com um novo Círculo da Verdade (como eles se auto-intitulam). A mulher começa a ficar completamente louca e a história só faz melhorar. Adoro essas histórias com magia e mistérios, ainda mais quando envolvem pessoas céticas - porque eu mesma sou bem cética pra tudo na vida, então é sempre interessante acompanhar o raciocínio das personagens, duvidando de tudo que acontece a seu redor. 

Quando a gente acha que vai ter um baita clichê de histórias mal-assombradas, PAH, algo acontece e não é nada daquilo que cê imaginou. Fazia meses que eu não lia um livro tão rapidamente: 
LI 
O LIVRO 
EM TRÊS 
DIAS 
\o/ 


Mas isso foi possível porque esse livro tem uma escrita leve e trechos que me fizeram chorar de rir. Por exemplo, já de início é narrado um ritual em que Thorne Blackburn aparece com seu longo cabelo loiro e ondulado, nu e cheio de óleo no corpo (o cara é o Bon Jovi, claramente), dizendo: EU SOU A CHAVE DE TODAS AS FECHADURAS! SOU AQUELE QUE ABRIRÁ O CAMINHO! E, num outro momento, uma mulher diz: EU SOU A FECHADURA DE TODAS AS PORTAS! 

Como não rir, eu me pergunto. 

Por que ele é ruim? Não é ruim, mas não é profundo. É um livrinho de fantasia. Não vai mudar sua vida, sua visão de mundo ou ser o melhor livro da sua vida. Fora isso, a tradução peca várias vezes. Há também o fato de que existe uma personagem colocada ali apenas para criar uma rivalidade inútil e inexistente: Fiona Cabot, construída para ser a bonitona, femme fatale, e ter acessos de ciúme infantil contra Verdade, sem justificativa alguma. Isso é bem bobo. Mas, de resto, o livro é muito bom, sim. 

Esse é o 1° livro de uma série de 4 livrinhos e geralmente eu detesto séries, mas como se trata da escrita da Marion Zimmer Bradley isso só me deixa feliz porque terei mais 3 livrinhos desses pela frente! o/ 

Se eu recomendo a leitura? Sim, mas é claro! Melhor tipo de livro para distrair a mente não há! 

Em um quote: 
Nos deram uma vida neste mundo e, enquanto estamos aqui, nossa tarefa é nos preparar para o que seremos convocados a fazer neste mundo, e não tentar viver em outro. (p. 239) 

Aleatoriedades n° 1

Após mais de um mês de aulas, finalmente meu relógio biológico parece estar regulando com o mundo normal. A pessoa insone tem sérios problemas porque: a. ela não consegue dormir, apesar do cansaço; b. olheiras, muitas olheiras, olheiras quilométricas que chegam ao meu queixo; c. 3h da manhã, aquele silêncio, todo mundo dormindo, a pessoa tem de acordar dali a 4h, mas tá encarando o teto, já contou todas as tábuas que nele existem, já achou rostos nele e possivelmente já teve uma conversinha com o demônio durante o processo, mas dormir que é bom, nada; d. a pessoa acaba dormindo, por pura exaustão, em horários em que todo mundo está acordado e sendo funcional. 

Percebem por que eu sou um desastre? Fico acordada e ativa em horários em que o mundo está offline. Entro no modo zumbi quando as pessoas estão com picos de energia e produzindo horrores. É por isso que não consigo lidar com uma rotina. 

Aí as pessoas ficam me enchendo os pacovás porque "Mia, tu some, tu desaparece, mas entrega as coisas nos prazos". Sim, amigão! "Mas como é que tu produz se tu nunca aparece aqui?" Duas palavras: horários alternativos. Eu não durmo: estudo, escrevo, faço meus trabalhos e danço Elvis durante a madrugada. Tem funcionado por 22 anos. Acho que o mundo precisa admitir que sou um espírito livre e não me encher o saco pelos meus horários malucos. 


Aliás, na categoria pessoas que enchem o saco porque estou sumida
tava querendo mudar o layout do blog desde fevereiro, mas não conseguia por simples e pura falta de tempo. Minha pilha de livros para ler só faz crescer e temo por minha saúde porque a pilha está literalmente gigantesca e ainda acho que cairá em cima da minha cabeça quando eu estiver dormindo. Caminho pela faculdade sempre apressada, ouvindo as pessoas me dizerem o famigerado "e aí, sumida?". Vejo o namorado uma vez por semana, por pouquíssimo tempo, depois da aula de sábado (às vezes ele me faz umas visitas na faculdade porque é querido ♥ mas, se não fosse por isso nos veríamos apenas uma vez por semana mesmo). Faço aula sábado. De Ética. (Inclusive, Sócrates era chato pra caramba, hein.) Só vejo (algumas das) minhas amigas porque elas estudam/trabalham no mesmo local que eu e a gente sempre dá uma corridinha entre uma aula e outra pra poder bater um papo, comer umas bergamotas e dar umas risadas motivacionais (haja motivacional no processo, hein!). Não vejo meus sobrinhos há algumas semanas porque não tenho tempo, o único dia em que fico em casa é no domingo e nesse dia aproveito pra fazer os trabalhos da semana, ler artigos e tentar descansar um pouco. 

Então, assim, não é como se eu tivesse muito tempo disponível na agenda pra lidar com o surto alheio sendo que não estou conseguindo nem lidar com o meu próprio e frequentemente me dou uns tapas na cara e me mando parar de frescura e seguir em frente porque agora não dá pra surtar, deixa pra surtar nas férias, querida. 

Aí aparece a pessoa que cresceu comigo, que é minha amiga há 10 anos. Aquela pessoa que vivia na minha casa e eu, na dela. A pessoa aparece fazendo textão na outra rede social - um atrás do outro, aos menos dois por dia - falando que não tem amigos, que eu a abandonei por namorado e amizades novas, que ela só queria uma amiga presente, que saísse com ela pra festas, pra os tuts-tuts-tuts ♪ da vida. 

Um mimimi sem fim. 

E sem muita lógica porque, apesar da minha rotina completamente insana (não a recomendamos, por sinal), eu sempre digo que se a criatura quiser fazer uma sessão pipoca a gente separa uns filmes legais, faz umas pipocas, come um monte de bobagem e vê filminho duvidoso enquanto conversa e suja a cara de chocolate. Melhor coisa. 

Mas aí a pessoa quer que eu saia no meu único dia em casa, pleno domingo de exaustão, pra ir em festa com gente bêbada & suada e ainda espera que eu pague por isso? Miga, tá difícil pagar as passagens pra ir pra faculdade, cê realmente acha que eu vou perder meu tempo - e orçamento inexistente - em festa? Quer dizer, cê realmente não lê meu blog, né? 

ME CONVIDAR PRA UMA ÓPERA NINGUÉM CONVIDA - e mesmo assim, dependendo do dia, não iria, porque domingo é dia de ficar em casa, ponto final. 

Acabo passando por chata e insensível sendo que eu apenas estou tentando gerenciar meu tempo, dentro das minhas possibilidades limitadas de estudante universitária com uma vida ativa e cheia de compromissos malucos. Então, não, eu não serei aquela amiga do badalo, eu não vou ficar falando contigo pelo whatsapp toda hora porque, bah, sinceramente, que coisa mais tediosa aquilo. Mas se quiser se reunir num domingo à tarde pra ver uns filminhos, cozinhar uma receita nova ou só bater um papo mesmo - debaixo de um cobertor quentinho, de preferência -, perfeito! Só não espere que eu vá pra o badalo porque o dia em que eu vir algo de bom em festa jovem, pode saber que ou estou extremamente bêbada ou sendo sarcástica em níveis nunca d'antes vistos. 

Sou chata mesmo, posso fazer nada, é o que temos pra esta encarnação. 


Da série coisas que não entendi
a. O hype de Stranger Things
É uma série boa, é uma série legal. Ninguém passa 8h na frente de uma tela durante um domingo se não estiver gostando da coisa. Mas não é a melhor série da vida, o roteiro certamente não é o mais genial que já apareceu. Ou seja, não é pra tanto. Porém, ver Winona Ryder bem loucona falando com as luzes é maravilhoso. E a Eleven, gente? Que personagem mais amor. ♥ (Inclusive, torcendo muito pra o retorno de Eleven, hein.) 

b. O amor das pessoas por café. 
Juro pela Deusa. Isto aqui tá quase virando um post de unpopular opinions, mas eu não entendi até hoje esse amor todo por café. O troço é amargo pra caramba. Se colocar açúcar, fica um doce insuportável. Tomar no calor é horrível (bem, tudo é horrível no calor) porque o troço esquenta a alma da pessoa. Tomar no frio até vai, e às vezes eu tomo porque né, há rumores de que a gente precisa manter uma certa temperatura corporal. Mas o gosto, gente. O sabor. Não há como. 

Sou chata. Mesmo. Midesgulpem. 

Da série o que estou lendo
a. A montanha mágica, do Thomas Mann
Até agora, o jovem Hans Castorp tem se mostrado o cara mais tapado de toda a história da literatura moderna. O rapaz vai pra um sanatório para tuberculosos, no topo de uma montanha, passar 3 semanas com o primo doente. Aí, já nos primeiros dias, ele começa a sentir arrepios no corpo, mas o rosto queeeeeeeeeeente, um calor dozinfernos enquanto os pés estão congelando. Mas tudo bem, é só porque ele tá se aclimatando ao ambiente. Depois, ele tosse horrores e escarra sangue. Mas nem dá bola porque, afinal, se exercitou demais ao dar uma caminhada de meia hora. Certo dia, ele chega com a camisa empapada de sangue. Mas não é doença física, não: é doença do amor. Hans Castorp tá apaixonadinho e seu sistema está tentando colocar isso pra fora. Apenas isso.
Hans, amiguinho, dá cá a mão (esterilizada, por favor) e realiza aqui com a tia: cê tá doente, querido, e nunca mais sairá daí. 

b. Ghostlight, da Marion Zimmer Bradley
A mulher se chama Verdade e é filha de um cara ocultista da onda hippie dos anos 60 e de sua seguidora ritualística. Ambos morreram. A guria cresce tendo raivinha de tudo isso e vira uma cientista cética. Mas coisas acontecem e ela conhece um cara que me lembra o Antonio Banderas em todos os filmes que ele fez com o Almodóvar. Esse é o primeiro de uma série de 4 livrinhos e ainda estou bem no começo, então não dá pra dizer muito. Não gosto de séries de livros, mas adoro a escrita da Marion. Assim complica. 

c. Reparação, do Ian McEwan
Faz 2 anos que tô atrás desse livro e nada porque todas as vezes em que fui comprá-lo, havia esgotado. Em todas as bibliotecas a que ia, não tinha no acervo. Aí ontem, passeando pelas estantes da biblioteca da PUCRS, encontrei esse livro, me agarrei nele e estamos num sério caso de amor. Até agora: Briony é uma guria mimada com um sonho literário meio desprovido de sentido, seus primos são chatos e sua irmã, sonhadora e meio melancólica. Mas a escrita do senhor McEwan, que escrita deliciosa! 

Fora isso, tem mais alguns - 4 - livros esperando por serem lidos e tô numa agonia danada porque a vontade é de colocar todos no meu cérebro de uma vez e ter todo o conhecimento literário do universo, mas me contenho e tento ao menos terminar A montanha mágica ainda este mês. 

~I'm a little bit Rory Gilmore, sim~

Já que não consigo manter uma newsletter no tinyletter - por total incapacidade de interesse e de gerenciar outra plataforma que não seja o blogger -, vou começar a fazer umas por aqui mesmo. Melhor assim, tudo no mesmo lugar, mais organizado - e não me sinto tão perdida. 
 
Wink .187 tons de frio.