Vamos falar sobre o menino Kafka

Carta ao pai 
Franz Kafka
Companhia das Letras
88 páginas
Ano de publicação: 1953 

Sobre o que é: menino Kafka era um moço atormentadinho por seus processos interiores de should I stay or should I go nos costumes de sua família judaica e na tradição de comerciantes que seu querido papai lhe forçava. Ele só queria ser ele mesmo, mas não sabia quem era e ficou com muita mágoa de miguxa do pai porque o cara lhe cobrava um rumo na vida. Aí decidiu escrever uma carta de mais de oitenta páginas pra explicar por que ele era um fracassado e como a culpa de tudo era do pai dele. 

Por que ele é bom? Pra entender a obra do Kafka. Vamos lembrar que Franz Kafka era um menino que escrevia, mas não levava a sério sua carreira como escritor porque probleminhas internos e não queria que publicassem suas coisas. O cara meio que fazia o que nós, possuidores de blogs-diarinho ou contas no twitter, fazemos hoje com menos pudores: escrever mimimi e fanfic de si mesmo pra desabafar e ser uma pessoa funcional no dia a dia, não arrancando cabeças - alheias ou próprias - com uma machadinha. Ou seja: Kafka era gente como a gente. ♥ 

Só que, nessas de escrever fanfic de si mesmo, ele acabou nomeando trocentos personagens como K. Apenas K. E os colocando em situações estapafúrdias, como sendo um inseto gigante cuja maior preocupação não é em como isso ocorreu ou em se livrar das patinhas, mas sim em ir trabalhar e ser querido pela família, e também em ser um carinha trabalhador que um dia acorda e encontra sua casa repleta de gente desconhecida dizendo que ele está sob um tipo de prisão, num processo, cuja origem ninguém sabe dizer. Quer dizer, MUITAS ANGÚSTIAS, claramente. E toda essa vibe prisioneiro de si mesmo kafkiniana é facilmente explicada após a leitura da carta que ele escreveu pra seu pai. 

Por que ele é ruim? MIMIMI. DRAMA. CHORO E RANGER DE DENTES. Meldels, que livro pesado. É tanto sentimento de culpa que dá um troço na pessoa. Menino Kafka se culpava muito por ser da forma que ele era, por ser franzino, por ser esquisito, por ser ligado nas literaturas da vida... Sempre se achou um fracasso, mas aí foi tentar explicar tudo isso pra seu querido pai respondendo à pergunta: 
Querido pai,
Tu me perguntaste recentemente por que afirmo ter medo de ti. Eu não soube, como de costume, o que te responder, em parte justamente pelo medo que tenho de ti, em parte porque existem tantos detalhes na justificativa desse medo, que eu não poderia reuni-los no ato de falar de modo mais ou menos coerente.
Meu amô, se tem algo que eu aprendi nesses vinte e poucos anos de vida é que há coisas que jamais devem ser perguntadas porque desencadeiam uma diarreia verbal de assuntos nada agradáveis e que vão te fazer sofrer e tirar seu sono durante a noite. Mas claramente Kafka, o pai, não sabia disso. E aí que seu magoado filho desatou a escrever e escrever e escrever uma carta extremamente INFP feelings que jamais foi enviada, mas que seu amigo Max resolveu deixar a público após a morte do nosso menino escritor. 

Não é ruim, mas é íntimo demais, real demais, doloroso demais. E nem sempre isso é bom. 

~como eu estava ao terminar o livro~
Se eu recomendo a leitura? Sim, mas não. Sim se você for fã do cara ou quiser conhecer e entender mais sua obra. Não se você estiver num período sensível da vida humana (como, por exemplo, TPM; porque a espertona aqui foi ler isso quando? isso mesmo, na TPM, e aí eram 4h da manhã e eu estava encarando o teto, com lagriminhas correndo pelo rosto e com um namorado preocupado ao lado porque MEU AMÔ, NÃO SEJA LOUCA, SIACALME). É um livro que precisa do timing certo pra ser lido ou de um coração de gelo (nem meu coração aquariano geladíssimo conservou sua geleira, cês vejam bem no que estão se metendo)

Em um quote: 
É que eu já estava esmagado pela simples materialidade do teu corpo. Recordo-me, por exemplo, de que muitas vezes nos despíamos juntos numa cabine. Eu magro, fraco, franzino, tu forte, grande, possante. Já na cabine eu me sentia miserável e na realidade não apenas diante de ti, mas diante do mundo inteiro, pois para mim tu eras a medida de todas as coisas. 
Tadinho do Kafka, gente. Cheio de tormentos & trauminhas.  

2016: o ano em que eu dei um jeito

No final de dezembro eu comecei a escrever uma retrospectiva 2016. Escrevi enlouquecidamente contando todos os percalços do caminho e parei porque, sinceramente, chega de drama. Aí abri uma nova aba e fui escrever uma outra retrospectiva, dessa vez mais objetiva e alegre. E parei porque não era real, porque 2016 foi intenso, sim, foi pesado de muitas maneiras e eu não iria mentir no meu próprio blog. 

9 dias se passaram desde que o grito de CABÔ 2016 foi dado, e cá estou eu mais uma vez tentando falar sobre o que raios foi esse ano. Sério mesmo: que ano foi esse? Eu queria muito deixar 2016 passar batido, sem lembrança alguma, mas não posso fazer isso porque esse foi um ano que me definiu de muitas formas como ser humano. Me mudou, me feriu, me fez tomar uma atitude - pra mal ou pra bem é o que saberemos nas cenas dos próximos capítulos. 

Mas o fato é que, apesar de todas as coisas ruins, ou talvez por causa delas, esse foi um ano em que eu dei um jeito. Se tudo dava errado pela manhã, lá estava eu numa correria, falando pelo celular ao mesmo tempo em que enviava um e-mail e derretia chocolate pra fazer trufas e vender e fazer com que a tarde ficasse certa. Foi um ano em que eu não tive alternativa a não ser ir em frente, por mais que eu quisesse ficar quietinha num canto escuro sem ver ninguém por eras. Isso simplesmente seria ridículo após todo o estresse pelo qual passei em 2015 e tudo o que consegui conquistar. Então o ano seria bom e se não fosse seria na marra. 

E foi bom, apesar do medo quase paralisante e dos frequentes ataques de ansiedade. Foi um ano de primeiras vezes, e é sobre elas que eu quero falar. 

1. O ano em que eu comecei a fazer Jornalismo 

Quero ser jornalista desde os 6 anos de idade. Mas a vida, as pessoas me dizendo que eu não sirvo pra isso, todo aquele discurso ridículo que colocam em cima das pessoas quando elas têm um sonho e tal fez com que eu colocasse ele de lado por muito tempo. Aí fui fazer Pedagogia: foram 2 anos aprendendo sobre a aprendizagem infantil, mexendo com marionetes, contando historinhas e limpando cocô de criança pra me dar conta de que essa não é a vida que eu quero. Então, tomei coragem e pedi transferência. 

Demorou meses pra que me desse a resposta, mas fiquei sabendo que havia conseguido a vaga em Jornalismo no primeiro dia de 2016. Literalmente, foi a primeira coisa que fiz no ano: acordei, peguei o celular e vi a mensagem: "MIA, TU CONSEGUIU ENTRAR EM JORNALISMO!". Comecei 2016 ajoelhada no chão de um quarto de uma pessoa que nem vale a pena mencionar, chorando e rindo descontroladamente de alegria. E recebendo, em seguida, um tapão na cara verborrágico: "Ah, pobrezinha. Tu vai ver que não serve pra isso. Mas deixa, no final do semestre, quando o Jornalismo tiver te destroçado, eu vou estar aqui pra tu chorar no meu ombro e voltar pra Pedagogia". Pois nem a criatura estava mais comigo nem eu estava chorando destroçada. Tô bem feliz em Jornal, sendo repórter no Editorial J e trabalhando em assessoria de imprensa na Polícia Federal. YAY \o/ 

2. O ano em que eu fui fotógrafa 

Antes de trabalhar como repórter, fui fotógrafa no J e, gente, que experiência incrível. Eu andava com uma câmera gigante + lentes pra lá e pra cá, saía todos os dias de van pra lugares diversos e sempre que aconteciam coisas eu lá estava. 

Só que as fotos, gente. AS FOTOS. Se tem uma coisa que eu aprendi em 2016 é que não sirvo pra fotógrafa, hahahaha 

Eu amo essa foto, mas também é a única das fotos tiradas nessa época que eu realmente amo. Inclusive, ela foi usada, posteriormente, numa matéria pra o Dia das Bruxas (aqui) ♥ 







Tava numa escola fotografando uma ocupação, os adolescentes, a cozinha, eles preparando comida e tal, quando um passarinho entrou sabe-se lá por onde, ficou voando pelo local e eu comecei a segui-lo e a tirar fotos freneticamente, até que ele foi pra uma das janelas e fez pose, hahahaha ♥ 

Eu sou ruim até quando eu sou boa, gente, assim não dá, hahahaha 

3. Fui à uma balada pela primeira vez 

E odiei. 

4. Pintei o cabelo de azul 

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Não pegou no cabelo inteiro, ficou cheio de cores, parecia uma arara e o azul virou loiro quase branco em duas semanas, mas foi muito tri.


5. O ano em que escrevi reportagens e crônicas

Sofia, minha miga e também repórter, foi minha grande parceira de textão em 2016. Escrevemos duas reportagens juntas, sendo que uma delas (escrita também em parceria com a Bibiana e a Annie) é o meu grande amorzinho do ano: A literatura não tem rosto de mulher ♥ LEIAM LEIAM

Também comecei a escrever crônicas pra o jornal Opa!, sendo que uma delas é a minha grande queridinha: Lolita, uma história de terror

6. Expus meus poemas numa exposição de arte 

Umas gurias artistas que conheço se reuniram pra fazer uma exposição com trocentos tipos de arte e eu acabei entrando na roda. Sei que quase não posto poemas aqui no blog ou nas redes sociais, mas se tem uma coisa que eu escrevo essa coisa são poemas. Foi muito amor ♥ Fiz um caminho poético pela exposição, cheio de poemas enfeitados e depois fui comer sushi com a Paula ♥ 

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Sushi = ♥ Quando eu casar o buffet vai ser sushi, quero nem saber.

7. Comecei a fazer uma coluna literária na rádio da faculdade

Eu nunca tinha falado numa rádio ou tido aula de rádio, aí me falaram que "Mia, tu gosta tanto de livros, sempre que tu fala deles no blog minha lista de leituras aumenta... por que tu não faz uma coluna literária?". Aí eu aceitei. E fui. Esta foi a primeira, sobre O Morro dos Ventos Uivantes, da Emily Brontë: 



8. Fui modelo fotográfica pra uns fotógrafos bacanas ♥ 

Primeiro foi pra Débora, que tem um projeto bem legal chamado Girl Power. Ela foi minha colega de Biblio e a guria é mega, MEGA talentosa com a câmera. Ela tirou umas fotos tão lindinhas que tô usando-as loucamente nos perfis das redes sociais até agora, hahahaha 




Depois foi a Sara Santiago, que é minha colega de Jornalismo e também entrou pra fotografia comigo no J. Um dia, o J tava comemorando aniversário e daí toda a equipe seria fotografada e teria um perfil feito, toda uma vibe Humans do J. Aí dona Sara tirou umas fotinhos minhas que MUITO AMOR. Sara, te dedico! ♥ 


Chapeuzinho Vermelho vai à faculdade, óleo sobre tela. 

E, fechando o ano, teve o senhor Wellinton, que também é fotógrafo do J e um BAITA fotógrafo mesmo. Quando eu casar quero que ele seja o fotógrafo, inclusive. Não foi uma sessão formal, mas foi uma sessão bem descontraída com a Sofia em que fizemos várias poses malucas num dia de muita ventania porto-alegrense. 



9. Comecei a trabalhar na Polícia Federal 

Calma, eu não virei policial: sou estagiária de assessoria de imprensa da PF, o que é MUITO LEGAL. Fico numa sala com ar condicionado a 16°C fazendo clippagem e sendo feliz. ♥ 

10. Quebrei o cóccix 

No final de dezembro. Inclusive, passei metade da noite de Natal deitada na cama, sem conseguir me mexer porque A DOR, ELA É REAL. Tá doendo ainda, mas tá suportável agora, só que fiquei com ele torto e não há médico que resolva isso. 

¯\_(ツ)_/¯


11. Me curei emocionalmente 

Comecei 2016 quebrada de tantas maneiras que nem posso explicar. Mas consegui me recuperar - e não apenas recuperar como regenerar, tipo o Doctor quando muda de corpo na regeneração (cês realmente acharam que não teria referência alguma a Doctor Who, né?!). E passei a lidar de boas com a vida, o universo e tudo o mais e a ser mais compreensiva com as cagadas próprias & alheias. 

Terminei 2016 ao lado do namorado, assistindo à uma fogueira gigantesca e fazendo uma prece pra Deusa: que em 2017 eu tenha forças pra ser tudo o que quero que os outros sejam. 

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PRONTO, CHEGA, CABÔ 2016! VIVA 2017, YAY

Wink Literary Awards 2016

Ou: RETROSPECTIVA LITERÁRIA 2016

Ainda não considero o meu ano literário como acabado - estou na metade de dois livros e com vários na lista de leitura próxima -, mas como sei que não terei tanto tempo assim nos próximos dias pra parar e escrever essa retrospectiva, vamos lá. 

2016 começou me dando um bom tapão na cara e aí que aconteceu algo surpreendente e, até posso dizer, inédito em minha vida: perdi o ânimo de ler. Eita, mas comassim? Eu lhe explicarei, jovem gafanhoto: o que aconteceu foi que eu me sentia tão horrivelmente perdida e numa crise de depressão + ansiedade, que resultou no maior nervous breakdown da história deste blog que simplesmente não conseguia me concentrar pra ler absolutamente nada. E, sim, é impossível falar de 2016, seja lá sobre qual esfera for, sem falar sobre isso porque esse colapso nervoso meio que pautou o tom de mais da metade do meu ano e uma de suas consequências foi que eu lesse pouco. Mas okay, prossigamos. 

Leituras de Férias


Comecei o ano fazendo releitura de um dos meus livros preferidos da vida: O Retrato de Dorian Gray, do Oscar Wilde. Tava na praia, toda acabada por motivos de calor, insetos e desgaste emocional, cercada de gente que me detestava e tendo de ser educada e gentil com todo mundo (spoiler: não deu certo) e, sempre que dava um tempinho, me grudando na obra-prima do Wilde. Gente, que livrinho maravilhoso. Os anos passam e a cada releitura esse continua sendo um dos meus preferidos, ocupando a primeira posição no meu coração juntamente com A insustentável leveza do ser (que não foi relido neste ano, mas será no próximo). As tiradas sarcásticas do Lorde Henry total me fizeram desapegar do fato de eu ter virado uma personificação do vaso sanitário humano em janeiro e simplesmente abstrair. Oscar Wilde, te dedico parte da minha sanidade = ♥ 

Logo em seguida, ainda em janeiro, li um amorzinho que me surpreendeu de formas jamais esperadas: O mundo de Sofia, do Jostein Gaarder. GENTE, SÉRIO MESMO, LEIAM ESSE LIVRO. Tô tão em choque com o mega plot twist que tem lá que ainda nem consegui escrever sobre ele, mas pretendo relê-lo em breve e fazer isso porque it's gonna blow everyone's mind!!!! E também total me ajudou porque enquanto todas as cagadas possíveis que o universo me reservava durante o inferno astral estavam acontecendo, eu tava o quê? Lendo O mundo de Sofia e ficando boquiaberta com o que o autor fez ali. Já tinha lido um livro dele ano passado, de modos que esperava que esse também fosse bom, mas jamais esperei que fosse tão incrível assim. 

Meus registros (hahahaha, que fina) dizem que terminei a leitura d'O mundo de Sofia dia 23 de janeiro. Quando foi que concluí a leitura do próximo livro? Isso mesmo, um mês depois. Sendo que o próximo livro tinha nada mais, nada menos que 217 páginas e era edição DE BOLSO. Cês vejam bem o despirocamento da pessoa que demorou um mês inteirinho pra ler isso, estando de férias, em casa, de boas. Mas okay, vida que segue, tava surtando legal e fui ler a história de um bandigarotos perdidos numa ilha deserta e que acham que estão sendo perseguidos por um monstro de fumaça preta. Não, não é o roteiro de Lost, mas a série foi inspirada nele: Senhor das Moscas, do William Golding. Gostei, mas foi um parto pra ler e eu total tava culpando o livro, mas a culpa era interna mesmo e só fui aceitar isso um mês depois. Mas aí, após terminar essa leiturinha eu tava meio que sem saber o que fazer da minha vida literária e cacei pelas estantes algum livro parado. E foi aí que eu li Agatha Christie. ♥ Li é modo de dizer, porque o correto mesmo seria um DEVOREI em caixa alta já que simplesmente não larguei Assassinato no Expresso do Oriente até chegar ao final - aliás, QUE FINAL, hein. 

Março - Junho


Isso era final de fevereiro e eu estava total em stand-by tendo lido apenas 4 livrinhos durante as férias. Em uma palavra: FAIL. Resolvi pegar um livro cuja leitura eu tinha deixado de lado em meados de novembro/2015 por motivos de ser pesada demais, mas estava em meu desafio dos 50 livros do século XX e, portanto, não seria abandonada, e me foquei nela até metade de março: Vidas Secas, do Graciliano Ramos. É sério, eu lia uma página e me deprimia. Lia outra, e queria morrer só pra não ter que terminar esse livro. O livro é ruim? Não é. Caramba, eu adorei a escrita dura do Graci (a íntima, risos), mas é de uma certeza das dificuldades tamanha que eu me deprimi. Muito. E demorei meses pra terminar esse livrinho mega pequeno. 

Nisso eu já estava desde o final de 2015 enrolada numa releitura também que tinha toda uma vibe hello, darkness, my old friend, mas que total me ajudou a entender o que diabos estava acontecendo comigo - porque a negação, ela era forte: A redoma de vidro, da Sylvia Plath. Dessa vez li no original, em inglês, e cada página era um tapão tão forte que muitas vezes, numa viagem de 2h de ônibus pra voltar pra casa, só conseguia ler 4, 5 páginas por vez. A identificação com a Esther, personagem principal da história, foi paralisadora, mas de uma importância que nem sei quantificar porque foi a partir daí que realmente me toquei de que precisava de ajuda pra lidar com o que diabos estava acontecendo comigo pra não acabar indo pelo mesmo caminho da Esther ou mesmo da Sylvia Plath. 

As leituras obrigatórias da faculdade vieram e, com elas, foi sugada pra o buraco negro da educação superior a minha disposição literária. E aí só fui ler algo de literatura MESMO novamente lá por meados de maio. Cês viram como o ano foi uma bagunça, hahahaha Então li o mais recente - e último, já que uma das perdas de 2016 foi justamente ele - livro do Umberto Eco: Número Zero. Olha, pra ser bem sincera, que livrinho mais ou menos. A edição é bem legal, boa diagramação, capa incrível e que cheiro maravilhoso naquelas páginas! Mas a história é... fuén. Dá pra ler, mas não vai mudar a vida de ninguém, muito menos a minha. O que é uma pena, porque Umberto Eco, um baita escritor e pensador e blablabla encerrou sua carreira literária com um livro bem mais ou menos desses. Mas acontece. 

Concomitantemente, mergulhei num livro sobre poesia modernista brasileira que foi PURO ♥ AMOR ♥ mas que me sugou um mês porque haja concentração pra ler ensaios e exemplos de como diabos se formou e funcionou o modernismo literário no Brasil. No entanto, não me arrependo da leitura, aprendi muita coisa e meu amor por poesia modernista só fez aumentar. 

Encerrei 2016/1 lendo um livro INCRÍVEL e que me fez retomar o gosto pela leitura (FINALMENTE!!!!): Eu, robô, do Isaac Asimov. Eu sempre tive uma queda de um penhasco por sci-fi, mas livros desse gênero são meio difíceis de se encontrar em bibliotecas e não é como se eu pudesse comprar todos os livros que eu vejo por aí ("mas cê quer todos os que vê?" olha, eu quero, sim; e quero os que não vejo também, inclusive). Esse foi o meu primeiro livro do Asimov e já virei fã do cara. Detesto livros de contos, mas adorei a condução dos 9 contos que compõem esse livrinho-chuchu. Já quero fazer releitura. 

Férias de Julho 

Julho já começou comigo tendo muito mais disposição pras leituras e também pra vida, então ele rendeu. Tá, não rendeu tanto, foram apenas 4 livrinhos num mês, e um mês de férias, mas já foi alguma coisa se comparado com o primeiro semestre do ano. 


Li dois livros de literatura portuguesa porque literatura portuguesa é amor, é paixão, é calor no coração, sendo um deles uma surpresa incrível: o escolhi totalmente por conta do título (aliás, títulos de livros portugueses = melhores títulos). Para cima e não para norte, da Patrícia Portela, é um livro muito diferente. Comassim, diferente? Bem, ele é louco. A história é louca, a diagramação mais ainda, e por isso mesmo ele é INCRÍVEL em caixa alta. Ainda não consegui escrever sobre ele e não será hoje que conseguirei, mas ainda vou reler esse livro pra poder falar sobre porque MELDELS, muitas questões. Depois terminei a leitura de um livrinho maravilhoso que estava empacado na minha cabeceira por motivos de não tem como lê-lo sem estar totalmente atenta a ele (ou seja, nada de lê-lo no ônibus): As intermitências da morte, do Saramago, é simplesmente um dos melhores livros da minha vida. Já falei muito sobre ele num outro post e vou recomendá-lo sempre sempre sempre porque ele é sensacional de todas as formas. 

Depois, li dois livros bem mais ou menos. Um foi o Fernão Capelo Gaivota, do Paulo Coelho Richard Bach e, gente, fala sério, cês realmente se comovem com essas fábulas cagadas de gaivotas reencarnando e cumprindo missõezinhas? Olha, nada contra, inclusive acredito em reencarnação e tal, mas não aloprem comigo. Pra mim, esse livro tá na mesma categoria d'O Pequeno Príncipe: insuportável. Mas okay. Aí entrei numas de me conectar com Hécate e li o Guia essencial da bruxa solitária, do Scott Cunningham, e não foi ruim, mas o achei muito simplista e focado demais na Wicca e menos na bruxaria em si. Porém, é uma boa leitura pra quem não entende muito das bruxísticas da vida. Só que é muita idealização e pouca coisa REALMENTE interessante 

Agosto - Dezembro 

Como meus ânimos já estavam recuperados e eu já havia saído da estafa literária, agosto rendeu bastante. Foram 5 livrinhos + leituras obrigatórias, faculdade, trabalho, vida, o que considero algo bem legal pra quem não estava lidando nem com dois livros por mês no início do ano. 


O primeiro foi Os Enamoramentos, do Javier Marías, porque me apaixonei completamente pela capa, pela edição e pela escrita fluída do autor. Aliás, autores espanhóis = ♥ Sendo mais justa, autores latinos = ♥ ("comassim autores latinos sendo espanhóis?" gente, estou falando das línguas de origem latina, não de questões geográficas, não miamolem) A história é bem envolvente e meio assustadora se a pessoa for parar pra pensar em termos de relações humanas e como elas podem ser terríveis, mas é muito bem escrita e eu amei cada página. Foi uma baita descoberta. 

Em seguida, li uma leitura obrigatória de Jornalismo Opinativo: Partículas Elementares, do Michel Houellebecq, um autor francês mega polêmico e antipático que, inclusive, conheci faz um mês e meio (conheci, tirei fotinho, conversei, apesar de não entender nada do que ele me disse e o acompanhei pelas escadas porque meu professor é amigo dele e, por motivos que jamais entenderei, disse pra mim e pra um amigo/colega meu para acompanhá-lo e eu só fui, hahahaha). TODO MUNDO que já havia cursado essa cadeira me dizia que esse livro é horrível, Juremir e suas leituras obrigatórias insuportáveis, ninguém merece Michel Houellebecq, e eu já fui ler a obra toda cheia de prevenções, né. Mas estavam todos errados porque amei o livro de tal maneira que ainda não consegui escrever sobre também, mas quero relê-lo muitas vezes, aliás, quero ler toda a obra desse cara, aprender francês e ter altas conversas com ele. Livro maravilhoso, leiam-no. 

Li ainda mais dois livros de literatura portuguesa (sério, literatura portuguesa é puro amor), um de poemas do Fernando Pessoa, Quando fui outro, que tem uma diagramação muito boa MESMO. Li em um dia, é bem rápido e dá uma aquecidinha no coração. O outro é de uma autora portuguesa com ascendência árabe, Faíza Hayat: O evangelho segundo a serpente. Esse livro me desgraçou tanto o peito que nem sei o que dizer sobre ele até agora, mas acho que, assim como os livros do Valter Hugo Mãe, todos deveriam ler esse da Faíza porque dói, dói muito, mas muda algo essencial lá dentro da gente e isso é o que a literatura tem de melhor (fora que há um prefácio escrito pelo Mia Couto e só isso já vale o livro inteiro, que tem cento e poucas páginas num formato pocket e numa edição linda de te fazer suspirar alto). 

E aí aconteceu uma coisa muito legal que foi a editora Intrínseca ter entrado em contato comigo pra me enviar um livro em parceria porque achou que o blog combinava com o perfil do livro em questão. GENTE, EU PIREI LOUCAMENTE, hahahaha Porque o kit do livro veio com trocentas coisinhas, incluindo uma mini xícara de porcelana toda cheia dos adereços e fitinhas. Isso porque o livro se passa na Inglaterra vitoriana e tem toda uma vibe Downton Abbey (até porque foi escrito pelo mesmo autor). Belgravia, do Julian Fellowes, realmente me fez adentrar na história de uma forma que não acontecia há muito tempo e me fez pensar que não encontraria mais um livro que me prendesse tanto assim (hahahaha, dramas de leitor). 


Em setembro eu quis muito me afundar numa série da Marion Zimmer Bradley (autora d'As brumas de Avalon), mas só pude ler dois livrinhos dela porque a vida de estudante universitária, não é mesmo. A série Light, também chamada de O Poder Supremo, conta com 4 livrinhos. Desses, li 2 em setembro e 1 em outubro. O último ainda está esperando por ser lido, mas de janeiro não passa. Foi uma baita surpresa gostosa quando comecei a série com Ghostlight porque, apesar da Marion ser uma das minhas autoras preferidas, não pensei que fosse gostar tanto assim da série. Em seguida, li Witchlight e Gravelight. Ainda não terminei o último, Heartlight, mas já favoritei a série no coração. Nela, há várias histórias entrelaçadas que envolvem magia, umas vibes meio Avalon, aventuras loucas e tudo isso numa mistura de anos 60 e 90. Só amor. 

Infelizmente, também tive de ler Cordilheira, do Daniel Galera, porque supostamente iria entrevistá-lo, mas abortei a tal entrevista porque não há possibilidade de entrevistar uma pessoa que escreve um lixo misógino desses e ser polida e profissional com o cara. 


Em outubro eu fiz muitas leituras chatas obrigatórias, então sobrou pouco tempo pra ler literatura mesmo. Mas o que li foi tão bom que compensou tudo. Li Reparação, do Ian McEwan e, gente, que livrinho foi esse?! Briony, personagem mais revoltante?! Meldels, as reviravoltas emocionais desse livro?! Quero ler tudo o que o senhor Ian McEwan escreveu?! Ainda não me recuperei completamente desse livro e hoje mesmo estava pensando nele e ficando triste pela história?! Muitos feels. 

Novembro foi um mês de guerra: os três livros que li - e mais alguns cujas leituras ainda não terminei, mas que estão na mesma temática - falam bastante de guerras, especialmente da Segunda Guerra Mundial. É isto um homem?, do Primo Levi, é um relato muito sincero e sucinto sobre o que esse cara passou dentro de um campo de concentração alemão. Li o livro em 2h porque tinha de fazer um debate sobre ele pra Língua Portuguesa II e fiquei muito aflita porque é cru demais, não tem como ler isso e ficar indiferente. Já Em busca de sentido, do Viktor E. Frankl, li porque já me haviam recomendado há anos e eu ainda não tinha lido. É a mesma vibe de relato de um sobrevivente de um campo de concentração, com o adendo de que o Frankl era um psicólogo e não apenas escreveu sobre o que passou como analisou a situação racionalmente e criou uma escola de psicologia sobre o assunto: a logoterapia, que busca entender o sentido da vida do cerumano e por que aquelas pessoas prisioneiras em campos de concentração não se matavam ou perdiam as esperanças. É tocante de várias maneiras. Quando você lê relatos assim começa a parar de reclamar tanto de pequenas coisas do dia a dia que são tão bobas, sabe? A vibe toda do livro do Frankl é que você sempre arranja um como viver quando tem um porquê. E dói muito reconhecer que isso é verdade. Também li O livro do riso e do esquecimento, do Milan Kundera, que fala sobre a Primavera de Praga, a invasão russa à Tchecoslováquia e várias coisas pelas quais ele passou enquanto cidadão escritor que se posicionava criticamente. O legal do Kundera, meu autor preferido, por sinal, é que ele fala do que realmente aconteceu em sua vida e na história política, mas também coloca um background de histórias fictícias, com personagens que ilustram bem os fatos de uma época, e faz toda uma análise psicológica em cima disso. Claramente ele escreve pra não enlouquecer. O livro é incrível e ganhou cinco estrelinhas porque não tem como dar menos do que isso. 


Então dezembro chegou e, com ele, a minha disposição literária. Até agora li 11 livros e estou no meio de outros dois, ou seja: voltei ao normal. ♥ 

Comecei dezembro com um desafio: ler Kafka. Uma amiga e eu nos propusemos a ler certos autores em cada mês do ano. Dezembro seria o mês de Kafka e até estava sendo, mas aí li Carta ao Pai e não foi possível continuar porque QUE DRAMA, QUE MIMIMI, MELDELS. Kafka não queria que seus livros fossem publicados e, em seu testamento, pediu pra que seu amigo, Max, os queimasse. Max fez o quê? Ignorou solenemente o menino Kafka e publicou seus livrinhos, causando desgraçamentos mentais em leitores desavisados até os dias de hoje. Tô dizendo que odeio Kafka e nada dele deveria ter sido publicado? Não. Gosto de muita coisa do cara, mas justamente as obras que ele não queria que tivessem sido publicadas foram as que não gostei. Entendo bem o porquê ele pediu pra que não as publicassem, mas enfim. Quando cheguei pra ler O Processo, que estava na lista de leitura, só consegui ler uns dois capítulos e o abandonei porque sem condições de ler aquilo. Foi o terceiro livro que abandonei na vida, mas não sinto remorso porque se tem uma coisa que descobri foi que a vida é muito curta pra se ler livros ruins. Ou, como o próprio Kafka disse: "Apenas deveríamos ler os livros que nos picam e que nos mordem. Se o livro que lemos não nos desperta como um murro no crânio, para que lê-lo?". 

Mas a grande surpresa de dezembro e do ano foi eu ter começado a ler uma série de vampiros adolescentes wiccanos. HAHAHAHAHAHAHA O que aconteceu? Eu tinha terminado Carta ao Pai, não estava sendo possível lidar com O Processo, então fui à biblioteca decidida a pegar um livro bem idiota pra passar o tempo e me livrar da vibe errada de Kafka. Aí peguei pela capa mesmo: uma capa estilo Crepúsculo, uma coisa gótica trevosa, mas com tons de rosa e preto, cujo título era Marcada. Decidi começar a ler pra me distrair mesmo. Só que acabei me apegando. Muito.


Vejam bem, os livros são mal escritos, a série tem D O Z E livros, mas mesmo assim acabei lendo 7 deles em 15 dias e tô na metade do 8°. O mais impressionante foi quando, numa dessas madrugadas, me peguei abraçada a um desses livros, chorando copiosamente pela morte de uma personagem, às 4h da manhã. 4 DA MANHÃ. Foi aí que percebi que estava ferrada. Mas a série House of Night, das autoras P.C. Cast e Kristin Cast, é realmente divertida e envolvente, e eu estava precisando de algo assim. Queria terminá-la ainda este ano, mas acho meio difícil ler 5 livros em 3 dias, RISOS. Porém, os lidos até agora foram: Marcada, Traída, Escolhida, Indomada, Caçada, Tentada e Queimada. Acho que terei de admitir que talvez tenha um fraco por histórias de vampiros. Talvez. 

Meldels, esse texto ficou maior do que eu pensei que ficaria, hahahaha Deixei as leituras teóricas fora daqui porque né, convenhamos. Mas agora vamos pra parte mais legal, vamos pra recompensa a quem me acompanhou nessa Bíblia até agora: as categorias vencedoras do ano! \o/ 

Peguei algumas da retrospectiva da Manu e outras acrescentei porque sim. Bora: 

Maior livro 

Certamente o maior livro do ano foi A Montanha Mágica, do Thomas Mann, que eu ainda não terminei (desonra pra mim, desonra pra minha família, desonra pra minha vaca), mas que tem nada mais, nada menos do que 900 páginas. É MUITA COISA. Já li umas 500 páginas dele - ou mais, não sei, parei de contar - e o troço não acaba nunca. Não que eu esteja reclamando, veja bem, ele é maravilhoso, tão maravilhoso que tô com outros 2 livros do Thomas Mann aqui em casa pra ler nas férias. Contudo, estou quase lá, gente. Ele vai ser lido por completo. É que deu uns rolos tipo ME ROUBARAM ELE, depois me devolveram e eu não saí mais de casa com ele por completo trauminha, então não deu mais pra lê-lo no ônibus, mas falta pouco, então acho que conta. Mas se não contar conta mesmo assim porque a retrospectiva é minha e só eu sei o que é carregar esse calhamaço de 2 quilos na mochila diariamente. Fora ele, o maior lido, de fato, até agora foi O Mundo de Sofia, do Jostein Gaarder, com 560 páginas. 

Pior livro 

~também conhecida como categoria stupid fucking book~
Não preciso nem pensar muito pra dizer que foi Cordilheira, do Daniel Galera. Sério, gente, eu peguei uma raivinha no coração desse ômi que virei crítica ferrenha do cara. Gostaria muito de um dia conversar com ele pra perguntar qualéquié porque seus livros não são apenas misóginos, são nojentos, são revoltantes. Eu quase vomitei várias vezes durante a leitura de Cordilheira e queria muito entender o que pensam as pessoas que, de fato, gostam desse livro e do Galera. Tanto escritor bom por aí e a Companhia das Letras publicando esse cara. Mas enfim. ~heavy breathing

Melhor livro 

Favoritei pouquíssimos livros neste ano, mas certamente o melhor deles foi As intermitências da morte, do Saramago. É sério, eu falei tanto nesse livro que meio que obriguei todo mundo ao meu redor a lê-lo, hahahaha Ele é simplesmente sensacional, me apaixonei mais ainda pela escrita do Saramago e quero ler tudo o que esse cara escreveu. O mais impressionante ainda a respeito desse livro é que ele tem um clichê dos clichês em uma determinada parte da história e MESMO ASSIM é maravilhoso. Isso é que é saber escrever! 

Melhor personagem 

Terei de dizer que a melhor personagem foi o Robô Descartes de um dos contos do livro Eu, Robô, do Isaac Asimov. Eu lia aquilo e gargalhava loucamente no ônibus, ao mesmo tempo em que sentia medo porque a revolta daquele robô é tão real que chega a ser plausível de certa forma. Essa coisa de inteligência artificial assusta pra caramba e pensar que o Asimov escreveu aquilo bem antes de existir tecnologias que possibilitassem tais coisas é algo assombroso. Ganhou meu total respeito. 

Maior fail literário 

Não ter terminado A Montanha Mágica ainda? Ter abandonado O Processo? Ter lido apenas 45 livros até agora? Acho que é um deles, mas no geral o ano todo foi um grande fail literário. Porém, não ter lido os únicos 3 livros que me propus a ler no ano foi realmente vergonhoso - e a meta 2016 vai se estender a 2017 ou até sabe-se lá quando porque minha vontade de ler Senhora, Quem é você, Alasca? e O ladrão de raios é zero, mas se estão na estante serão lidos. 

Quote preferido 

Não quero ser como os malditos livros entre os quais passo minha vida, cujo tempo está parado e sempre espreita fechado, pedindo que o abram para transcorrer de novo e narrar mais uma vez sua velha história repetida. 
— MARÍAS, Javier. Os Enamoramentos. p. 342. 


E é isso, pessoal. Foram 45 livros lidos ao todo, o que é uma vergonha haja vista que ano passado li 103, mas no geral foram leituras legais. Nem todas marcantes, mas interessantes à sua maneira e pude ler vários gêneros que até então passavam bem longe das minhas leituras (literatura de não-ficção, estou falando com você, e com você também, Y.A. sobrenatural). Espero que ano que vem a retrospectiva literária seja melhor, hahahaha 


 
Wink .187 tons de frio.