What is a rebel?

Sinto como se estivesse forçando a mim mesma a ser algo que não sou. Essa não sou eu. Não sou doce, não sou alegre, não sou simpática. Não gosto da maior parte das coisas existentes por aí. Não gosto de praticamente nada, e essa é a verdade.
Mas talvez o que eu mais odeie nisso tudo são pessoas medrosas. Eu nunca tive medo de ser odiada, nunca. Sempre achei uma honra ser odiada até. Mas há um certo tipo de gente que anda se propagando pelo mundo: o tipo medroso. Essas pessoas fazem de tudo para agradar aos outros, porque têm medo de serem odiados. Têm medo de assumir quem são de verdade. E na busca pela aprovação da maioria, eles esmagam a minoria que não anda junto na massa da moda. Whatever.

Ando revoltada. Sinto como se não vivesse, como se não estivesse dando meu melhor. E a verdade é que eu não estou. Eu me acostumei às coisas como são, à minha realidade. Mas o fato é que cada um cria a sua própria realidade. E estou reunindo forças para continuar, lutar e transformar a minha realidade para algo que me deixe satisfeita, para algo que seja como eu imaginei; ou ao menos perto disso.
Eu sei que posso fazer melhor do que isso, e é o que eu vou fazer: não vou ser como essas pessoas covardes que se submetem à convenções para entrar em grupos sociais. Vou ser eu mesma, e quem não gostar de quem eu sou que se afaste. Só assim eu saberei quem realmente está ao meu lado e quem está apenas fingindo.

Que se danem os holofotes: a vida é agora e eu não vou permitir que a minha seja desperdiçada. Não mesmo. E você; por quê não faz o mesmo? Experimente. É saboroso viver a vida sem dar a mínima para má reputação ou qualquer coisa do tipo.
Sim, pode ser que me chamem de rebelde. Chamem do que quiserem: eu estou vivendo a minha vida e aproveitando cada minuto dela. Porque o importante da vida não é quanto tempo você vive, mas o importante é ter uma vida fabulosa. E isso - I swear - eu terei.

(Mia Sodré está de volta, folks)

Love has a bad reaction

Se há algo que não entendo e provavelmente nunca entenderei é a obsessão estranha e descontrolada que as pessoas (principalmente as mulheres) têm com aquela coisinha louca chamada amor.
Alright, talvez você diga: "Quem essa louca pensa que é para falar assim de algo tão sublime quanto o amor? Essa menina é muito nova para ter alguma noção disso." Se você disse (ou pensou) isso, você está absolutamente certo. Eu sou sim uma louca que não entende nada de romance ou afins, e que venho aqui para escrever a respeito das ideologias malucas que vêm à minha muito fértil mente. Mas se há algo de que estou convicta nesse exato momento é de que o amor é uma fraude. Ponto.

As pessoas dizem que o amor chega na sua vida e muda tudo para melhor; que te deixa mais sorridente, mais tranquila, mais confiante, mais feliz. Eu sempre questionei toda essa "felicidade" que esses loucos apaixonados ficam simplesmente porque o amor não é essa coisa que te deixa em um estado de euforia e leveza do ser. O amor é totalmente o contrário disso. Ele é uma droga que arruína com sua vida e te deixa de coração partido sem saber o que fazer dali por diante. É ele quem cria os seus dilemas e suas frustrações. Ele bagunça toda a sua vida, te deixa de pernas pro ar, de casa virada. E tem menina que diz: "Mal posso esperar para viver um grande amor." Please, menina, acorda: sua vida é agora, tudo está acontecendo agora. Aproveite enquanto está sozinha, porque depois só vai restar uma grande bagunça em seu coração.

É como diz uma música (Pain is so close to pleasure) que eu gosto bastante: "Quando eu era jovem e estava só começando as pessoas conversavam comigo e pareciam amarguradas. Então eu cresci; e tudo que eu queria era começar uma nova relação. Tão apaixonado, mas o amor reagia mal. Eu estava procurando por uma satisfação à moda antiga. Mas tudo que eu tenho é dor quando tudo que eu precisava era um pouco de amor e afeto."
É basicamente isso que acontece com todo mundo. A pessoa cresce ouvindo os outros falando de amor, e não entende nada do que estão dizendo. Então, quando ela atinge certa idade, ela quer de qualquer forma começar uma relação com alguém. Mas então esse "amor" que ela pensava ter dá uma rasteira nela, a deixa com a cara no chão e a pessoa sofre pra caramba por apenas querer um pouco de amor.

É claro que o amor existe - eu nunca disse o contrário. Mas não da forma como as pessoas o idealizam. Você pode algum dia encontrar um amor para você, mas tem de estar ciente de que isso vai te machucar, vai te deixar pra baixo, vai transformar a sua vida de uma forma que você e irá se sentir confuso e totalmente perdido, sem saber o que fazer.
A vocês - que ainda tentam achar alguém - eu desejo boa sorte. Espero que estejam preparados quando isso acontecer.

(Mia Sodré adora bancar a psicóloga)

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Inverno do coração

Um vazio. Uma vontade de não sei o quê. Uma incerteza da vida. Uma pergunta sem resposta. "Viver não dói" - repete a mente a cada dia. Será? Será que viver é isso? Passar pela vida sem ser percebido não é uma experiência que quero ter. A vida é muito curta para ser vivida no tédio.
Quero ser alguém simples. Quero ser algo bonito, poético e completo. Quero falar sobre amor, paz e um chá de fim de tarde. Mas será que dá para ser tão simples assim? Não posso mudar minha essência. Não posso mudar quem eu sou. E nesse meio de cultura inacabada acabo nem aceitando quem eu sou e nem conseguindo mudar para o que quero ser. Porque é complexo demais, é coisa demais, é vazio demais. E não dá para passar do demais para o simples como quem lava o rosto e tira a maquiagem.

Como quem vai para uma festa e se transforma; volta para a casa, passa um desmaquilante, coloca um pijama e vira simples de novo. Não dá. As coisas são mais complexas que isso.
E em todo esse vazio ainda busco dentro de mim uma palavra que mude tudo, algo que faça sentido, algo que transforme as coisas e que tire todo esse tédio. Porque eu me acostumei. Me acostumei a mistérios, acostumei a ser eu. E agora que quero ser simples não consigo. Não dá. É inviável.

Acho que é assim que se fica após uma pancada atrás da outra - frio, sem sentir mais nada. O corpo já está tão anestesiado de tantas batidas que nem sente nada mais. Nem dor, nem amor, nem solidão, nem companhia. Nada. Um grande e inigualável nada. Um abismo. Uma ilusão. Será que é assim que se cresce? Duvido muito.
Mas eu não desisti. Sei que lá na frente tem algo bom para mim. E se mesmo assim eu falhar e cair, sei que Deus é quem está no comando de todas as coisas e essa fase vazia vai passar. Tudo passa. É só um inverno, - repito para mim mesma todos os dias - apenas mais um inverno. Inverno no coração.

Vai ter sonho, vai ter realidade, vai ter mudança, vai ter paisagem; terá amor, terá a flor recém desabrochada no sertão. Quis a calma, quis a tranquilidade - e consegui. Mas nunca imaginei que para ser calma teria de abdicar de meu sentir. Quem sabe eu ainda não volto a ser o que era? Quem sabe um dia?
E que Deus me ajude para que eu me levante novamente. E mais uma vez digo aos céus - amém - que assim seja.

Are you really in control?

Isso não é sobre você. Isso não é sobre mim. Isso é sobre algum tipo de futuro que eu ainda possa ter.
A verdade é uma incógnita estranha. Ela é relativa, ambígua, perturbadora. Pessoas matam para que a verdade não seja dita. Pessoas ficam estranhas quando ouvem a verdade. Porque ela machuca. Ela te esbofeteia. Ela ri de ti e te mostra o quão miserável você consegue ser com todas as suas mentiras. Essa é a verdade.
A verdade é que ninguém quer saber da verdade. A verdade é que cada um tem sua própria razão. A verdade é que tá todo mundo errado e sem direção. E eu também tô errada. Porque de tanto querer acertar eu errei. Porque a vida é feita de erros e de ilusões. A gente se ilude. A gente acha que tá certo e percebe que o outro também acha que tá certo. Mas no meio disso tudo vem um clarão que esbofeteia todo mundo e mostra que tá todo mundo errado. 

Mas a verdade dói. Reconhecer os erros dói. Mas o engraçado é que errar não dói. Errar é fascinante. Até porque quase ninguém erra por querer errar. As pessoas erram achando que estão certas. Elas realmente acreditam estar certas, e fazem as maiores loucuras para provar o quão certas são. Se tornam extremistas e estupidamente chatas na incessante busca pela verdade. 
O que elas não percebem é que tá todo mundo errado nessa história. Todo mundo se ferrou junto, e ninguém percebeu. Ninguém percebe quando está afundando. Só se vai perceber quando já se tem água nos pulmões. 

Ainda há tempo. Há tempo para a verdade. Há tempo para reconciliações e tempo para a vida. Quem administra o tempo que temos para as coisas somos nós. Às vezes nossas prioridades são tão erradas e falsas que nem percebemos o quanto mais há nessa vida. Porque a vida é isso: errar, aprender, afundar e ainda assim, sobreviver.
Você realmente ainda tem o controle da sua vida?

(Mia Sodré sobreviveu a mais esse naufrágio) 

Things of my mind

E você não me conhece. Não me entende. Vive se perguntando o porquê de eu ser sempre tão calma e não explodir nos momentos de raiva. E por não me entender, me critica. Critica porque no fundo queria ser como eu e passar com tranquilidade pelos momentos de stress que a vida proporciona. Critica porque vê o que as outras pessoas falam de mim, entra no jogo e fala também; me enche de provocações e mesmo assim o que eu faço é escrever. Escrever e sorrir. Mas vou lhe contar algo.

Eu não era assim. Não tinha esse sorriso frio e esse olhar de quem não sente nada. Nem sempre fui insensível desse jeito. Ah não. Eu era como você, como todo mundo: uma pessoa passional, que reagia de forma exagerada mediante acusações indefinidas. Mas de tanto que as pessoas aprontaram contra mim, eu mudei. 
Aprendi que um sorriso deixa seu inimigo confuso. Aprendi que a melhor arma que se pode usar é a tranquilidade. E de tanto fingir que não me importava com as coisas que aconteciam, acabei por acreditar. Hoje nem me importo. Só repito pra mim mesma: "Vai passar. Se não for hoje, será outro dia". 

Porque na verdade o mundo e as pessoas são incrivelmente manipuláveis. A gente é que se estressa à toa. Aprendi a externar o que sinto através das palavras. Afinal, se eu fosse tentar me explicar, ninguém entenderia nada mesmo. Mas não sou para se entender. Não sou para qualquer um. Nem todos conseguem ver através de mim, e os poucos que conseguem enxergar algo fogem; por não saber lidar com o que viram. Porque eu sou demais. É tudo em excesso. Emoção demais, sensibilidade demais, tranquilidade demais, auto controle em demasia. 

E ninguém entende nada. Nada de mim. Então me julgam, criticam, falam, inventam. Porque se sentem tão confusos e perdidos ao olhar para mim e perceber que apesar de tudo que fazem contra mim ainda continuo sorrindo. Aprende: não sou um livro que você tem de ler e interpretar. Sou mais para uma música: você precisa fechar os olhos e sentir. Apenas sentir. 
Mas eu agradeço a vocês, que me criticam tanto, mesmo que pelos motivos errados. Quem recebe muitos elogios não cresce, apenas se acomoda. E graças a tudo que você fazem contra mim, cada vez mais eu me fortaleço e fico melhor. 
Ok, eu prometo que vou tentar parar de escrever tanto sobre mim mesma. Mas é necessário que eu escreva antes que enlouqueça. 

Precisei escrever

Precisava escrever e buscar no contorno das letras os fragmentos de mim.
Há dias em que tudo é tão nublado, tão tempestuoso, tão quieto e calmo que a agonia de viver me consome. Mas não da forma tradicional, como acontece com os jovens da minha idade quando estão entediados - não - o que acontece comigo é que fico sem reação. Nada a fazer a não ser ficar sozinha com seus pensamentos. São tudo o que tenho. Eu e a minha maneira de encarar a vida. De lidar com as coisas; de ser antipática e de estar absurdamente certa na maior parte das coisas.

As pessoas pensam que eu gosto de estar certa e de quase sempre ter razão. Mas elas não fazem ideia do quão difícil é ter 17 anos e não se encaixar em nenhum grupo considerado normal na sociedade contemporânea. Ser a ajuizada da turma tem suas implicâncias. Se bem que nem turma tenho mais, dado ao meu total desprendimento social. Às vezes penso que a única coisa que me mantém conectada ao mundo é meu corpo - a matéria - porque, enquanto as pessoas falam comigo e passam por mim, eu continuo ali, inerte; vendo e ouvindo as coisas, sem reação alguma. Ao menos aparentemente não. Porque a minha mente trabalha incessantemente afim de achar algo que nem eu sei o que é. Algo inovador, algo diferente, surpreendente, que me tire dessa inércia e que transforme tudo ao meu redor.

Eu precisava escrever sobre isso, e nem sabia como. As horas correm no relógio e eu estou aqui, tentando colocar em palavras o que ainda nem compreendo com a mente. Há algo grande, sublime, fantástico na arte da escrita: ela libera coisas que você nem imagina conter dentro de si. É fascinante poder expressar um milhão de coisas, de sentimentos, de saudades, de pensamentos, de ideias em apenas uma página abandonada de um blog não muito lido.

E como fica tudo então? E a vida, os amores, as festas e os amigos? Tudo é ilusão. A verdade é que o que eu preciso está dentro de mim, está na alma, na mente. Esse desejo de liberdade é como uma tatuagem na pele, que nunca vai sair. Nasceu comigo, cresceu junto com minhas curvas, se expandiu em minha pele, e o que era apenas uma pequena mancha, hoje ocupa quase que o corpo inteiro. Agora é esperar: esperar que algo de novo aconteça para que eu possa iniciar um novo capítulo do meu livro de histórias.
Será que você estará nele?

(Mia Sodré realmente precisava escrever)

Someone is watching me all time

Você pode dizer que eu sou louca por querer tão alto assim, mas tenho certeza que um dia entenderá. De que adianta viver uma vida sem aspirações a grandes coisas? Quero ser grande, quero ser apenas eu. Sim, eu sou louca, eu imagino coisas. Mas somente aqueles que são loucos de sonharem coisas grandes para suas vidas são os que concretizam e mudam a história do mundo.
Eu sei que você tentou com muito esforço tirar tudo o que eu tenho, tirar minha força de vontade e me deixar desanimada. Mas eu estou pronta para isso. Está satisfeito agora? Só conseguiu me fortalecer mais ainda, e acredite, estou cada dia mais feliz e com planos mais altos. Acho que é como o Queen cantava em uma de suas músicas: "Another one bites the dust" (Mais um come poeira). Mais um se deu mal tentando me derrubar, como sempre. E quanto aos meus sonhos? Bem, eles estão cada vez mais firmes e cada vez mais altos, da forma que eu mereço.

Afinal, estamos falando sobre mim aqui. Estamos falando da maluca que passa o dia lendo e estudando táticas psicológicas para ficar cada vez mais forte. Não é qualquer comentário que me deixa para baixo, que o fará quando este vem de pessoas tão baixas quanto vocês. Cada vez que algo acontece comigo e que parece que eu vou ficar para baixo o que realmente ocorre é justamente o contrário: me fortaleço mais ainda e cuido mais de mim. Porque se eu não me cuidar ninguém vai fazer isso por mim. Até porque o plantão da mamãe já acabou há tempos (ou deveria ter acabado, mas como sou cara dura ainda peço ajuda dela para várias coisas).

Devo confessar que eu me acho uma sortuda no final das contas. Porque veja bem: há tantas pessoas que se sentem invisíveis no mundo e que vivem tristes e abatidas pelos cantos por ninguém se importar com elas; já eu não tenho esse problema. As pessoas se importam tanto comigo que chegam a esquecer de suas próprias vidas para se concentrarem apenas na minha. Quer dizer, elas poderiam estar fazendo algo de aproveitável, como cuidando de suas vidas, estudando ou até mesmo dormindo. Mas elas perdem literalmente o sono pensando em mim e falando de mim. Eu me sinto honrada com isso, sinto que sou praticamente uma celebridade (hahaha). Essa é a melhor coisa que poderiam fazer por mim: me vigiar. Mas o fato é que quem nasce com alma de artista sempre atrai os olhares curiosos, mesmo que seja desconhecido ainda.

Sim, eu sei que estou me achando demais. Mas eu tenho motivos pra isso. Dão tanta importância para cada coisa que faço, que digo ou que visto que literalmente me sinto uma artista no lugar me que vivo. E isso é tão bom; só aumenta ainda mais a minha convicção de que um dia vou sair dessa pátria amada mãe gentil e ser algo grande lá fora. Enquanto isso, peço a todos que me odeiam: por favor, não parem de me odiar. Se algum dia pararem com isso nem sei o que farei da minha vida. De verdade. Eu amo vocês. (E sei que me amam também.)

Fear no more

Se há algo que é certo nessa vida é a morte. É algo inevitável, prometido a nós desde o dia em que nascemos. Mas antes dessa promessa se cumprir, nós todos esperamos que algo de interessante aconteça a nós. Todos esperamos passar por algo que torne nossas vidas significativas. Mas o fato mais triste é que nem todas as vidas têm esse significado, alguns apenas vivem sem viver. Alguns apenas passam a vida esperando que algo aconteça a elas antes de irem embora definitivamente. 
Nunca gostei da ideia de dizer adeus às coisas. Apenas o breve pensar em partir me deixava sempre muito confusa, muito impotente, muito bagunçada. Sempre quis ser imortal, fazer grandes coisas, ser lembrada pela eternidade. Sonhei com grandes esculturas, homenagens, lágrimas e um sentimento de perda por minha partida. Sempre fantasiei demais, é verdade. Mas quem nunca fantasiou na vida? 

Vocês devem estar assustados, afinal nunca fui de escrever cartas ou demonstrar sentimentos em vida, mas há algo de extraordinário na morte: ela consegue fazer coisas que nunca pensamos enquanto tínhamos todo o vigor da juventude. Nela há reflexões, saudade, nostalgia. Há um certo tipo de mágica fatal que a envolve. Devo confessar que sempre pensei que me sentiria angustiada nessa hora, mas agora me sinto tão aliviada, como nunca estive antes. Sim, alívio, é tudo o que sinto. É indescritivelmente incrível o que acontece com você nessas horas: seu cérebro parece estar fora do corpo, você já parece estar em uma outra dimensão, apesar de este ser o mesmo ambiente em que passou parte da vida. 

Durante minha vida, sempre fui uma pessoa muito observadora, sempre me preocupei com detalhes. Tentei tanto ser lembrada depois da morte que acabei me frustrando em vida, procurando almejar a perfeição. Agora vejo que tudo isso não passa apenas de uma breve ilusão, e que viver com medo de algo não é viver. Quero que todos vocês saibam que não tenho arrependimentos, de forma alguma. Sempre fiz tudo o que quis fazer, sempre fui o centro das atenções e isso foi muito satisfatório por um tempo, apesar de todos os problemas que me trouxe também. 

Se há algo que eu lhes peço é o seguinte: não falem de mim após minha morte como uma pessoa praticamente "santa", como muitos fazem com seus entes queridos. Não disfarcem meus defeitos; pelo contrário: exponha-os, juntamente com as qualidades, pois foi com toda essa mistura entre bem e mal que consegui chegar onde cheguei. 
De repente, eu consigo ver claramente o mundo que estou deixando para trás. Apesar de meus sentidos já estarem bem enfraquecidos; sabores, toques, cheiros e sons já começam a se tornar uma memória distante. Claro que a maioria das coisas que são visíveis para os que já partiram são visíveis para os vivos também; se ao menos eles parassem para ver. 

Agora as lembranças, apesar de distantes, estão se tornando cada vez mais claras. Sim, eu me lembro do mundo, de cada detalhe. E o que eu mais me lembro era de quão assustada eu era. Que bobagem! Viver com medo nunca é viver de verdade. Gostaria que as pessoas que deixo para trás soubessem disso, mas será que faria alguma diferença? Provavelmente não. Sempre vai ter quem encara seus medos e quem foge deles. Eu encarei os meus, e estou aqui agora. Será que esta é a alternativa correta? Não sei. Mas de qualquer forma quero que saibam que sentirei saudade de todos vocês, que fizeram parte da minha vida, e espero que de alguma forma eu possa ter feito diferença nas suas. 
Até algum dia. 

Esta é uma carta fictícia escrita especialmente para o Projeto Bloínques, 48° edição de cartas.