Mercúrio e a sereia

Recipientes vazios não me enganam mais. Desisti de dar atenção a quem não me acrescenta em nada. Há apenas uma vida e o que eu devo fazer é aproveitar cada pequeno momento, cada conversa, cada gesto. Fazer queimar sempre, fazer com que a chama do novo, do aproveitável, do excelente dure sempre e esteja cada vez mais forte. Somos fortes, meu bem, somos fortes. Você é a chama e eu sou a tempestade. Eu levo as pessoas para águas profundas e mostro-lhes o vazio de si mesmas, mas você as leva para o fogo, para as chamas de seus pecados e lhes mostra que a vida pode arder sempre. Ininterruptamente você o faz. Enquanto eu sou a calmaria de uma tempestade, você é o calor de um vulcão. E por mais que os opostos se atraiam, sabes bem que se estivéssemos juntos, um anularia o outro. Incompatíveis.

Mas minha alma gêmea é barco, é pescador, é peixe. E eu sou a sereia que atrai os marinheiros com sua voz melancólica e seus olhos traiçoeiros. Todos eles vêm e se encantam ao ver aquela sereia sobre rochedos, completamente sozinha. O que eles não sabem é que ela é a perdição. Eu sou ela, meu bem; eu os levo à perdição. E você não aguentaria o frio que faz lá, pois você é lava, é Mercúrio, é chama. Inferno, Ades, ficai onde estás pois aqui não é teu lugar.

Meu lugar é nos rochedos, na solidão eterna, no misterioso mar em meio a tempestade. Meu lugar está no canto melancólico, nos olhos grandes e tristes e na pele pálida. Teu lugar é no Olimpo, é de Mercúrio, é quente, é alegre, é raivoso. Teu lugar é longe de mim e longe de tudo o que represento.
Deixa; deixa que as águas profundas e misteriosas me escondam entre os rochedos, deixa que ali eu permaneça e te enlouqueças com o vinho, longe de mim e à parte de mim. Sempre te anularei e sempre me anularás. Antes separados do que inexistentes.

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Intensidade

Intensidade. Não tenho mais ela, não tenho mais ritmo. Na verdade, estou perdendo toda minha sanidade. Mas eu estou bem, estou okay. Não tenho mais nada a falar. As palavras escaparam de mim como se fosse um fantasma. E não o sou? Sou um fantasma, uma sombra quase invisível do que já fui. Apenas um vento passando entre árvores, como uma brisa. Para onde foi a tempestade? Para onde foi minha intensidade? E meu gênio, onde está? Tudo não passou de uma brincadeira do cruel destino, eu sabia, eu sabia. Bem me disse minha intuição. Mas ouvi-la? Isso era demais para mim, sempre foi. E agora onde está minha intensidade?

Não quero ser rasa, não posso ser. Prefiro não viver do que viver uma vida razoavelmente. Ou é tudo ou é nada, não quero meio termos. Não os suporto. Não suportaria nem mais um dia nessas condições se não fosse pela esperança de viver ainda dias melhores, dias mais festivos, melancólicos e intensos. Deus não me deu toda essa melancolia para que ela se guardasse dentro do meu peito quando bem entendesse - ah não! Quero colocar tudo para fora, mas como fazer isso se eu me escondi dentro de mim mesma? Isso é complexo demais para minha pobre alma já desfalecida. Isso é demais.

Como Fernando Pessoa escreveu certa feita: "não grites, não suspires, não te mates: escreve." Mas por Deus, escrever sobre o que? Tudo já foi dito, revirado, traduzido e inspirado. O que fazer a esta altura? Escrever? Pois bem, eis o que faço. Escrevo para não me matar. Escrevo para não perder a pouca sanidade que me resta. Escrevo desde que me entendo por gente porque ninguém pode entender que eu era gente. C'est la vie.
Sei que aguento; é duro mas eu aguento. Só peço ao Senhor dos Céus que me envie de volta minha intensidade, que eu consiga o máximo de forças para fazer a revolução de que preciso e que minha voz não se silencie jamais, mesmo que eu esteja soterrada dentro de mim.

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Comédia dramática

Alice abriu o livro e fechou a cara.
- Tragédia, tragédia, tragédia. Eu sou uma tragédia!
- Não diga isso, menina boba! Você não é uma tragédia. Você está muito mais para uma comédia dramática, isso sim!
- Não, Nana; eu sou uma tragédia! Olhe para mim: eu estou sempre sozinha e isso não se dá por eu não ser interessante ou pela falta de aproximação dos outros. Isso se dá porque eu sempre acabo afastando as pessoas de mim, mesmo sem querer. Eu sempre me saboto, Nana!
- Oras, então pare com essa autossabotagem, Alice. Seja uma pessoa simples. Por que você não pode ser simples e se contentar em sair e se divertir com as meninas Thompson?
- Porque eu não sou simples, Nana. Eu sou uma tragédia, já lhe disse isso. Que graça tem em ficar falando sobre rapazes com as meninas Thompson se eu posso estar fazendo engenhos de como voar? Ah, eu queria ser um pássaro, Nana, um pássaro. Então eu voaria e zombaria de todos vocês por não poderem me alcançar.
- Não diga tolices, menina! Ninguém pode voar, todos sabemos disso. Se insistir com essas sandices, te mandarão para o Dr. Shulders, e você sabe o que acontece com pessoas dotadas de ideias malucas como as suas, não é?
- Não tenho medo do Dr. Shulders, Nana; você já deveria saber que sou mais esperta que ele. Se me prenderem, eu fujo; simples assim. Eu sou fabulosa, querida, e é por isso que nunca serei pega.
- Quanta sandice para uma só menina! Primeiro, você diz que é uma tragédia, depois diz que é fabulosa. Decida-se!
- Mas é verdade, Nana: eu sou uma tragédia. Tragédias quase sempre são chamadas de fabulosas, comédias não. Por isso eu não sou uma comédia; eu sou uma fabulosa tragédia, daquelas que vão para as calendas gregas. É isso, Nana: eu sou grega. Tenho quase certeza de que fui Helena de Tróia, na verdade. Ou talvez tenha sido Olímpia, por que não?
- Por Deus, Alice, vá para a cama antes que me deixa tão louca quanto você. Amanhã espero que já tenha esquecido dessas sandices.
- Nunca, Nana, nunca esquecerei de meus sonhos. Mas farei o que me pede: irei para a cama. Por enquanto. Quem sabe eu não fuja ainda esta noite para as Índias? Mas pode ter certeza: eu ainda farei algo pelo qual serei lembrada.

Alice adormeceu durante o silêncio noturno e o pio de uma coruja, mas em sua mente ela planejava toda sua vida, como se fosse um mapa mental, e ela sabia que um dia as coisas mudariam, porque ela podia fazer melhor.
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Pessoal, esse é o início de um conto. Se vocês tiverem paciência de lê-lo, parte a parte, postarei o resto até o fim do ano, ok? Espero que gostem. Kisses. 

Reflexo distorcido

Para se ter certeza de algo, deve-se pôr todas suas convicções à prova. A verdade só se revela quando está na corda-bamba. Ponha tudo em risco, duvide de suas crenças, use todo seu intelecto para chegar ao fundo de suas convicções.
Serão elas verdadeiras ou apenas reflexos dos pensamentos de seus próximos? Ah, se surpreenderia ao descobrir que mais da metade das coisas em que cremos são irracionais e advindas de nossos ancestrais. Mas o que é racional neste mundo? Diga-me, Catherine, o que há de racional na vida? A vida é apenas um breve sonho e nossas crenças não passam de uma herança de nossos antepassados. Nada é novo, nenhuma ideia é realmente nova. Tudo se torna absorto com o tempo. Nossas esperanças se tornaram vãs, tão vãs quanto um homem que se admira no espelho e logo se esquece de sua figura. Você é a mais intensa das criaturas e mesmo assim não passa de um amontoado de convicções moldadas entre histórias ouvidas ao crepitar das chamas de uma lareira.

Sabes tão bem quanto eu que nunca questionaríamos essas coisas se a vida não nos forçasse; seja por medo de termos nossas convicções abaladas ou - pior ainda! - por puro comodismo de uma crença que foi marcada em nossas almas como a quem marca um animal no campo. Nossos ideais são tão vagos; casar, ter filhos e sermos bons maridos e boas esposas. Tudo isso é tão infame quanto um homem que cai da escada de sua casa por estar embriagado pelo vinho e morre, deixando como memória póstuma apenas sua tolice. Essa não é a verdadeira vida. Há de haver mais! Mas não procuramos, porque estamos assustados demais, ou porque estamos confortáveis demais ou porque a vida seja feita de procuras e nós somos preguiçosos demais para tais buscas. Mas a verdade não é feita por pessoas desleixadas, Cathy; a verdade é feita por aqueles que se arriscam, que perdem tudo em que acreditavam apenas para que suas almas possam estar em paz no dia do juízo.

Mas os pensamentos são tiranos que sempre vêm nos atormentar. De qualquer forma, já está tarde e receio que a tempestade virá mais depressa do que prevemos. Irei me recolher; e quanto a você, reze por sua alma pois a misericórdia não estará sobre esta casa nesta noite.

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Desejos de primavera

Que se renove. Que se renove a vontade de morrer de rir, de escalar montanhas, de acordar cedinho apenas para ver o nascer de um novo dia. Que se renove a vontade de mudar e de ser mais completo, mais bonito, mais elegante, mais ser humano. Que se renovem os laços de amizade, os laços de família - mesmo aqueles que não são sanguíneos. Que se renove a poesia de cada amanhecer, o canto dos pássaros e os gemidos dos ventos. Que nossa vida seja vivida como se não houvesse um amanhã, como se cada minuto traçasse nossos destinos - e, na verdade, traça.

Que a suavidade do tempo nos leve por montanhas repletas de árvores e caminhos repletos de jasmim. Que o tesouro guardado a sete chaves que o destino nos reserva tenha um mapa que indique um caminho difícil, mas lindo. E que possamos passar por várias encruzilhadas, emboscadas e grandes surpresas até o acharmos. Que contemos nossas grandes histórias para nossas famílias, daqui alguns anos, em torno de uma grande lareira, com decoração de Natal e biscoitos de chocolate com marzipã.

Que seja suave nossa passagem para o mundo além. Que as tristezas se convertam em livros e as alegrias, em retratos. Que possamos tirar da vida o que ela tem de mais fabuloso: magia. Que possamos enxergar com olhos de fada e perceber que a única coisa que precisamos fazer para trilhar nossos destinos é apenas viver, com a certeza de que as coisas vão dar certo e que os céus conspiram a nosso favor.
E tenhamos sempre em mente que o para sempre é o nosso hoje.

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It's a kind of magic

Em seu mundo de solidão, sentia que as palavras eram seu escudo, e que este escudo era inquebrável. Poderia enfrentar mundos através de suas palavras. Contemplava tudo pelos vidros embaçados da janela de seu quarto, mas as palavras a faziam viajar e conhecer grandes coisas. Havia uma certa mágica no ar que apenas ela podia ver, apesar de que às vezes as pessoas a seu redor sentiam algo de especial, algo de diferente, algo único. Mas não conseguiam identificar o que era. Só ela sabia, e sentia que isso a fazia especial - era um dom, o dom de enxergar através de palavras.

Não a entediam muito bem, mas quem precisava de compreensão quando se vive em um universo mágico? Isso já não era mais necessário. Em seu universo, até a tristeza ou a dor poderiam se tornar bonitas, teatrais - tudo fazia parte de um roteiro que levaria a um final feliz no desfecho da história. E essa confiança a fazia crer que encontraria o fim do arco-íris algum dia e que seria escandalosamente feliz.

Lá fora chovia e fazia muito frio, mas ali dentro era seco e morno. E mesmo que coisas mornas não sejam um ideal para ser vivido, ela estava contente pois sabia que isso era apenas uma fase. O próximo passo era abrir sua janela e explorar um mundo novo, à sua maneira.

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O amor ainda é a resposta

Por mais que eu procure a mim mesma, é sempre outro alguém que encontro. Talvez porque eu já não seja eu mesma há muito tempo. Se pode ouvir minha alma chorando por estar perdida. Corpo presente sem coração. E muito pouco me toca, mas quando toca entra no fundo da alma como uma espada afiada procurando por mim.
Me perdi assim que encontrei seus belos olhos azuis, profundos como o oceano, cheios de mistério. Pensei em apenas molhar os pés no azul desse oceano e quando dei por mim, já estava lá dentro, flutuando em azul noturno - sem saída, sem expectativas. Tudo que ouvia era o eco de minhas próprias palavras e minha pele se desprendendo de meus ferimentos.

O que você não entende é que sempre há um saída, mas nem sempre podemos acha-la sozinhos. Quanto a mim, meus ferimentos só precisam de amor para serem curados. Posso ter perdido muito de mim nesse oceano, mas o que ficou é verdadeiro e forte o suficiente para me fazer voltar à areia. A dor e a rejeição transformaram minha solidão azul em barco - não de remos, mas a motor. O vento levará o barco para onde ele decidir, o destino o guiará. E o barco vai conforme a correnteza - não a de seus olhos, mas a do vento lá de fora, que puxa esse barquinho de volta à orla de uma praia branca.
De fato, o barco aprendeu sua lição: nunca mais navegará em águas profundas, azuis e enganosas.
Um novo dia irá nascer para aqueles que suportarem a correnteza.

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Uma noite na ópera

Ela sabia que era tarde. Sua alva pele aos poucos se transformava naquilo que sempre detestou - plebe, comum. Era um movimento repetitivo, uma espécie de autotortura que fazia ao confrontar-se consigo mesma, ao confrontar-se com sua verdade velada em espelhos. Estava, aos poucos, envelhecendo e toda a maldade de seus pecados ocultos e ininteligíveis se reuniam para lhe assombrar à frente daquela superfície espelhada que fora um dia tão admirada por revelar um ideal grego de outrora.

Essa era a vida real ou era apenas uma escapatória da realidade? Ela não sabia. O que sabia é que há tempos não se manifestava com tanta paixão e todo aquele vazio, aquele oco em seu estômago havia sido preenchido por um transe feito de puro êxtase por seu mais belo objeto de estudo: seu reflexo.
Tarde demais, sua hora havia chegado. Tudo doía em seu corpo, mas o que mais doía era encarar o reflexo das consequências do tempo, consequências de seus pecados, consequências de sua imprudência. Doía mas a fascinava como nada no mundo havia feito antes. Sim, pois aquela superfície espelhada lhe exercia um fascínio e um temor nunca vistos antes. Era um transe, como quando Narciso apaixonou-se por seu belo rosto. Sim, era exatamente isso, porque nada realmente importava além de seus preciosos vincos. O inferno iria lhe pegar; a morte iria lhe esperar. E ninguém a podia escutar.

A gargalhada histérica que manisfestou ao ver o reflexo do que havia se tornado a acordou daquele pesadelo infame. De fato, acordou a todos que estavam ao redor. As sombras da felicidade lhe traziam amargura por lembrá-la daquilo que não poderia ter novamente: sua inocência.
Fora apenas um sonho. Apenas um terrível e vívido sonho. Nada mais que um reflexo de sua consciência repleta de luxúria.
A verdade era então uma chama que ao mesmo tempo que queimava ao ser tocada, aquecia e iluminava aqueles que não a temem. 

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Compromissofobia

Sou um dos seres mais contraditórios que existem. Amo cabelos curtos e lisos, no entanto o meu é enorme e ondulado. Detesto a cor rosa, porém as paredes do meu quarto são de um rosa bem forte. Amo pessoas em geral, mas morro de medo apenas em pensar em ter uma relação séria com alguém. É como naquele verso de Dead on time: "Fool, you got no reasons, but you got no compromise..."
Minha compromissofobia acaba com todos os meus relacionamentos. Sempre é a mesma história: o menino me conhece, me acha uma garota excêntrica e incrivelmente encantadora (não estou exagerando, é o que eles dizem), ficamos amigos, ele me pede em namoro, eventualmente eu aceito (ou não) e ele acaba me pedindo em casamento. Fim da história - eu termino na hora, me esquivo completamente.

Apesar de eu amar me relacionar com pessoas, é fato que eu temo por minha liberdade. Minha mente fica o tempo todo repetindo a mesma sentença: 'e se...'. 'E' e 'se' são palavras que não têm um sentido amplo quando separadas, mas quando juntas podem fazer uma revolução na vida de qualquer pessoa. Então, me pergunto: será que me afasto porque nunca gostei de verdade ou me afasto pelo simples medo de ter compromissos?

O fato é que acredito piamente no destino e em minha muito fértil mente tento me consolar dizendo que um dia aparecerá alguém certo para mim, que seja tão louco quanto eu, tão cheio de liberdade e êxtase emocional e paixão pela alma quanto eu - e que também terá medo de compromissos - e então não teremos grandes conflitos porque nenhum de nós irá falar sobre grandes passos, como casamento, mas apenas viveremos a alegria de estar juntos em harmonia, sem pensar no amanhã.
Coração vazio, vagas abertas. Alguém se habilita a encarar esse desafio?
(Mia Sodré gostaria que alguém a amasse através das coisas que ela escreve.)

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Vítimas

Quando nós éramos pequenos nós brincávamos de girar. Girávamos sem parar, por um bom tempo, mas ficávamos tontos e caíamos. A vida é assim: se você não tiver um foco, um ponto fixo para olhar, você acaba ficando tonto e nem percebe quando vai cair. Me pergunto se a alegria de girar é mais importante do que a dor que a queda iminente irá causar. Mas a vida é feita de riscos, de desafios. O problema é quando nos tornamos vítimas de nós mesmos.

Qualquer um pode se tornar uma vítima - seja caindo, seja por uma injustiça ou por ter uma faca contra seu pescoço. Mas a vítima mais em perigo que todas é aquela que é vítima de si mesma. Aquela que se aprisiona em alguma situação por medo do que pode acontecer. Aquela que vive reclamando de sua vida mas não faz nada para mudá-la. Aquela que tenta ser boa com todos porque não consegue perdoar a si mesma por um mal feito no passado. Todos podemos ser vítimas mas chega uma hora em que precisamos nos reerguer e continuar nossa vida. 
E se não pudermos, só nos resta pedir ajuda. 

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A espectadora

Vazio. Nada na mente, nada no coração; não mais. Imaginei que a esta altura estaria com quase todos meus desejos realizados, feliz e fazendo planos. Mas tudo o que faço é sobreviver - por puro instinto. Deitada, olhando para o céu em uma bela tarde de outono percebo-me incompleta. Há tanto para viver e eu estou aqui: à parte de tudo, longe de tudo.

Hoje sou apenas uma espectadora de mim mesma, do mundo. É bem verdade que sempre fui assim: alheia. Lembro que antes ficar apenas observando as coisas ao meu redor era razão suficiente para me deprimir e arquitetar cortar pulsos. A diferença é que, agora, meu mundo não é mais um esconderijo forçado de coisas que doem. Faz frio aqui dentro - mais do que lá fora, para ser sincera. Mas não dói. Sou alheia a tudo e ao mesmo tempo, parte de tudo.
Ser espectadora nunca havia sido tão bom.

Robotizada

Não sou um robô. Mas gostaria de ser. Gostaria de ter metade da frieza que as pessoas dizem que eu tenho. Se eu fosse um robô e não tivesse um coração que bombeia sangue, não precisaria me preocupar com minha arritmia, meus sentimentos e nem com essa nostalgia que me visita toda a noite.
Se eu fosse um robô não seria tão difícil ignorar as pessoas que me fazem mal, cortar relações e seguir em frente. Se eu fosse feita de metal nunca me preocuparia com o que os outros sentem quando eu falo algo que é verdade.

Não teria problemas com esse sangue que corre em minhas veias, com essas vontades que me levam à loucura, com esse amor desregrado e com essa consciência que precisa estar tranquila. Se fosse um robô nunca associaria músicas a pessoas e não teria problema em ouvi-las quando essas pessoas me decepcionassem. Aliás, nunca me decepcionaria: seria apenas razão, ciência exata, meticulosidade. Nada poderia me afetar (a não ser um curto circuito).

Sem dores, sem amores, sem emoções, sem sofrimentos.
Mas eu não sou um robô. Sinto coisas que não sei expressar; coisas tortas, coisas ininteligíveis. Prometo que farei um esforço: quem sabe não ganho uma liga metálica? De metal, então, seria.

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3 p.m.

"Chegou o dia em que os servidores celestiais vieram apresentar-se diante de Deus, o Senhor, e no meio deles veio também Satanás. O Senhor perguntou:
– De onde você vem vindo?
Satanás respondeu:
– Estive dando uma volta pela terra, passeando por aqui e por ali.
Jó 1: 6-7

Quando eu era pequena, minha mãe sempre dizia para ter cuidado à noite, porque - segundo ela - coisas estranhas aconteciam. Ela dizia que o Diabo estava sempre passeando pela Terra, rondando os humanos e espreitando por uma brecha onde ele pudesse entrar e trazer destruição. Nunca compreendi o que minha mãe dizia, mas sempre ouvi seus conselhos e nunca havia saído da cama à noite; até hoje. 

Acordei subitamente no meio da noite após um terrível pesadelo. Estava toda suada, ofegante e com medo. É verdade que sempre tive pesadelos, mas nunca foram tão reais quanto esse. Estava me recuperando do susto e tentando voltar a dormir quando ouvi um barulho. Parecia ser uma porta rangendo. Meu coração congelou, mas decidi permanecer na cama; "Deve ser apenas o vento." - tentei convencer a mim mesma. Minhas mãos seguravam firme a borda do cobertor que me cobria e eu tentava mais uma vez relaxar e dormir. Foi quando ouvi lentos passos na escada de ferro que leva até meu quarto. "Provavelmente é minha mãe." - pensei. Sentei na beirada da cama e olhei para o quarto da minha mãe, que fica ao lado do meu: a porta estava aberta e ela parecia estar dormindo. Mas se não era ela subindo a escada, quem estava subindo? 

Lentamente levantei da cama e me dirigi até a porta do meu quarto que dá de frente para a escada de ferro. O que eu vi naquela escada é algo que apenas pessoas malucas podem ver - ao menos, eu pensava assim. Aquilo não era humano, e é só o que posso dizer. Corri para o quarto da minha mãe tranquei a porta e a sacudi depressa. 
- Mãe! Mãe, acorda, agora! 
- O que foi, menina? Por quê não está na cama?
- Tem uma coisa na escada, mãe, e está vindo me pegar. É horrível, nojento, enorme...
- Calma, menina. Me conte exatamente o que você viu.
- É um bicho com patas de porco, pernas de cavalo, peito de lobo, só que amarelo, e braços enormes, quase encostando no chão. Ele está vindo, mãe. Depressa, me ajude a empurrar esse armário contra a porta. 
- Filha, isso não é um bicho. Está vendo o relógio? 3 p.m. Sabe o que isso quer dizer? 
- Mãe, isso é hora de ver o relógio? Me ajuda aqui; rápido! 
- 3 p.m. - a hora inversa da morte de Jesus. Os antigos sempre diziam que nessa hora os portais sobrenaturais se abrem, como se fosse uma zombaria contra Deus, e os demônios invadem a Terra procurando por quem possam destruir. O que você viu, querida, não é um bicho, mas sim, Samhein, um dos chefes das potestades terrestres. 
- O que vamos fazer?
- Orar. Apenas orar. Nada mais pode ser feito. 

Minha mãe e eu começamos a orar naquele quarto enquanto aquele demônio forçava cada vez mais a porta. O armário que estava contra a porta começou a balançar e balançava cada vez mais. Coisas começaram a cair de dentro dele e ouvimos o ranger de uma porta. Os telefones não funcionavam, tampouco havia luz. Estávamos sem saída e o demônio estava prestes a entrar. Então, repentinamente, o barulho cessou. Esperamos em torno de 1 hora para ver se aquela coisa havia ido embora. Abrimos a porta e não havia ninguém lá, a não ser minha mãe e eu. 

- Filha, graças a Deus esse pesadelo já passou. Acho que agora podemos voltar a dormir, estou exausta...
- Não tão cedo, mamãe. 
- Você não é minha filha!
- Não, eu não sou. Mas preciso dizer: esse corpo é uma delícia. E você caiu direitinho. Tantos anos de religiosidade não serviram pra nada? Você realmente não aprendeu nada?
- Saia desse corpo seu demônio imundo. 
- Ah, eu vou sair - não se preocupe - mas você vai comigo. 

E foi aí que o demônio que estava possuindo meu corpo quebrou o pescoço da minha mãe. E eu assisti tudo. Sim, pois eu estava consciente durante toda a possessão. E é isso o que aconteceu, policial, acredite ou não. Eu nunca faria nada de mal à minha mãe. Mas há um mal que ronda a Terra e está sempre a espera de alguém que não esteja preparado o suficiente para o enfrentar. É isso o que ele faz: acaba com a vida das pessoas. E se há uma lição que eu posso tirar de tudo isso, é: nunca saia da cama à noite, porquê coisas estranhas acontecem nessa hora. 

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Wink .187 tons de frio.