Abaixo o príncipe encantado


Prince Charming, você é um safado!
É, você mesmo, seu desgraçado, manipulador de menininhas inocentes que cresceram ouvindo histórias da Branca de Neve e do sapatinho de cristal da Cinderella. Quem você pensa que é para nos enrolar, hein? Quer dizer, tu estás lá, numa boa, dançando com todas as garotas do baile, do reino, e após dançar com a Cinderella e ela correr para casa, - pois sua carruagem estava virando abóbora, se bem que tenho lá minhas suspeitas de que ela correu mesmo porque você estava pisando no sapatinho delicado dela, seu babaca - você simplesmente pega o sapatinho de cristal esquecido por ela e convenientemente é acometido por uma amnésia instantânea, que faz com que você esqueça do rosto da garota a qual você diz ser o amor da sua vida. O que você faz então? Você simplesmente pega e sai em busca da sua garota do sapato de cristal pelo reino todo. Mas é muito conveniente você sair por aí, colocando o sapatinho nos pés daquelas vadias todas que cruzam seu caminho, ao invés de simplesmente lembrar do rosto da tonta da Cinderella, por quem você diz estar apaixonado, né seu otário? E aí, após pegar todas as moças do reino, você simplesmente "acha" a casa dela, não é mesmo? E coloca o sapatinho nela. E manda os passarinhos furarem os olhos das irmãs de criação da Cindy, para que elas não contem que te pegaram no baile real após Cindy ter ido com sua abóbora gigante, não é verdade?

Só digo algo, príncipe: em mim é que esse sapatinho não vai nem encostar. Prefiro ser borralheira para o resto da minha existência e me ferrar para viver do que ser apenas uma bonequinha de porcelana para um principezinho "encantado" brincar de vestir e despir quando bem lhe convir.

só porque sempre tive vontade de dar um chute com sapato de cristal na cara real do príncipe enjoado.

Do ano da reciprocidade

De 2012? Tenho apenas a agradecer por ter sido um ano incrivelmente farto de momentos inesquecíveis, pessoas certas e reciprocidade.
Essa foto é de Janeiro, alguns dias após o nascimento do Sam. Sim, pessoas, eu estava de pijama, com cara lavada e caindo de sono, mas super feliz com meus sobrinhos lindos. ♥
Em Fevereiro tivemos o 1° encontro da blogosfera gaúcha, lá na Redenção, em PoA, e devo dizer que amei conhecer essas gurias lindas e divas e pretendo organizar uma nova edição do EBG para esse início de 2013.
Rose, minha cunhada, que ficou o ano todo me ajudando a descontrair nas horas em que estava mais pra baixo e com vontade de apenas mergulhar nas páginas de algum livro, mesmo que ela não soubesse disso, ela estava lá. Linda ela. ♥
Papis, esse cara com ascendência chinesa (e mais uma pá de misturas étnicas) que me deu por herança os olhos puxados e um temperamento terrível de se lidar, mas que esteve me apoiando em todas minhas decisões, não apenas nesse ano, mas durante a vida inteira. E Sam, essa gotinha de chocolate ao leite.
1° encontro Skoob/RS que participei, numa tarde de um Setembro gelado. A definição disso, senhores? Várias pessoinhas participantes do Skoob, que amam livros, reúnem-se dois sábados por mês, levando alguns livros cada uma, para falar sobre o quê? Livros, obviamente. Como esses encontros já possuem um tempinho (2 anos), o povo se conhece bem por lá e possuem uma amizade bem legal. Eu recém estou chegando, mas simpatizo muito com eles e prevejo que estarão presentes em outras retrospectivas nesse blog. (E não, eu não faço ideia de como minha mão ficou torta daquele jeito, hahaha!)
No mesmo dia em que fui ao encontro Skoob, também encontrei a Sarah e o Vikthor, e, sério pessoas, estou pra dizer que eles foram um tipo de "recomeço" na minha vida, já que eles (especialmente Vik, com quem converso há mais tempo do que Sarah) me ajudaram muito em conselhos, ou até mesmo descontraindo, falando bobagem, em momentos nos quais apenas queria matar meio mundo. Obrigada, pessoas. Eu amo vocês. ♥
Sim, eu tenho um amigo lindo, divo, cabeludo, loiro e que usa uma mini-trança com moedinhas estrangeiras penduradas, assim como lápis de olho, e possui uma voz super grossa e olhos vermelho-escuros. Isso porque ele é basicamente o Capitão Jack Sparrow sulista.
O domingo tá entediante? Bora ir pra praça de Viamão tomar sorvete de pote, falar bobagem e ser paquerada por velhos estranhos com os amigos, hahaha!
Yanka e Mari, suas lindas, fazendo pose - comigo - na escadaria do Museu do Cinema de PoA. Só pra tirar onda, sabe?
Sim, eu fui assistir Amanhecer - parte 2 - com minha sobrinha. Soon me. hahaha!
O que seria de nossas vidas sem gordices?
Essa foto tem história, senhores. Poderia fazer um post apenas para ela, mas vou resumi-la aqui: era sábado, dia de Zombie Walk em PoA, e eu havia saído com um rapaz (hipster, hipster), e o encontro não poderia estar indo pior: ele e eu num banco da Redenção, e eu ouvindo um monólogo sobre como ele odeia o Natal, pessoas, gostaria que elas morressem, que havia esquematizado a terceira guerra mundial em seu cérebro maquiavélico, etc. Até que do nada ele diz que se lembrou que deveria trabalhar num evento no dia, me deixa na parada e se manda. E eu lá, sozinha, no centro de PoA, sendo perdida como sou, com a missão de pegar o ônibus e voltar para casa. Porém lembrei que Sarah e Vikthor estavam na Zombie Walk me esperando, mas eu não fazia ideia de como chegar lá. Após uma hora tentando entrar em contato com eles (Murphy é uma coisa linda pra me ferrar nessas horas), finalmente consegui e disse onde estava, ao que eles largaram a passeata zumbi e foram até mim para me buscar. E eu tive uma das melhores tardes/noites da minha vida. Porque foi simples, divertido e me mostrou que tenho amigos em quem confiar. ♥ E o hipster? Vixe... vai saber?
Comer ou não comer? Eis a questão do ano, senhores.
Natal, 47°C em Porto Alegre, piscina e altos papos com a Cibeli (minha sobrinha que mais parece minha irmã, um tipo de versão chocolate ao leite minha).
Ari, Lene, Glen e Chari, gostaria eu de ter uma foto com cada um de vocês para colocar aqui, mas, sinceramente, a amizade de vocês me fez muito mais feliz esse ano. Saber que alguém - mesmo que a quilômetros de distância - se importa, que estará lá para conversar, para falar bobagem ou para falar de coisas sérias, para aturar meu humor ácido e lidar com minhas crises de "eu vou enforcar meio mundo". Para me aconselhar e aturarem minhas broncas quando estou na vibe canceriana - por causa da Lua, senhores, eu juro - de cuidar de todo mundo. Apenas obrigada por participarem ativamente da minha vida, mesmo que de longe, saibam que vocês fazem a diferença e meu ano seria incompleto sem nossas longas conversas no Facebook. ♥
Friends Will Be Friends by Queen on Grooveshark
 E, claro, obrigada a vocês, Winkers, que fizeram do meu 2012 infinitamente melhor, com seus comentários de apoio, com as amizades - mesmo que eu não fale com todos lá pelo facebook - virtuais cultivadas... Por tudo. O Wink pode até ser escrito por mim, mas é por pessoas queridas como vocês me apoiarem que ele ainda existe e está em rumo ao seu 3° aniversário.

Pessoas, duvido que volte aqui antes do fim do ano, - quer dizer, voltarei para responder ao meme da Del, que deveria ter respondido há um tempo, mas... c'est la vie - porém quero lhes desejar um ano novo super cheio das gordices e de reciprocidade com as pessoas certas. Sejam vocês mesmos, acima de tudo. E lutem pelas suas liberdades.
Kissu. 
Não confio em pessoas que possuem espírito natalino. Quer dizer, o que seria possuir um espírito natalino? Significa estar possuído por um espírito gordo que usa uma roupa vermelha quente pra caramba e invade as casas das pessoas para enchê-las de coisas que elas não precisam? Please, não preciso disso.

Síndrome de Magali

Visualizem a cena: intervalo do curso (15 minutos), meu estômago fazendo barulhos horrorosos e uma tempestade do inferno caindo sobre as ruas de uma metrópole agitada. Isso num cenário "se houver amanhã", numa vibe toda Sidney Sheldon, pré-apocalíptica. E eu, ao invés de me preocupar com a ventania e chuva abundante, estava mais preocupada em qual trajeto seria o mais rápido e menos molhado para comer algo. Porque, senhores, eu tinha um objetivo: gordice. Encasquetei de comer um wafer de chocolate triplo. Por quê? Porque minha alma de gorda ansiava por isso há muito sim.

Peguei nas mãos dos meus dois amigos - Rafaela e Fernando - e fui para fora do prédio do curso decidida a entupir minhas veias com gordura hidrogenada. Havia parado de chover um minuto antes de eu decidir sair. Pensei comigo mesma que talvez - só talvez, sabe? - Murphy tivesse tido pena de mim, do meu vestido de renda, dos meus cachos caídos pelos ombros, da minha maquiagem mal produzida e da minha rasteirinha tão aberta e propensa a acidentes. Mas é claro que Murphy nunca teria misericórdia de mim, senhores. E, um minuto após eu ter saído, desabou mais água do céu de Porto Alegre do que desaba durante meus banhos. Mas, como fui criada na filosofia do "desistir nunca, render-se jamais" (Van Damme manda abraços, crianças), eu não iria voltar. De forma alguma. Só voltaria após atingir meu objetivo: gordice.

Devo dizer, senhores, que, em um trajeto de uma quadra e meia, eu levei quase 3 tombos (quase porque Fernando estava lá, e, juro, senhores, eu não desgrudei do rapaz até parar de caminhar), esbarrei em umas dez pessoas, tenho praticamente certeza de que derrubei o brinquedo de um garotinho e dei, no mínimo, uns quatro gritinhos (sim, gritinhos, pessoas, porque tenho uma voz de menininha de 5 anos) por conta das enormes poças d'água, que mais pareciam pequenos laguinhos contendo Ness, pronto para me atacar a qualquer sinal de deslize.

Na metade do caminho para o paraíso, a chuva ficou extremamente forte e fui praticamente forçada a parar. Como meu estômago não parava de se contorcer, tive de me contentar com um hot dog (divo, pelamor, cheio de batata palha ♥) e não pude prosseguir com meu plano de dominar o mundo me encher de chocolate.
Voltei ao curso. Estávamos encharcados. Parecia que havíamos sido retirados do rio Guaíba, tamanha era a quantidade de água que pingava dos nossos corpos divos. Mas, claro, as pessoas no prédio do curso não faziam ideia disso, e, ao nos verem, falaram entre si:
- Bah, tá chovendo, né?
- Tu viu o que o carinha disse, Mi? Ele disse que tá chovendo. Dã...
- Chovendo? Capaz... É que todos na rua resolveram cuspir em mim, sabe? É a vida.

Após isso, fomos - Rafa e eu - para o banheiro com espelho redondo. O que vi lá, senhores, foi o reflexo pós-apocalíptico, algo que fazia jus ao apelido de Samara Morgan que conservo com muito orgulho.
Após isso, me recusei a voltar para a aula, senhores. Sim, porque, encharcada do jeito que estava, com uma fome do cão e com o ar condicionado numa vibe Sibéria, só resultaria em algo: uma bela duma pneumonia para a senhorita Sodré.

Voltei para casa. Com vontade de doce, porque, se há algo que há em mim, senhores, é uma tal de síndrome de Magali: pareço um poço sem fundo quando se trata de dias felizes. E sim, pessoas, eu estou feliz. Muito feliz. Extremamente feliz. A ponto de sair em meio a uma tempestade, e, ao invés de reclamar, apenas me imaginar em "Singing in the rain" e dar gargalhadas enormes no meio da rua. Feliz a ponto de não me estressar com calorias de gordices. Feliz a ponto de viver sem pensar nisso ou naquilo, ou nos rapazes idiotas que aparecem na contramão da minha ferrada vida. Feliz porque tenho amigos que correm na chuva comigo.
E foi nessa felicidade que encarnei a Magali e comi metade de uma melancia quando cheguei em casa. Porque, senhores, há horas na vida em que apenas doces resolvem. E uma trilha sonora de acordo, obviamente.

Lhes apresento meus verdadeiros amores: melancia e gordices ♥

Complexo de Trakinas

Aí meu amigo chega e me diz:
- Mia, ele não gosta de ti. Ele vai mentir o que tiver de mentir apenas pra te pegar.
- Mas ele já tá me pegando.
- Não nesse sentido... Ele quer te levar pra cama, sem nada sério, e depois te largar.
- Mas vale a pena todo esse esforço apenas para dormir comigo sendo que há tantas gurias por aí livres, desimpedidas e com desejos calientes?
- Claro que vale, Mia! Tu é linda, inteligente, engraçada, divertida, sarcástica... Qual cara que não iria querer te comer?
- Alto lá que eu não sou Trakinas!
- Mas é verdade, ele só quer te comer.
- Olha... Discordo que valha todo esse esforço, mas digamos que sim. Ainda assim, afirmo deveras que o cara não come ninguém.
- Claro que come, guria! Como que não?
- Explico: nós, seres humanos, com telencéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor, nos alimentamos pela boca, certo?
- Uhum.
- E a boca nada mais é do que o final - ou o começo, dependendo do ângulo - do tubo digestório por onde os alimentos são postos, correto?
- Sim, sim.
- Sendo a boca a extremidade do tubo digestório, ela se caracteriza por um buraco relativamente oco. E nós comemos pela boca, não é verdade?
- Sim.
- Sendo assim, como aprendi nas aulas de anatomia, a definição mais prática da mulher é que ela é uma sucessão de buracos, sendo diferenciada pelo buraco "central" de sua anatomia, parte essa que o homem com telencéfalo altamente desenvolvido diz comer. Mas se comemos pela boca por ela ser um buraco relativamente oco e a mulher é um buraco negro, então o alimento da história é o homem, que serve apenas como aquela parte pontudinha do inferno do Lego. Apenas um encaixe bobo que pode ser facilmente quebrado ou descartado.
- Eu tenho medo de ti, Mia.
- Conte-me uma novidade, Lego.
O biscoito que é a sua cara, sua linda! 

Da minha aversão ao Sr. Sparks

Eu amo ler, senhores. Qualquer pessoa que me conheça minimamente bem saberá que sempre possuo ao menos dois livros comigo, a qualquer lugar que for, afinal, nunca se sabe quando alguma catástrofe acontecerá e você precisará de livros para se acalmar, passar tempo, amar, adquirir cultura - ou espionar pessoas enquanto elas pensam que você está concentradíssima em sua leitura.

Leio tudo que me vem à mão: da trilogia dos tons de cinza (cujo enredo se trata do que sadomasoquistas fazem no café da manhã, apenas para abrir o apetite) até Dostoiévski e suas teorias sobre relacionamentos humanos. Não sou uma pessoa preconceituosa e gosto de conhecer algo antes de falar sobre, aliás, essa é uma das minhas regras pra vida - sim, eu possuo um conjunto de regras pra vida.

Porém, senhores, tenho algo para relatar que me envergonha muito: há, sim, um tipo de livro que não consigo ler. E se trata das obras-primas de Nicholas Sparks.
Eu tentei, senhores, juro que tentei. Peguei alguns de seus livros, iniciei leituras, fechei, fui vomitar, voltei, insisti, a ânsia de vômito voltou e foi aí que eu me dei conta de que se há algum autor ao qual eu tenho aversão, esse é o Sr. Sparks.
Reparem, pessoas, que até mesmo E. L. James não me desperta tamanho asco, mesmo com seu mimimi de sadomasoquismo fajuto e sua tal de deusa interior que não cala a boca e imagino que trabalhe em um circo, já que parece sempre estar em uma cama elástica, pulando o tempo todo.
Nem Stephenie Meyer, a destruidora da raça vampírica, me desperta tanta vontade de vomitar assim.

Quer dizer, parece que toda história escrita pelo Sr. Sparks trata de um casalzinho que mora em algum lugar bonito e se dá super bem, coisas "mágicas" acontecem em seus doces coraçõezinhos que transbordam mel (Ursinho Pooh aprova as personagens de N.S.), até que, subitamente, algo ocorre, há algum tipo de transtorno e tudo fica cheio de mimimi e de "perdi meu amor". Porém, como em toda boa novela, o bem sempre vence e, ao final, o casalzinho une-se novamente, e dessa vez é para sempre. Fim.

Sim, eu sei que há milhares de meninas no mundo que amam toda essa melosidade exagerada do Sr. Sparks, mas eu não sou uma delas. É muito mel, açúcar, tempero (e tudo que há de bom, numa vibe Powerpuff Girls) pra que minha mente ácida possa assimilar sem mandar impulsos para meu corpo dizendo para vomitar, expelir todo esse mimimi da minha vida, mente, alma, antes que seja tarde demais e - que Deus me livre - me torne uma garota romântica.

E é por isso, senhores, que se eu tivesse de escolher entre Twilight/Fifty Shadows e Nicholas Sparks, preferiria sem pensar duas vezes a saga dos vampiros purpurinados e a dos cinquenta tons - até porque, entre um mal escrito que me diverte e um mal escrito que me deprime, eu sempre escolherei a diversão. 

(in)tolerância

Vivia em uma situação insustentável. O peso de pecados não cometidos caía sobre ela sem que pudesse ter a chance de se defender. Sua mãe, vendo-a ler, rasgou seu livro dizendo que aquilo era bruxaria, que ela deveria ler a Bíblia e coisas concernentes com Deus. Ali ela teve certeza de que nunca seria do caminho de "Deus", do Deus de sua mãe, daquele Deus que a fez sofrer tantos anos, cuja doutrina levou sua mãe a ser praticamente a Inquisição dentro de casa, como na idade média, em pleno século XXI.


Anita, após ter seu livro feito em pedaços num ataque de fúria religiosa de sua mãe, não conseguiu ter ação alguma. Chorou, num choro vindo do mais profundo de seu ser, de sua alma. Tudo o que ela sempre quis foi ler, conhecer culturas, viajar por mundos distantes, adquirir conhecimento. Mas isso parecia impossível dentro de sua casa. Enquanto outras mães brigavam com suas filhas por saírem para baladas e voltarem bêbadas para casa - quando voltavam - a sua brigava por ela fazer aquilo que mais amava no mundo: ler.
Como não era menina de reações dramáticas, fechou-se dentro de si mesma, recolheu os pedaços do livro - que de bruxaria não tinha nada, por sinal -, recostou-se em um canto da parede, esperou terminar de ouvir os passos da mãe subindo as escadas e chorou silenciosamente. Anita não era moça dada a escândalos, portanto mordeu o antebraço para que o choro saísse abafado, para não gritar desesperadamente pedindo por socorro, para que ninguém soubesse da dor que sentia ou que zombassem dela por ser tão boba a ponto de chorar por um livro. Mas não era apenas pelo livro que chorava - apesar de que sua alma partiu-se juntamente com as páginas daquele belo livro verde - porém, chorava porque seu desejo de conhecimento e liberdade lhe era negado apenas porque sua mãe determinou que seu destino seria casar com um rapaz da igreja, ter filhos, arrumar em emprego medíocre, viver conforme as regras machistas escritas por São Paulo, na Bíblia, e acabar seus dias amargurada, enclausurada, sendo uma cristã exemplar, em alguma Assembleia de Deus qualquer que existisse em sua cidade, tendo uma vida tão falsa, rasa e sem sentido como a dela própria.

Passados alguns minutos de choro silencioso, notou que seu braço adquirira uma coloração roxa, pois seus dentes haviam sido cravados com muita força, força essa que deveria ter sido expelida por sua voz, em um grito de dor, de desespero, de quem é encarcerado e compelido a viver algo que não quer. Pensou em ligar para alguém, mas quem? O amigo que lhe emprestara o livro - agora já rasgado? Não. Ele havia saído com sua namorada, e mesmo que não houvesse, como ela lhe diria que a intolerância de sua mãe fez o livro em pedaços? Ligar para o outro amigo com quem sempre tem conversas longas e reflexivas? De que adiantaria? Ele estava longe, não haveria nada que pudesse ser feito por ele para que a situação melhorasse, ou mesmo para levá-la para longe. Todos estavam ou ocupados, com seus namorados, ou distantes demais para que pudessem ajudar. Sentia que seu fôlego escapava, sentia um enjoo, sua cabeça latejando, sua respiração se tornando escassa. Pensou em ligar para seu pretendente a namorado, mas iria falar o quê? Ele não sabia nem 1/4 do que era sua vida. Como ela poderia dizer "rapaz, estava eu lendo um livro incrível sobre loucura e suicídio que um amigo querido me emprestou, quando minha mãe começa a gritar que aquilo era bruxaria, que eu havia largado a igreja para isso, que deveria ler a Bíblia, arrancou o livro de minhas mãos e o fez em pedaços"; não ela não poderia dizer isso. Iria parecer louca. Vinda de uma família louca. Genes loucos. Qual rapaz, em sã consciência, se envolveria com ela, sabendo de sua família louca, de sua mãe intolerante, de seus desejos de suicídio, de seus traumas, de seus problemas emocionais, de sua vontade de correr, correr, correr até cair de exaustão e permanecer em um coma profundo por anos? Não, ela não poderia correr o risco de parar num hospício, de ser largada, de autossabotar mais um relacionamento apenas por falar a verdade, falar o que lhe acontecera, falar como sua vida era cheia de situações extremas e que desconfiava plenamente que muitos filmes e livros foram feitos inspirados nas situações insanas que vivera em seus quase dezenove anos de existência.

Correu para seu quarto, trancou-se, verificou a fechadura de sua porta três vezes, com medo de ser surpreendida por sua mãe, pôs-se em frente ao espelho e admirou-se. Sempre soube que ficava especialmente linda quando chorava. Seus olhos verdes se tornavam encantadores delineados de vermelho-sangue, sua boca se tornava ainda maior e mais viva, sua pele parecia embranquecer e seus cachos castanhos lhe caíam com leveza pela face banhada de lágrimas. Sempre soube que virava pintura renascentista ao chorar. Teve desprezo por si mesma ao perceber alguns traços de sua mãe em seu rosto. Jurou fazer uma tatuagem, um novo corte de cabelo, uma pintura nova, piercings, algo que a diferenciasse. Mas ela sabia que não era agressiva a ponto de fazer isso. Parou, olhou-se mais atentamente e percebeu que sua vida sempre seria assim. Nunca conseguira um relacionamento com uma pessoa normal, com alguém que não pudesse ser considerado louco de alguma forma, e sempre achou que isso se devia ao fato de que o mundo era louco e as pessoas, insanas. Mas não. Estava agora saindo com um rapaz normal, de assuntos rasos e cotidianos, uma pessoa adorável, porém ela não se sentia a vontade para falar de assunto reais, do que lhe acontecia, pois ele nunca entenderia. Ele, com sua vida perfeita e problemas banais nunca poderia compreender o que é, de fato, considerar o suicídio como a melhor alternativa.

Ela gostava muito dele. Pensava frequentemente em lhe contar sobre sua vida, sobre o que passou e o que passava. Mas como poderia explicar que sua mãe é repressiva, controladora e louca e que ela mal tinha sanidade e se escondia em livros para suportar uma realidade enclausuradora? Como ela poderia se entregar inteira se sabia que ele nunca entenderia, que nunca aceitaria conviver com seus meandros, com seus tons de cinza, com sua vida ferrada?

O livro que Anita estava lendo, aquele livro que fora rasgado por sua mãe, falava de Veronika, uma jovem que decidira morrer. Tomou pílulas para tal, mas apenas conseguiu um atestado de insanidade - foi parar em um hospício - e um dano irreversível no coração, que a faria morrer em poucos dias e com muita dor. Ser livre, de fato, é loucura. O universo parece ter algo muito sério contra pessoas que querem ser livres e controlar suas vidas, controlar o rumo que tomam. Anita sabia bem disso e decidiu que - por mais que a janela de seu quarto lhe chamasse, por mais que os ventos cantassem uma canção mortal - não tentaria morrer. Ela sabia que já havia feito isso e que levara anos até que a fama de louca se tornasse apenas uma piada de mal gosto.

Ligou para seu pretendente, mas, antes que ele pudesse atender, desligou. Pensou em marcar um encontro naquela mesma tarde e deixar de lado os ensinamentos cristãos de sua mãe, entrar em algum tipo de orgia, fazer o que fosse preciso para desvincular-se de uma vez por todas de tudo o que lhe fora incutido por sua mãe, de preceitos arcaicos cristãos, machistas, que nada tinham a ver com o que fora ensinado por Jesus - amar ao próximo como a si mesmo, não fazer aos outros o que não quer que façam para si. Pensou em transgredir com todas essas regras suspensas de vida cristã, mas parou. Ela apenas faria mal a si mesma, à sua frágil alma, à sua mente confusa e delicada, que fazia força extrema e lutava contra si mesma para preservar um mínimo de sanidade possível. Não seria louca. Não faria jus ao que diziam dela. Não, ela não daria esse prazer aos outros. Anita era tudo, menos sentimental. Ela sabia muito bem das consequências de seus atos e aprendera desde cedo a se defender, camuflar sentimentos e manipular situações.

Tudo que desejava era ter uma vida normal e calma. Mas ela sabia que isso nunca seria possível. Abriu a janela novamente. Subiu no telhado, sentiu o vento bater em seus cachos castanhos, ouviu a voz que lhe chamava para o abismo e teve novamente a vontade de ser fraca. Se entregou. Finalmente caiu. Acordou atada em sua cama, com sua mãe rindo ao observá-la da porta, debochando por ela ter falhado até mesmo nisso. Decidiu morrer, mas era tarde demais.
A ignorância seria, de fato, uma bênção.