Bonequinha de porcelana do mal

Estava eu no ônibus, voltando para casa, quando três rapazes entraram naquele veículo mal movimentado. Eles vestiam camisetas da Black Label Society, munhequeiras, muitos piercings em lugares diversos e cabelos invejavelmente compridos, hidratados e lisos - coisa que, tenho certeza, se fossem gurias, não os teriam tão perfeitos quanto.

Os mal encarados rapazes ficaram em pé ao meu lado (já que não haviam mais assentos disponíveis), me olharam de cima a baixo, com ar de superioridade, e cochicharam entre si sobre como eu deveria ser uma dessas menininhas mimadas (coisa que sou, por sinal) que não entendem nada de "música de verdade", cultura rock and roll, cultura filandesa e viking e toda essa babaquice de jovem metido a rebelde mal resolvido; e tudo isso apenas porque eu estava usando um lindo, fofo e divo vestido com estampa de mini-florzinhas, camisa meia-manga com babados (fazendo a vez de um bolero) e uma sapatilha super delicada - ou seja, bem no estereótipo de menina mimada com complexo de bonequinha de porcelana.

Claro que eles apenas cochicharam essas coisas porque eu estava com fones de ouvido a todo volume e concentradíssima - prestando atenção em tudo - lendo A insustentável leveza do ser, e não contavam com minha audição supersônica ou com o fato de que, por mais distraída que eu seja, sempre presto atenção em coisas aleatórias - menos no que, de fato, preciso prestar atenção, obviamente, como manda Murphy.

Os rapazes cultos e "do mal" continuaram conversando animadamente e me olhando com desprezo pelo meu jeito Breakfast at Tiffany's de ser. Até que, de repente, alguém me liga. E, senhores, eu realmente gostaria de ter registrado aquele momento, porque o toque do meu celular é nada mais, nada menos que...
Carry on, da Angra:
Carry On by Angra on Grooveshark

A cara de espanto que eles fizeram ao ouvirem os riffs de guitarra sendo emitidos pelo meu celular foi épica.
Ficaram boquiabertos, cutucaram-se e começaram a sorrir para mim - como se eu fizesse parte de uma sociedade secreta e subitamente houvesse sido reconhecida através de meu passaporte disfarçado de toque musical.
Foi quando, senhores, eu incorporei Dexter, vesti o olhar de desprezo - também conhecido como "olhar de assassina psicopata" -, contrastei-o com um sorriso de meia-lua - que dizia algo como "estou sorrindo, mas você ainda será servido no jantar" - e voltei o rosto para o livro. 
Isso porque, senhores, eu detesto elitismo de metidos a headbangers do mal que ainda não aprenderam que, para se gostar de algo, não é necessário andar fantasiado por aí com suas camisetas de banda, roupas pretas, acessórios agressivos e caras "do mal". Rock é um estado de espírito e não um estilo de roupa.

Pessoas que fazem do mundo um porquê

Pessoas passando pelo sinal
Pessoas vivendo uma vida vazia
Para muitos, elas são pessoas de verdade
Essas são consideradas com vida normal
Pessoas destruindo pessoas
Pessoas calçando sapatos renegados
Pessoas ligando durante a madrugada
Seus celulares já há muito ultrapassados
Pessoas que dançam e cantam e giram
Pessoas que pensam que estão emitindo
Alguma canção para o silêncio mortal
E evocando um sentimento irracional
Suspiros deixados na porta da frente
Para uma pessoa que quer ser lembrada
Porém sua vida é uma mentira
E sua lembrança será esquecida
Pessoas que passam na rua da vida
Pessoas que vivem sem clima, sem alegria
Pessoas robóticas, pessoas iguais
Saídas da fábrica, idealizadas por jornais
Pessoas estranhas, pessoas vestidas
Como se o tecido curasse a ferida
Ferida que sangra, que divide, que lembra 
Feridas são remendos de uma alma partida
Festas e chutes e veias sangrando
Apenas um pedaço de pano em movimento
Se movem, se movem, são almas, são vivas
Pulsam e choram e levam mordidas
Pessoas que sangram, pessoas que latem
Pessoas que vivem como se fossem humanas
Humano extinto, é isso que são
Pessoas estão numa droga de extinção
Se eu sou uma pessoa, não sei, não padeço
Das altas agonias que delas conheço
São gente de sinais, de ritmo, de dança
São gente que não se compadece nem de uma criança
Pessoa, eu não sou apenas o que você pensa
Que finge, que lê e também adormece
Que escreve um poema numa noite anormal
Apenas para aliviar sua alma do mal 
O mal que aquece, que oprime, que queima
Por entre as veias da menina indefesa
São coisas da vida, é o que me dizem
Pessoas que foram trocadas por crimes
Apenas notícias, num rádio, no jornal
Apenas mais nomes, sem nada anormal
Pessoas que acordam e se deparam com a vida
Vivida por gente de lata e de cera 
Pessoas que não derretem, não sentem, não lembram
Que lidam com a vida como se fosse um poema
De uma estrofe há muito guardada
Deixada num canto, toda empoeirada
Pessoas que cantam, pessoas que dançam
Que fazem da vida uma peça encantada
Que fazem da alma um mito encarnado
Que fazem do ar uma fórmula esquecida 
São essas pessoas, minha gente, eu confesso
Que me fizeram ser perdida entre versos
Que me fizeram ver que o mal desse mundo
Não está nas palavras, está no orgulho 

(in)sanidade

Queria ser um pássaro, abrir suas asas e voar. Se atirou pela janela. Conseguiu duas costelas quebradas e um atestado de insanidade.
Ser livre é loucura.

Janela

Anita abriu a janela de seu quarto, no segundo andar, durante a madrugada quente de uma primavera insólita. Sentiu uma brisa suave, sentiu que a energia da brisa a convidara para ser sua amiga, para segui-la, para se jogar. Lentamente ela esgueirou o corpo pelo pequeno espaço da janela de madeira. Avistou luzes de natal - um natal adiantado, por sinal - em casas distantes de seu bairro. Teve vontade de se jogar, de cair, de ser fraca apenas uma vez - porque quando estamos fracos é que mostramos nossa força. Pé ante pé, ela subiu pelo telhado, através de sua janela envernizada.
Talvez fosse apenas um delírio de febre, talvez fosse a energia do ar dedilhando a bela e misteriosa canção do silêncio. E foi aí que percebeu que era uma alma aprisionada em um corpo, uma alma que pertencia à brisa, à energia, ao mundo.
Um dia ela ainda saltaria pela janela. Mas não hoje. Hoje ela precisa voltar para seu mundo de fantasias e fazer a lição de casa. 

Drummond sabia das coisas

Pessoas são idiotas - e eu poderia concluir o raciocínio aqui.
Explico: estava eu lendo "Os cem melhores poemas brasileiros do século" e um desses poemas - do Carlos Drummond de Andrade - é um ode à bunda.
Sim, exatamente isso.
Confesso que gosto muito desse poema. Porque ninguém fala na bunda. Quer dizer, as pessoas falam, mas mais no sentido sexual da palavra do que no sentido físico.
O fato, senhores, é que minha mãe chegou, percebeu que estava lendo algo e perguntou o que era. Ao que eu citei o poema:
"A bunda, que engraçada.
Está sempre sorrindo, nunca é trágica. 
Não lhe importa o que vai
pela frente do corpo. A bunda basta-se.
Existe algo mais? Talvez os seios.
Ora - murmura a bunda - esses garotos 
ainda lhes falta muito que estudar."  

Então mamãe - completamente boquiaberta - me disse que uma moça de família como eu não deveria ler tal coisa, muito menos em voz alta, porque - espantem-se - de acordo com ela, a bunda é algo vulgar e falar tal palavra é coisa de pessoas vulgares.
E que bunda é palavrão.
- pausa para chorar de rir -

Perguntei à ela o porquê de tanta polêmica referente à uma parte do corpo humano. Ao que ela disse:
- A bunda é errada. É algo vulgar. É por onde saem os excrementos do corpo, o que a torna suja. Falar sobre ela é coisa de guria pervertida. Moças de família não falam isso. Ignoram.
- Então tu estás me dizendo que eu deveria ignorar uma parte do meu corpo porque supostamente eu sou uma moça de família e, portanto não posso ter bunda.
-Não fale mais essa palavra! É nádega. Ponto.
- Mamis, Kundera escreveu algo interessante a respeito disso. Seguindo seu raciocínio, a bunda seria - além de apenas a extremidade de um cano digestório - algo até mesmo sublime. Porque, pense bem, se ela não estivesse lá, morreríamos, já que os dejetos continuariam em nossos corpos e apodreceríamos.
- Mesmo assim, uma boa moça que serve a Deus não fala nessas coisas.
- Por que não? Partindo do princípio de que somos criação de Deus e que Deus faz as coisas perfeitas, então o próprio Deus é quem determinou que o ser humano tivesse uma bunda, evacuasse, fizesse outras coisas por lá - entenda como quiser - e tudo o mais. Se Deus quem criou, por que seria algo errado ou inapropriado para uma "boa moça"?
- Mas ninguém vai te respeitar se tu falar nisso.
- Ninguém vai me respeitar se eu própria não me respeitar e não respeitar meus princípios e minha visão de ver a tal da bunda como uma extremidade de um cano do sistema digestório e também como uma parte do corpo com a qual podemos sentar. Se não fosse por ela, eu estaria morta, todos estaríamos. Qual é o problema com isso então? Preferiria estar morta a assumir que tem uma bunda?
- Tu é louca, guria.
- E só agora tu percebeu isso?

E esse, senhores, é apenas mais um dos diálogos randômicos aqui de casa. Quem diria que um poema renderia tanto? 

Murphy me ama

Quando eu chego no ponto de não querer ver nem ao menos um livro na minha frente - lembrando que livros, para mim, são um escape de tudo o que há de ruim na vida diretamente para um universo mágico moldado pela percepção do leitor - é porque há algo de muito errado, senhores.

Murphy tem essa obsessão crônica e doentia por minha pessoa. Sim, senhores, ele me odeia a ponto de ter me deixado perfeitamente bem durante todo o inverno e me fazer pegar uma gripe desgraçada durante esse calor infernal sulista, porque não basta a febre, senhores: a coisa precisa ser elevada à potência com tonturas, muitos remédios que me deixam vendo o meu duende piscar para mim e uma incrível vontade de apenas me deitar no colo de alguém e receber carinho.
Mas aí eu lembro que eu sou eu e que ninguém faria isso por mim, mas né? Murphy adora ferrar com minha vida, o que posso dizer?

Se eu não estou com paciência agora para os meus livros - que são meus amores eternos -, que o fará para pessoas, blogs ou comentários. Gente, sério, o blog pode ficar meio desatualizado. Se já não estava com ânimo antes, que o fará agora. Só quero arrumar algum tipo de amiga-babá pra me cuidar e não me deixar fazer nenhuma bobagem enquanto viajo por causa da febre.

Agora me deem licença porque verei meu duende dançar novamente aqui, enquanto tomo um chá forte de sei-lá-o-quê com um ingrediente extra na mistura e viajo completamente.
Eu voltarei.
O duende está mandando um "oi". 
Mas as resenhas no blog continuarão, pessoas. Eu apenas não postarei mais tantas dramédias da minha vida porque lá se foi minha paciência ladeira abaixo. 
Quero deixar registrado algo e quero que cumpram com minha vontade: quando morrer - e morrerei jovem, bem sei disso - não quero ser enterrada em cemitérios. Não quero uma lápide pesada de um local desconhecido sobre meu frágil corpo - afinal, como eu poderia sair do túmulo à noite?
Quero ser enterrada no meu jardim, juntamente com as pessoas que amo.
Ou ser cremada. E ter meus restos espalhados no monte Kilimandjaro.
Será que isso é pedir demais? Creio que não. 

Cinquenta tons de cinza

Eu não iria escrever sobre esse livro. Não, eu não iria. Mas, caramba, o livro é tão absurdamente ruim que eu preciso escrever sobre.


Cinquenta tons de cinza, tecnicamente, é um livro erótico que trata da relação sadomasoquista entre Anastasia Steele e Christian Grey, sendo que ela é a virgem - pura, imaculada e insossa - e ele é O cara incrivelmente lindo e atormentado por traumas da infância, que possui cinquenta sombras em sua personalidade - e é nessa hora, pessoas, que nós rimos.

E. L. James, a grande - só que ao contrário - escritora desse livro que é o princípio da excitantemente chata trilogia dos tons (Cinquenta tons de Cinza, Cinquenta tons mais Escuros e Cinquenta tons de Liberdade) revela claramente que, na verdade - ao invés de ser uma mulher adulta, casada e tudo mais como manda o american way of life - ela não passa de uma pré-adolescente, com seus 12 anos, fã de Crepúsculo, que, após uma aula de Biologia sobre como se fazem bebês, decidiu ler mais sobre, se informar nos locais errados, e quis escrever uma fanfic sobre uma péssima saga. Fanfic essa que originou uma péssima trilogia que todos adoram porque suas vidas são insossas demais ou porque ainda são fãs de Crepúsculo e são gamadas num cara que tente fazê-las de escravas (sendo que não há nada disso lá, apenas uma tentativa de algo que desperte desejos profundos, mas, que, sinceramente, só me fez chorar de rir).

Como eu já disse, eu chorei de rir. Sim, pessoas, eu chorei de rir - e eu gostaria que vocês pudessem ver minha expressão e ouvir minha fala em câmera lenta ao dizer isso, porque, sinceramente, a coisa é tão ridícula que eu preciso esculachá-la ao máximo.
Para que não digam que sou malvada, direi o seguinte: sim, há pontos legais nesse livro também! Na verdade, apenas um: ele é tão ruim que é bom. E acaba te contagiando. Você precisa ir até o fim, você se vê envolvido na leitura - ou, ao menos, eu me vi, já que o troço estava tão ferrado que eu simplesmente precisava saber como acabaria aquilo e torcia para que o Senhor Grey mantivesse a tal da Ana amordaçada o tempo inteiro e que em alguma hora ele se revelasse um psicopata metido a serial killer, a cortasse em pedacinhos e a comesse - literalmente - no jantar.

Mas, como nem tudo é perfeito - muito menos a trilogia dos tons -, ele não se mostrou o carinha de American Psycho e a tal da E. L. James decidiu que ele seria um tipo de príncipe do século XXI - e eu devo dizer que, se o Christian é o príncipe da nova geração, eu certamente prefiro o sapo enjeitado.

Porém, pessoas, há um outro ponto sobre o qual eu preciso falar: qual é a necessidade da mulher que escreveu esse maldito livro em colocar um palavrão - ou mais - a cada bendita frase? Quer dizer, eu tenho uma teoria, senhores: se vocês precisam apelar pra uma linguagem dessas para que se tornem excitantes - sorry, mas, só falar isso me faz chorar de rir, porque, de excitante, isso não tem nada - é porque vocês ainda não cresceram. Ponto. Sem discussão.

Há quem diga que eu não entendo dessas coisas e eu devo dizer que discordo plenamente. Apenas penso o seguinte: sensualidade nada tem a ver com exposição demasiada ou coisas forçadas. A sensualidade velada ainda é muito mais sexy e sedutora do que toda essa coisa escancarada que mostra muito, mas não diz nada e não faz sentir nada.

Mas, é claro que o livro é bom, sim: bom para dar risadas. Recomendo-o fortemente para pessoas que estejam necessitadas de idiotice em suas vidas. Afinal, como Ailin Aleixo escreveu: "a idiotice é vital para e felicidade".