Do tema pra terapia que jamais farei

Então eu fico aqui na Fazenda Feliz enquanto minha comida que nem é comida de verdade esfria e o nó na garganta aperta cada vez mais a ponto de se fundir com o natural do corpo. Há cadernos, livros, roupas, muitas coisas espalhadas pelo chão, em cima da cama, no armário. Assim como eu. Espalhada em cada canto por onde passo. Há meses que larguei de mão a ilusão de ser inteira em algum momento da vida. Não vai rolar. Dou uma, duas, três mordidas e largo. Assim como largo tudo de mão. E é irônico eu querer que as pessoas não me larguem de mão sendo que eu faço isso comigo mesma o tempo inteiro. Se eu não tenho consideração comigo, por que os outros teriam? Não tem mais sentido ficar aqui abstraindo só porque tudo dói e fingir pra mim mesma que não, não é assim. Porque é. Tenho coisas que larguei de mão pra fazer amanhã desde Novembro passado, e esse amanhã nunca chegou. Nem chegará. Havia arquivos para finalizar no meu pc que foram pra o limbo quando ele morreu e mal chegaram ao seu meio. Filmes que nunca vi e provavelmente nunca verei a não ser que me coloquem sentada numa sala trancada com ele passando. Séries que abandonei. Livros. Promessas. O que não quer dizer muita coisa se comparado ao fato de que largo a mim mesma de mão frequentemente. Agora, como se tudo não bastasse, também dei de largar pessoas. Desfiz amizades como quem se desfaz de uma peça de roupa antiga. E sem remorso algum, sem olhar pra trás que é pra não dar tempo de arrependimento.

Se é pra ser essa pessoa tão descompensada que eu sou deveria realmente considerar a possibilidade de viver sozinha nas montanhas, numa vibe Isaac Newton, vivendo de minhas críticas literárias e tomando água de poço.
E ainda assim tenho certeza de que faria isso de alguma forma peculiar. 

Poço, poço, poço.

As pessoas mais misteriosas que conheço são as que mais se revelam. Elas revelam a si mesmas a tal ponto que todos pensam que as conhecem, apenas para que as pessoas desviem o foco e não prestem atenção naquilo que elas têm de mais profundo.

Eu sou um poço.
Vocês só veem o resultado da escavação: água, ora límpida, ora turva. Ninguém vê aquilo que não quero mostrar. Porque tudo o que importa é o resultado, é o que está na cara, não é? Não.
Tão transparente como a água e tão nublada quanto um dia de inverno.

Samara Morgan sou eu.