Casa de Bonecas

Na primeira vez que peguei aquele livro pequeno e marrom em minhas mãos não o entendi muito bem. Achava Nora uma boba por cometer tantos erros com seu marido, por deixar seus filhos, por ser tão estúpida a ponto de achar que alguém faria o "milagre" de se sacrificar por ela. Anos mais tarde e com uma bagagem de relacionamentos falidos e decepções por confiar demais eu finalmente entendi o que Henrik Ibsen quis dizer - e disse - em Casa de Bonecas.

O livro, que na verdade é uma peça teatral, foi inovador para a época, não tão chocante hoje em dia, porém serve como uma leitura deliciosa e rápida, que proporciona um suspense e um envolvimento com suas personagens de uma forma profunda e direta.

A história toda se passa durante três dias da vida da família Helmer. Nora Helmer, esposa de Torvald, se vê em apuros quando Krogstad ameaça contar a seu marido que ela lhe deve uma grande soma em dinheiro e que falsificou uma assinatura para consegui-lo. Nora se encontra em uma situação angustiante e se afoga cada vez mais em mentiras e subterfúgios na tentativa de impedir Torvald de descobrir que ela foi até as últimas consequências para conseguir o dinheiro e salvar o marido - que precisava de um tratamento caro. 

Ibsen, ao escrever Casa de Bonecas, não apenas falou sobre o machismo que havia - e ainda há - na sociedade, mas também naquela coisa de que "a mulher sai da proteção do pai quando se casa e passa para a proteção do marido", ou seja, não passa de uma linda bonequinha. Além de uma leitura encantadora e rápida (levei uma hora para ler o livro), também deveria ser obrigatória para toda menina, mulher ou qualquer pessoa que gosta de escritos que as façam pensar melhor nas coisas. Vale a pena deixar de ser uma bonequinha. E vale a pena ler esse livro.

Em um quote:
Eu acredito que sou um ser humano tanto quanto você, ou ao menos tentarei ser. Sei que a maioria das pessoas concordaria com você, Torvald. E assim dizem os livros.
Mas eu não estou satisfeita com o que a maioria das pessoas diz, nem com o que é dito nos livros. Preciso pensar sozinha sobre essas coisas e descobri-las.

Das coisas que.

Aí eu chego em casa logo após a escola e minha mãe - sempre tão delicada - diz:
- O que tu tá escondendo?
- Só se for minhas curvas nesse bandiroupa.
- Mi, me disseram que tu tá namorando um estrangeiro de Veneza e que pretende fugir de casa pra casar com ele.
- OIII?! Quem foi o ser do inferno que disse isso? Diga que eu vou tirar satisfações do por que ainda não ter conhecimento do ser masoquista que aceitou casar comigo.
- Ligaram aqui pra casa e disseram. Não sei quem, mas era uma pessoa bem preocupada contigo. Tu tá namorando?
- Não, eu não estou. Eu não acredito que tu REALMENTE acreditou nisso.
- E por que não acreditaria? Pessoas namoram pela internet.
- Só em um detalhe já dá pra ver a mentira: eu quero fugir pra casar? Please mamis. Eu quero fugir DE casar, veja bem. Casamento apenas num futuro muito muito distante e olhe lá. Perca as esperanças, não irei subir ao altar.
- Chateada.

(eu estou namorando com um veneziano e nem sabia; veneziano, cadê você seu lindo? por que tão tímido?)

Eu não sou indecisa.

Apenas não consigo tomar decisões quando me perguntam sobre.

Não perguntem.
É menos traumático pra todo mundo.

Eu vou ficar com olhar bovino e todas as palavras sumirão da minha mente, meu dj mental começará a tocar Ballade pour Adeline e isso se dará até que alguém escolha algo por mim.
Porque eu sou assim.
Porque sim, porque posso.

É o que temos pra vida, meus jovens. 

Como proceder?

- Vez em sempre eu terei uma súbita vontade de lhe dar um banho de água fervente e fazer guisado com seus órgãos internos para dá-los aos cães que não tenho, mas isso não significa que eu não goste de você.

- Eu detesto telefones. Se eu não lhe ligar ou ignorar sua ligação não é porque você não me seja importante, mas é simplesmente porque telefones não me apetecem.

- Eu canto e danço na rua, e sim, isso chama atenção: acostume-se.

- Às vezes eu sumo do nada, fico uma semana isolada no quarto, basicamente dormindo o tempo inteiro e assistindo filmes deprês ou escrevendo. Não vou tentar me matar por estar depressiva, somente preciso da minha solidão porque me alimento de mim mesma.

- Estou sempre entre dois extremos: a frieza e a emotividade, o sarcasmo e a dramaticidade. Então pode ser que agora eu esteja rindo e conversando e fazendo piadas com você e daqui a pouco eu olhe para o infinito, abstraia e diga que vou embora. Pode ser que você não saiba, mas é que de alguma forma eu me senti rejeitada por você. Mas isso passa. Porém uma vez que isso tenha ocorrido eu nunca mais lhe olharei da mesma forma.

- Possuo muita empatia; mesmo que você tenha errado comigo e eu queira arrancar sua cabeça e expô-la em praça pública eu sinceramente entenderei seus porquês e se alguém falar mal de você para mim eu vou querer lhe alimentar com o sangue da pessoa que fez os comentários mordazes a seu respeito.

- Sou uma ótima amiga, e, afinal de contas, nem é tão difícil assim lidar comigo: em caso de dúvida me dê um buscofen, me leve a um local silencioso e escuro e fique segurando minha mão, em silêncio. Certamente eu melhorarei e logo, logo voltarei ao meu estado normal de "ebaaaaaaaaa, bora dançar!".

As estrelas são culpadas

Meu problema com livros como A Culpa é das Estrelas é que eles costumam ser feitos para o comércio. E isso me repugna porque eu acredito na escrita pelo amor à literatura, acredito na escrita como a paixão de um sobrevivente de guerra que nem acredita que está vivo, mas que vai se acostumando e perdendo o encanto pela vida aos poucos e apenas entrando no marasmo do cotidiano como todos nós, pessoas que nunca estiveram em uma guerra.

E eu pensei isso até o capítulo dezesseis - feito para ser comercializado. Até que tudo mudou. Porque viver com uma doença não muda nada - todos vivemos com algum tipo de doença. Uns com a doença do stress, outros com doenças físicas, outros com a ingratidão, a miséria, a falta de amor. Mas todos temos nossas doenças e no final das contas todos podemos ser classificados como indivíduos ferrados de alguma forma, o que realmente faz diferença é a forma como lidamos com nossas dores. E eu realmente não acho que as pessoas mereçam medalhas por lidarem bem com suas doenças. É o mínimo que podem fazer por si mesmas - ninguém pode fazer isso por nós a não ser nós.

Mas aí ele morre.
E eu não vejo isso como um spoiler porque, veja bem, a morte não é um spoiler. A morte é a única certeza que temos nessa vida. Ainda mais a morte em um livro que fala sobre pessoas com câncer.
E o que me fez mudar de perspectiva a respeito do escrito do senhor Green não foi o fato de um garoto com câncer morrer tampouco a forma como isso ocorreu - tudo muito previsível, diga-se de passagem. Mas, sim, a narrativa. Como há em uma passagem após a morte do rapaz que diz algo como "então acordei na outra manhã e tudo parecia muito bem, até que senti o peso do que havia ocorrido e tudo estava terrivelmente mal e perdido". E isso acontece nas diversas pequenas mortes que vemos todos os dias. Não apenas mortes físicas, mas mortes de esperanças, de sonhos, de oportunidades, de idealizações. Mortes de almas.

E ela fica. A moça - que também morrerá, sem dúvida - permanece.
E então imaginei: como eu lidaria com a morte do amor da minha vida? Como eu lidaria se descobrisse que a pessoa que mais amo, com quem almejo passar o resto dos meus dias, está morrendo de câncer? Foi aí que percebi que estamos todos morrendo. Não estamos? Não sabemos quando ou como, mas é certo que um dia ele morrerá, eu morrerei, ninguém lembrará de nossas palavras ou do meu blog, meus diários, as coisas que escrevo por aí.

Mas eu tenho a coisa mais preciosa: a certeza de que toquei verdadeiramente o coração de alguém e deixei minha marca nele. Mesmo que eu não venha a me tornar um Van Houten e não tenha um livro que dure pela eternidade eu sei que há uma alma que se lembrará de mim para sempre. E que estou morrendo. Ele está morrendo. Todos nós estamos morrendo.
Porém morrer faz parte da vida e não precisamos viver para sempre - desde que vivamos o para sempre como nosso hoje.

Não é apenas um livro escrito pra que adolescentes chorem.
E sim, alguns infinitos são maiores que outros. 

Geneticamente feita para discordar.

Hoje de madrugada um rapaz comentou uma postagem no meu fb dizendo que todas as feministas são vadias e as mulheres são geneticamente feitas para cuidar da família. Perdi o apetite matinal, a hora e muito da esperança que ainda tinha pela humanidade ao ler isso. Porque, veja bem, eu sou feminista. Há alguns anos, quando ainda não entendia muito bem o conceito de feminismo, eu dizia ser anti-sexista. Mas o anti-sexismo é o feminismo de certa forma porque o feminismo luta pela igualdade (sim, cada qual possui suas diferenças, mas não há superioridade masculina e essa é uma visão do patriarcado) e não contra os homens. E perceber que há pessoas "próximas" a mim - mesmo que virtualmente - que possuem essa visão machista é algo que me repugna profundamente.

Por esse tipo de coisa que nem tenho mais postado muito por aqui. Eu sou feminista e não sou vadia - ao contrário do que foi dito. Aliás, seria supimpa ser vadia se ser vadia significa ser uma mulher com a moral de um homem, uma mulher que se sente livre para andar como quiser (como também os homens se sentem ao andar sem camisa no meio da rua) sem ser tachada de vadia e afins apenas porque fez exposição de seu corpo. Se ser vadia é ser uma pessoa sem problemas com sua libido então QUE COISA BOA É SER VADIA. Mas não, eu não sou. E não dá para dizer que todas as feministas são vadias. Isso é ridículo e é, sim, machismo.

"geneticamente feitas para cuidar da família" - OIII?! DE ONDE? Essa é a visão do patriarcado. Geneticamente o que nos difere, basicamente, é a menstruação. O resto é resto. Mulheres NÃO SÃO geneticamente feitas para cuidar da família. E sim, esse é um argumento machista e se eu tiver de escrever mil vezes mesmo sendo tachada de várias coisas pelo que digo eu o farei porque tá errado. Enquanto as pessoas pensarem assim o mundo continuará da forma que está.

Fora que: machismo mata e machismo não é o oposto de feminismo. Machismo é opressor e sexista, feminismo visa a igualdade entre os seres, coisa que os machistas não querem, coisa que comentários como "geneticamente feitas para cuidar da família" tentam acabar.
O rapaz também disse que "O fato aqui é que somos o que a sociedade diz de nós. Se todos em um grupo disserem que você matou alguém, essa será a verdade, todos estarão certos e você errada e mentirosa. A verdade é dita pela voz do povo. Simples."

A verdade NÃO É dita pela voz do povo. Isso é argumento de gente preguiçosa demais para mudar a realidade ao seu redor apenas porque a maioria é Maria-vai-com-as-outras. "você não é o que pensa ser, não é o que se diz ser, você é o que você mostra para as outras pessoas" - NO WAY! As pessoas são o que são, não somos o que os outros pensam que somos apenas porque os outros não possuem percepção tal qual como a nossa. Se fosse pelos outros eu seria uma feiticeira-gótica e afins e estou longe disso, mas é o que dizem de mim. E aí, a voz do povo é a voz de Deus? Mas que Deus é esse? Que voz é essa? Qual é esse povo? Não, não é.
Fora que cada pessoa possui uma percepção diferente e individual moldada a partir daquilo que vivenciou. Oras, partindo desse princípio, nós somos TUDO o que dizem que somos? De forma alguma. Então aí o argumento já está falho e preguiçoso. Não precisamos ser seres limitados, mas não somos tudo o que dizem que somos apenas porque cada um possui uma perspectiva diferente.

Então é basicamente:
a) Usar roupa curta ou blablabla nunca será desculpa para estupro ou para agressão verbal; oras, se um homem gosta que mulheres mexam com ele pela sua aparência isso não quer dizer, nem de longe, que mulheres gostarão do mesmo, não gostamos de ser coisificadas.
b) Mulheres não são geneticamente feitas para cuidar da família - isso é papo bíblico, do patriarcado, de Eva foi feita da costela de Adão para ser sua companheira e cuidar da família, blablabla - WRONG.
c) Cada um sabe o que é e a percepção alheia é subjetiva, falha e a verdade é que ninguém sabe nada de ninguém.
d) Machismo existe e mata, feminismo luta pela igualdade e contra o machismo. E sim, eu sou feminista, e se isso me faz uma vadia então que seja.


Mas então.

Como proceder? Não procedendo.
Porque o problema em ser eu é que as situações se repetem à exaustão. Tudo novo de novo e de novo num looping infinito chamado de vida. E eu fico eternamente aqui contando minhas historinhas pra quem quiser ler, feito o Forrest Gump, só que numa versão com muito mais cor-de-rosa.
Será que algum dia as coisas mudarão realmente? Não sei. Muitas questões.

Até lá façam o favor de não falarem nada além  de trivialidades comigo. Minha sanidade agradece.