Nada realmente importa

Ontem eu caí da escada.
E, tudo bem, já caí várias vezes de muitas escadas, porém ontem eu caí da escada no exato momento em que faltou luz. Era de noite, uma violenta tempestade caía lá fora, eu estava sozinha em casa e faltou luz quando fui dar um passo num dos degraus da escada de ferro. Caí sentada, não tive ferimentos terríveis (meu braço tá todo errado, roxo, doendo, enfaixado, talvez eu tenha de engessá-lo, inclusive, mas poderia ter sido pior dadas as circunstâncias), porém algo ocorreu.

De repente eu estava sentada, no escuro, sozinha, machucada, numa escada de ferro com uma tempestade incrivelmente forte caindo lá fora. E eu percebi o quão só estou ao pensar em ligar para alguém para contar o que aconteceu, apenas falar, ou, até mesmo, pedir ajuda. Eu poderia chamar alguém, mas ninguém estaria disponível, ninguém se importaria, ninguém entenderia. Então desatei num choro audível, misturado com gritos de dor e solidão, porque essa é a minha vida. Cheguei num ponto da vida no qual não tenho absolutamente ninguém com quem contar. Num ponto no qual ninguém se importa se estou viva ou morta, se estou machucada, se estou doente, se estou morrendo. Num ponto em que nada que eu fizer ou disser mudará isso.

Me levantei e tentei escalar a escada na completa escuridão dessa casa gelada. Após muito esforço, consegui chegar ao meu quarto, sentar na cama, tatear pela lanterna, abrir o primeiro livro que encontrei e iniciar uma leitura para me fazer concentrar na vida de personagens e não na minha própria, porque não há como suportar tamanho desprezo.

Após algum tempo minha mãe chegou e, para completar a cena digna de filme, me viu machucada e, claro, contei o que havia ocorrido. Ao que ela disse (nem querendo saber como raios estou, afinal, isso não importa mesmo) que é melhor eu me acostumar à solidão e a lidar com meus ferimentos sozinha, porque logo ela e meu pai morrerão e meus irmãos não me querem, minha família me odeia, meus amigos têm suas vidas e fui abandonada até pela pessoa que disse me amar e prometeu que permaneceria, ou seja (e tudo isso foi dito com todas as letras): meu futuro será uma casa escura, sozinha e silenciosa.

Eu sei que tudo o que ela disse é verdade. E isso é o que dói mais.
Ninguém se importa além de mim. 

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