O mundo fica parado quando ninguém inventa nada

Já entrei na escola sabendo ler e escrever.
Não era completamente alfabetizada - até porque o processo de alfabetização é algo que se dá ao longo da vida, não de um ano pra outro -, mas já sabia o básico do bê-a-bá. Portanto, a primeira coisa que fiz ao chegar na escola foi perguntar onde era a biblioteca. (Aliás, esse hábito repetiu-se em todas as escolas - e eu troquei muito de escola ao longo dos anos - em que eu estudei: a primeira coisa que fazia era procurar a biblioteca, afinal: biblioteca é amor. ♥) E já saí de lá com o máximo de livros que a norma bibliotecária permitia, risos. 

Numa dessas andanças à biblioteca descobri um dos livros mais amor que já tive o prazer de ler até hoje. Um livro tão, TÃO incrível que me marcou profundamente e, inclusive, moldou uma boa parte da minha personalidade. Aquele tipo de livro que pensei (e penso até hoje) em ler para os futuros filhos que jamais terei. Esse livro é A fada que tinha ideias (editora Ática, 56 páginas), da Fernanda Lopes de Almeida, uma escritora maravilhosa cuja autoria inclui outro livro que amo, Soprinho (qualquer dia falo dele aqui também), entre tantos outros. 

A fada que tinha ideias conta a história de Clara Luz, uma fadinha de dez anos de idade que ainda não havia saído da Lição I do Livro das Fadas. Clara Luz achava perda de tempo ser uma fada e se restringir ao Livro das Fadas apenas, que viviam desencantando princesas e tecendo tapetes mágicos. Todas as fadas tinham muito medo de criar mágicas novas, afinal, a Rainha, uma fada muito velha que vivia num palácio do outro lado do céu, era muito rabugenta e não aprovava nada que não viesse do Livro das Fadas. 
Mas Clara Luz era um espírito livre e não dava a mínima para as rabugices da Rainha ou mesmo para os alardes de sua mãe, que frequentemente perdia o ar tamanha a preocupação! 

Esse foi o livro da minha infância. 
Com a Clara Luz aprendi que não importa o que os outros fazem, nós temos de fazer o que achamos certo. Temos de nos divertir, acima de tudo, estar bem conosco mesmo e questionar todas as certezas que nos dizem por aí. Afinal: como terei certeza de algo se não vivê-lo, questioná-lo, conhecer seus contrários?! 

Clara Luz era uma fada, de seus dez anos de idade, mais ou menos, que morava lá no céu, com a senhora fada sua mãe. Viveriam muito bem se não fosse uma coisa: Clara Luz não queria aprender a fazer mágica pelo Livro das Fadas. Queria inventar suas próprias mágicas.
— Mas minha filha — dizia a Fada-Mãe — todas as fadas sempre aprenderam por esse livro. Por que só você não quer aprender?
— Não é preguiça, não, mamãe. É que não gosto de mundo parado.
— Mundo parado?
— É. Quando alguém inventa alguma coisa, o mundo anda. Quando ninguém inventa nada, o mundo fica parado. 

Clara Luz =  

O mais interessante de tudo é perceber que a dona Fernanda escreveu esse livro em plena ditadura militar. Quer dizer, a mulher, uma psicóloga que gostava muito de escrever, escreveu um livro EXTREMAMENTE SUBVERSIVO para crianças. Porque, vejam bem, é um livro sobre uma menininha que inocentemente rebela-se contra o governo e decide fazer as coisas como acha melhor, sem preocupar-se com as proibições da Rainha das Fadas. O livro, lançado em 1975, formou as mentes das crianças que tornaram-se os jovens da década de 80 e que fizeram toda aquela revolução que culminou no final da ditadura. 

Há quem diga que livros infantis não mudam o mundo, que são literatura inferior e não influenciam em nada. Eu digo o contrário. Esse livro foi o que me fez querer, um dia, ser escritora. Foi o que me fez começar a questionar o mundo à minha volta. E tenho certeza de que as crianças de meados dos anos 70 tiveram o mesmo impacto que eu, talvez até maior, dadas as circunstâncias. 

Numa entrevista que está no site da editora Ática, a dona Fernanda, quando questionada acerca da importância da literatura infantil, disse que "O principal papel é exatamente esse: formar leitores. Formar leitores é formar pensadores. No sentido menos pomposo e mais modesto da palavra: pessoas que pensam. É disso que qualquer país precisa.". 

Um dos trechos do livro diz que: 

Não há nada mais bonito
que inventar em liberdade
e só tem a vida alegre
quem sabe dessa verdade 

Fernanda, com toda sua psicologia, conseguiu incutir em sua obra versos, frases, textos extremamente libertadores, que fazem pensar, com o intuito não apenas de formar leitores, mas também de incutir o sentimento de liberdade no coraçãozinho das crianças, em uma época em que o país vivia uma ditadura terrível, um cerceamento de desejos. 

Digam o que quiserem sobre literaturas, mas jamais digam que a literatura infantil é perda de tempo, que para nada serve, que crianças não têm direito a opinião e que isso tudo é perda de tempo. Clara Luz discorda, e eu também. 

— Minha filha, isso não é da sua conta. Você precisa se convencer de que você não é a Rainha, ouviu?
— Sabe, mamãe, na minha opinião, tudo é da conta de todos. Justamente isto é que dá um trabalhão.
A Fada-Mãe ficou olhando para Clara Luz:
— Minha filha, você não será muito pequena para ter tantas opiniões? Tenho medo que faça mal à sua saúde!
— Não se preocupe, mamãe. Desde os três anos de idade, eu comecei a ter opiniões. Agora estou com dez, de modo que tenho sete anos de prática.
— É... Isso é verdade... Você tem praticado bastante — concordou a Fada-Mãe. 

Como a dona Fernanda disse:  "O verdadeiro conhecimento nasce da permanente indagação.". Tomara que possamos seguir o exemplo de Clara Luz e não deixemos o mundo parado. Seria triste demais perder tantas oportunidades e ideias, não é mesmo? 

4 comentários

  1. Que livro mágico cara! Eu infelizmente não lembro de quase nenhum livro que eu lia quando era criança, mas WOW! E apenas tenho dó/preguiça desse povo que subjuga literatura infantil/infanto-juvenil. Não sabem o que estão perdendo, tsc!
    beijo!

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  2. EU AMAVA/AMO ESSE LIVRO <3 esse e Serafina sem rotina! Mas esse eu reli nem sei quantas vezes *-*

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  3. Que demais, Mia! Eu não conhecia, mas fiquei curiosa ainda mais sabendo a história por trás. É incrível as coisas só que só leitura/escrita nos proporciona, não é mesmo? E o título do post é sensacional.

    Um bj,
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  4. Mia, quero começar a presentear minha sobrinha com livros, mas não sei por onde começar..
    Quais livros vc recomendaria para uma criança de 6 anos?

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