Cem anos de solidão

Ler Gabriel García Márquez sempre é uma experiência única. Não importa quantos livros dele você já tenha lido: ao ler o primeiro parágrafo a sensação é sempre a mesma, a de estar adentrando em um universo mítico, mas real, a de estar caminhando dentro da cabeça do Gabo e vendo o mundo através de seus peculiares e encantados olhos latinos.

Como todo ser humano possuidor de uma queda de penhasco por livros, sempre ouvi falar coisas confusas e misteriosas acerca de Cem anos de solidão (editora Record, 394 páginas), a obra mais consagrada do Gabo. Porém, nunca havia lido o tal esplêndido livro por motivos de: ele inexistia nas bibliotecas que eu frequentava. Porém, há algumas semanas o achei na biblioteca da faculdade. Tive de fazer reserva, claro. Esse livro literalmente não pára nas estantes. Há trocentos mil exemplares, e nenhum deles fica disponível por mais de dois dias. Ou seja = ou o livro é muito bom ou é muito famoso.Cem anos de solidão é ambos. Tão bom quanto famoso.
Úrsula se perguntava se não era preferível se deitar logo de uma vez na sepultura e lhe jogarem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantas penas e mortificações; e perguntando e perguntando ia atiçando a sua própria perturbação e sentia desejos irreprimíveis de se soltar e não ter papas na língua como um forasteiro e de se permitir afinal um instante de rebeldia, o instante tantas vezes desejado e tantas vezes adiado, para cortar a resignação pela raiz e cagar de uma vez para tudo e tirar do coração os infinitos montes de palavrões que tivera de engolir durante um século inteiro de conformismo.
— Porra! — gritou.
Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião.
— Onde está? — perguntou alarmada.
— O quê?
— O animal! — esclareceu Amaranta.
Úrsula pôs o dedo no coração.
— Aqui — disse. 
O livro conta a história da família Buendía, uma família marcada pela solidão. Apesar de serem uma família numerosa, todos eles trazem dentro de si uma solidão intrínseca. Por mais que guerreiem, criem povoados, façam filhos etc., a solidão está lá dentro, como uma companhia irremediável a qual temos de nos acostumar.

A história começa com uma lembrança do Coronel Aureliano Buendía, do dia em que tudo começou a mudar em sua vida: o dia em que seu pai, José Arcadio Buendía, o levou até os ciganos para conhecer o gelo. José Arcadio Buendía, casado com Úrsula Iguarán, um dia saiu à procura do oceano e, meses após uma caminhada árdua e sem fim, decidiu parar num local e fundar um vilarejo que se transformou na cidade de Macondo, a cidade em que nasceram todos os Buendía e que se tornou palco central de rebeliões futuras entre conservadores e liberais.

O interessante nesse livro - que, inclusive, ganhou o prêmio Nobel de Literatura - não é a história em si. Claro que a história é interessante, mas ela poderia ser a história mais fascinante do universo, se o escritor não soubesse escrevê-la, viraria nada além de um enredo mal aproveitado. O interessante é a forma como o Gabo nos faz mergulhar nas páginas do livro, sentir o que as personagens sentem e nos identificarmos com as situações vividas, por mais bizarras que elas sejam - afinal, estamos falando de uma história que se enquadra no realismo fantástico.

Uma das características dos livros do Gabo é o de escrever sempre o nome completo das personagens. Lembro que a primeira vez que li algo dele (O amor nos tempos do cólera) fiquei meio irritada com essa mania porque ele não podia chamar o Florentino pelo primeiro nome apenas. Não. Tinha de ser Florentino Ariza. Não podia chamar a Fermina apenas de Fermina. Tinha de ser Fermina Daza. Ele repetiu tantas vezes os nomes dessas personagens que faz um ano que fiz leitura do livro e não consegui esquecer seus nomes. A mesma coisa acontece em Cem anos de solidão. Todas as personagens têm seus nomes e sobrenomes repetidos exaustivamente, porém nesse livro isso se faz extremamente necessário, já que as personagens da família Buendía, conforme vão passando as gerações, possuem todas os mesmos nomes. "Comassim os mesmos nomes, Mia?" Então, filhote, é isso mesmo: as personagens variam entre Aureliano e José Arcadio. Há variantes de Úrsula, Remedios e por aí vai. Nasce filho, morre personagem, mas os nomes permanecem.
— Vai se chamar José Arcadio — disse.
Fernanda del Carpio, a formosa mulher com quem se casara no ano anterior, concordou. Úrsula, pelo contrário, não pôde esconder um vago sentimento de derrota. Na longa história da família, a tenaz repetição dos nomes permitira que ela tirasse conclusões que lhe pareciam definitivas. Enquanto os Aurelianos eram retraídos, mas de mentalidade lúcida, os Josés Arcadios eram impulsivos e empreendedores, mas estavam marcados por um signo trágico. 
E isso não confunde o leitor? Olha, confunde, sim. Eu fiz a minha listinha de personagens conforme fui lendo e recomendo que vocês também o façam porque é muita gente com o mesmo nome e aí não sabemos mais quem é filho ou quem é pai. Mas confesso que adoro esse recurso porque ele demonstra bem como funcionam (funcionavam até pouco tempo atrás, ao menos) a dinâmica das famílias latinas. Nomeia-se a criança conforme os parentes. Acho digno.

Outra coisa incrível no livro é a resiliência das personagens em geral, mas especialmente das femininas. Gabo tinha esse dom de escrever mulheres fortes, cada qual à sua maneira, que viviam suas vidas conforme queriam, sempre se adaptando às circunstâncias da vida, sem nunca perder a postura e a firmeza de propósito. Isso eu acho lindo de ler, dá gosto de acompanhar a história dessas mulheres fortes.

Outra coisa interessante a ser observada é que parece que esses cem anos de solidão foram um tipo de maldição imposta à família Buendía já que ela começou por um incesto. E há aquela coisa bíblica, muito forte nesse livro, de que todos os incestos serão punidos com algum tipo de maldição: deformidade física ou maldição que dure gerações. É o que ocorre.

Se eu contar algo a mais para vocês será spoiler, porque acontecem coisas tão inusitadas e maravilhosas nesse livro que praticamente tudo o que eu disser poderá ser considerado um spoiler, mas posso dizer, como toda a certeza, que: vale a pena lê-lo. De verdade. Já.
O livro em um quote:
[...] porque achava que as calamidades não podiam servir de pretexto para o relaxamento dos costumes.  

28 comentários

  1. Agora quero ler esse livro, não sei se te amo ou se te odeio por isso haha
    Sempre tive curiosidade de ler Gabo, mas nunca o fiz sabe-se lá porquê. Providenciarei isso.

    Beijo

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  2. Olá Mia, tudo bem?

    Tenho Cien Años de Soledad aqui em casa, mas ainda não consegui sentar e lê-lo, pois está numa edição em espanhol tão ruim, que ninguém merece. Vou procurar uma versão melhor e correr pro abraço.

    Beijos

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  3. tô há cem anos querendo ler esse livro, haha! lembro que comecei a ler, me perdi no tanto de personagens que tinham, emprestei pra uma amiga (vão passar 100 anos e ela não irá me devolver) e eu quero comprar a edição dessa foto e anotar o nome de todos pra não me perder dessa vez e ir até o fim <3 porque eu amo GG e a América Latina :)

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  4. Já conhecia o livro e lembro que quando mais nova era louca pra ler e até tentei mas me senti meio perdida achei a leitura confusa e dificil, mas eu era novinha né? kkk acho que hoje em dia eu conseguiria ler sem me perder sempre vejo alguém elogiando e dizendo o quanto é incrível.

    http://mylittlegardenofideas.blogspot.com.br/

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  5. Ainda não li esse livro. Para falar a verdade, de Gabriel García Márquez, só li Memoria de minhas putas tristes.
    Algo que você falou sobre o livro me chamou atenção: não é a história em si, mas o forma como Gabo escreve. Eu posso dizer o mesmo sobre o livro que eu li. A história perece ser sem grande importante e ele vai lá e transforma em algo que nos tira o folego. Poucos conseguem isso. Só os gênios, mesmo.

    Beijos!

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  6. Oi Mia!
    Tenho este livro na estante e sempre fico adiando a leitura não sei porque. Sua resenha me fez repensar nisso e quem saber ler ele em breve?
    Beijos
    Carol
    www,sobrevicioselivros.com

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  7. Olá Mia, adorei sua resenha e acho que necessito ler este livro assim que possível, vou ver se na biblioteca da minha faculdade tem <3 Nunca li nada do autor, mas sempre vejo diversos comentários positivos sobre suas obras...

    Visite "Meu Mundo, Meu Estilo"

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  8. Gabo é só amor!!! ♥♥
    Melhor escritor do realismo fantástico, sem dúvida alguma.
    Quando eu li "Crônica de Uma Morte Anunciada" fiquei apaixonada pela maneira que ele nos faz entrar na história também, apesar dos "absurdos".
    Dele eu só li Crônica e Memórias de Minhas Putas Triste, mas Cem Anos de Solidão tá na lista definitivamente.
    Só falta achar tempo! Hahaha
    Adorei a resenha, seguindo aqui porque blogs com Gabriel García Marquez não são nada além de ótimos ♥
    Até breve!
    encontrosliterarioslivros.blogspot.com.br

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  9. Esse livro é perfeito e concordo com você, Gabriel é experiência única!
    Resiliência é uma característica forte na escrita do autor. Excelente indicação de leitura, espero logo reler esse livro.
    http://www.poesianaalma.com.br/

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  10. Olha, Mia, tu pode ser vendedora, pq me convenceu a ler esse livro! ♥

    HAHA, estou com esse livro (e O amor nos tempos do cólera também) há alguns meses no Kobo e ainda não tinha me animado a tentar a leitura. Sempre fui curiosa pq muita gente fala maravilhas do Gabriel García Márquez (ainda não me sinto íntima pra chamar de Gabo, quem sabe depois da leitura!) e eu sabia que um dia teria que ler pra saber qual é, mas até hoje não tinha me dado aquela faísca de vontade. Bem, dona Mia, tu acendeu essa faísca e agora eu quero ler!

    Espero terminar a leitura tão fascinada quanto. (:
    Um beijo!

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  11. Oii, tudo bem com você?
    Olha, eu não conhecia o livro, e admito que fiquei meio confusa na resenha, haha, mas eu daria uma chance a ele, vi que você o amou, então ele é um bom livro, pretendo ler ele assim que possível.

    Beijos da Jéss ♥
    Brilliant Diamond | Fan Page

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  12. O livro não me cativou tanto, mas não digo que não leria, até porque, adoro sair da minha zona de conforto em questão as leituras.
    Que bom saber que foi uma leitura boa para você!
    beijos
    www.apenasumvicio.com

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  13. Oie, Mia!
    Um clássico, né? Ainda não li nada do Márquez. Tenho amigos louco pelo autor, mas seus livros não me chamam atenção porque eu sou muito apegada à fantasia épica. Talvez um dia eu mude de ideia. Ótima resenha!
    Com carinho,
    Celly.

    Me Livrando || Livre-se você também!

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  14. Eu sempre tive vontade de ler Garcia Marquez, mas não li por falta de coragem mesmo. Não sabia dessa questão dos nomes completos e a dica de fazer uma lista é uma boa. Me animei muito pra fazer a leitura do livro. Quero por mais clássicos na estante.

    http://laoliphant.com.br/

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  15. Oi, tudo bem?
    Nunca li nada do Garcia Marquez, mas tenho muita vontade de ler algum livro dele!
    Cem anos de solidão parece ser um livro muito bom e sua resenha só ressalta isso!
    Espero em breve ter oportunidade de ler esse ou qualquer outro livro do autor e espero gostar bastante da leitura.

    Beijão :*
    http://www.livrosesonhos.com/

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  16. Olá
    eu já vi alguns comentarios sobre esse livro, achei muito legal a sua proposta, rsrs, não sei (o que é provavel) se vai dar para eru comprar agora, mas aceito de presente rsrs
    Bjks
    Passa Lá No Meu Blog - http://ospapa-livros.blogspot.com.br/

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  17. Olá,
    Minha professora me indicou esse livro, alias três professores meus na realidade, porém não fiquei ansiosa pela leitura não. Não é bem uma história que me satisfaz no momento sabe? enfim.
    Sua resenha ficou muito boa,
    bjs

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  18. Oie! Tudo bem?

    Nunca tive nenhum contato com obras do autor, mas confesso que essa em particular sempre me chamou atenção. Gostei de todos os pontos levantados na resenha. Todos muito pertinentes! Deu pra ter uma noção sobre o estilo do autor. Saber que cada nova leitura é uma experiência distinta me anima!! :D

    Beijos,

    Juliana Garcez | Livros e Flores

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  19. Oi Mia!
    Ouço tantos elogios em relação a escrita do Gabo que minha curiosidade para com seus livros só aumenta. Apesar de um pouco confuso essa repetição de nomes nas gerações da família, vemos um retrato natural do que acontecia antigamente, e isso só demonstra a mestria do autor em incorporar esses elementos da história cultural em suas obras.
    Beijos!

    Rafaela, Eterna Leitora.
    www.eterna-leitora.blogspot.com.br

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  20. Oi Mia, tudo bem?
    Não li nada do autor ainda, mas o livro tem um enredo bem interessante.
    Bem peculiar essa questão de citar os nomes completos, e acredita que tenho uma tia-bisavó que se chama Daza? Daza mesmo!
    Bjs

    A. Libri

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  21. Oi, tudo bem?
    Eu já vi esse livro por ai, mas confesso que eu não costumo ler livros desse gênero, sabe? Mas eu gostei bastante da sua resenha, deu para saber mais sobre a história e a mesma parece ser realmente bem interessante e também imagino que seja triste, pois a família é composta por pessoas solitárias, né? Acredito que eu iria ficar confusa com essa coisa dos personagens, mas caso for ler o livro irei tentar lembrar da sua dica de fazer uma listinha kkkk Enfim, adorei a sua resenha e espero um dia ter oportunidade de ler esse livro.

    Beijos :*
    Larissa - srtabookaholic.blogspot.com

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  22. O livro parece ser muito bom, mas não me chamou muita atenção, não tenho muito interesse pela leitura... Adorei a resenha, está muito bem escrita e desenvolvida!

    Abraços e até!

    http://lendoferozmente.blogspot.com.br/

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  23. Eu morro de vontade de ler algo do autor, mas morro de medo de ser muito "cult" para mim e eu não gostar por isso. Eu sei que é bobo, mas deixo de ler muita coisa por causa desses medos idiotas. Ainda não sei por qual livro dele começar, você me indica algum que seja de fácil leitura?

    http://www.livrologias.com/

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  24. Olá,
    eu já conhecia o livro e por algum motivo ele não me chama atenção, não sei dizer o que é, apesar de você ter contado alguns detalhes novos pra mim ainda assim não o coloco na minha lista de desejados, mas sua resenha foi muito boa.

    http://vocedebemcomaleitura.blogspot.com.br

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  25. Olá,
    Estou nessa situação de ver o livro na biblioteca e pensar se pego ou não pego hehehe
    Conheço a fama do autor, mas nunca tive um real interesse em ler algo dele, quem sabe eu não dou uma chance depois da sua resenha.

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  26. Oii Mia , tudo bem ?
    Haaa esse livro, tenho um medo enorme de lê-lo porque minhas expectativas são tão altas. Mas tenho uma vontade enorme de ler.
    Adorei sua resenha e estou em uma vibe clássica. Queria que tivesse uma biblioteca por aqui para eu ler mais clássicos.
    Amei a resenha
    Beijos

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  27. Mia!
    Você não vai acreditar, mas eu tava pensando em você hoje! Não estou usando mais Ask, mas nos últimos dias que estive lá não lembrava de ter "te visto".
    Vi seu link no Fluffy e (confesso) eu só fui lendo a postagem sem nem olhar pra barra lateral. Quando vi um comentário dizendo "oi Mia" que fui perceber o link e a foto na barra :O
    Tá, enfim. Que doido isso!
    Já ouvi falar muuuuuuuuito desse livro e imagino que seja realmente incrível. Como eu tenho uma "coisa" com excesso de personagens, não sei se conseguiria acompanhar :( sou meio lerda. Imagina então com tanto personagem com nome repetido? hahaha
    De qualquer forma, excelente resenha.

    Beijos,
    Duas Leitoras

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  28. Resenha linda! Amo Cem Anos de Solidão, é um dos livros da minha vida! Li uma edição velhinha dele, mas pretendo ler novamente - tenho essa edição comemorativa há uns anos na estante, e adoro o fato de vir com a árvore genealógica (muito útil!).
    Enfim, Gabo é muito amor, tudo o que já li dele me encantou de primeira. <3

    Beijinhos, Livro Lab

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