Come play with us, Danny.

O iluminado
Stephen King
Editora Suma 
262 páginas
Ano de publicação: 1977 

Sobre o que é: um professor de Inglês chamado Jack Torrance é despedido de seu trabalho e não consegue achar mais emprego em local algum por causa de uma agressão a um aluno e ao fato de ser alcoólatra. Por conta da ajuda do único amigo que lhe resta ele acaba conseguindo emprego como zelador de inverno do Hotel Overlook, local que passará meses cuidando, apenas com sua mulher, Wendy, e seu filho, Danny. O problema é que: Jack é um cara em rehab que perdeu o trabalho por conta do fato de que não consegue controlar o próprio temperamento e quer passar 5 meses trancado num hotel antigo, onde várias coisas terríveis já aconteceram, com a mulher, que já estava tentada a largá-lo, afinal de contas, QUEM NÃO, e o filho, que tem toda uma vibe "I see dead people" e é o iluminado da história - ou seja: o guri tem um grau alto de mediunidade. Porém, a família não tem saída já que, literalmente, não têm de onde tirar o sustento. Jack tentará aproveitar esses meses trancado num hotel vazio para terminar de escrever sua peça - porque ele é metido a escritor -, mas coisas nada agradáveis começam a acontecer. 

Por que ele é bom? Eu tenho um problema com o Stephen King. Há anos tento ler seus livros e a coisa sempre degringola em algum ponto porque acho que a escrita dele é chata. Eu sei, eu sei: todo mundo diz o contrário. Mas sempre me senti nadando contra a correnteza ao tentar ler algum de seus livros: é como se eu estivesse insistindo em algo que só me trará cansaço e frustração - e provavelmente uma lesão por esforço. Porém, desde que li um livro incrível dele chamado Sobre a escrita, que é uma mistura de autobiografia com dicas de escrita, a coisa tem fluído melhor. Descobri que titio King e eu temos muito em comum, principalmente o processo de escrita. E, por conta disso, tomei coragem para tentar uma nova leitura dele, dessa vez The Shining, o livrinho que deu origem a um dos meus filmes preferidos de todos os tempos. 

Uma dica: ESQUEÇAM O FILME. Literalmente, o filme conta apenas 80 páginas do livro - e estou sendo generosa aqui. Não desmerecendo a obra do Kubrick (♥), mas digamos que o filme tem o mesmo plot, porém é uma obra de arte à parte, certo? Certo. O livro é INCRÍVEL. Titio King nos conta uma história sobre loucura. Ocasionada por fantasmas, ecos e blablabla? Certamente. Mas essa não é a questão. A questão é que essa é uma história que, até certo ponto, poderia acontecer com qualquer um. Perder a cabeça, beber todas e entrar em parafuso tornando-se superviolento. Já aconteceu várias vezes. Vemos várias histórias assim nos jornais quase que diariamente. É algo verossímil, e é isso o que assusta mais. 

O que costuma me irritar nos livros do titio King é que ele demora muito pra chegar ao ponto. O cara tem a mania de contar detalhes que nem são tão relevantes assim apenas para nos fazer entrar no clima da história, conhecer as personagens etc. Mas nesse livro isso é MUITO importante porque as personagens são complexas e extremamente bem construídas. 

Fora o fato de que, sim, existe um narrador onisciente, mas os pontos de vista divergem dependendo do capítulo. Os mais interessantes, na minha opinião, são os capítulos do Danny. A visão do menininho de 5 anos vivendo uma situação de estresse intenso como a do livro é algo sensacional. E, em meio aos capítulos, até mesmo no meio de frases, titio King coloca o fluxo de pensamento das personagens. Eu não sou uma grande fã do fluxo de pensamento (sorry, Virginia Woolf e James Joyce), mas adorei a forma como ele é inserido, apenas em pequenos trechos, no livro. Nos ajuda a entender o que se passa na cabeça dessas pessoas.

Por que ele é ruim? MAS ELE NÃO É RUIM, TCHÊ! Eu favoritei o livro, vejam bem. Como já disse várias vezes: tenho dificuldades com os livros do Stephen King. Todos eles parecem ser escritos por uma versão masculina da Danielle Steel, inclusive este. Aliás, uma característica bem marcante dos escritores norte-americanos de uma cerca época - século XX, digamos assim - é que todos eles escrevem de forma meio parecida. A pessoa consegue diferenciar um do outro pelos assuntos, mas não exatamente pelo jeito de escrever. Parece que todos beberam na mesma fonte - e provavelmente fizeram isso mesmo.

Outro ponto que não chega a ser ruim, mas também não é bom, apesar de indicar que o livro funcionou, cumprindo seu propósito, é que: EU NÃO CONSEGUI DORMIR. Aí você pensa na pessoa com vinte e poucos anos na cara que lê um livrinho de uma história que ela já conhecia por cima - por conta do filme - e que, a princípio, não lhe dera medo algum, e que TEM DE ligar a luz do quarto para dormir e mesmo assim não dorme porque simplesmente não conseguia parar de pensar numa cena específica do tal livrinho.

Há vários capítulos pavorosos, mas tem um que me deixou realmente perturbada. Tem uma coisa que acontece com o Danny no playground - quem já leu vai saber do que estou falando - que me deixou terrivelmente agoniada. Mas tá, vi um episódio de HIMYM antes de dormir - sempre funciona - pra relaxar e deitei. Eram 23h. 2h da manhã ainda estava acordada, com os olhos arregalados, no escuro, olhando pra o teto com medo de relaxar e dormir porque VAI QUE. Vai que o quê? Sabe-se lá. Levantei, liguei a luz e disse: agora vai. Não foi. Fui dormir só no outro dia, após chegar em casa da faculdade.

Dado o fato de que jamais senti medo de livros nem filmes nem nada do tipo - nem mesmo quando li e vi O Exorcista, que todo mundo diz que NOOOOSSA, QUE COISA HORRÍVEL - isso quer dizer muita coisa. O Iluminado é um livro que assusta. Pra caramba. Titio King soube como mexer com o nosso psicológico através desse livrinho.

~Jack Nicholson não tem nada a ver com o Jack do livro, mas esse filminho = ♥~ 

Se eu recomendo a leitura? PELAMORDEDELS, SIM! E em caps lock, com erros gramaticais que é pra dar ênfase ao negócio. Esse é um daqueles livros que vale a pena ler. Não importa se em livro físico, pdf, com cheirinho de novo ou aquele cheiro de sebo que causa rinite mas, ai, tão bom: leiam-no.

Em um quote:
Este lugar desumano cria monstros humanos. (p. 204) 

Este post faz parte do Desafio 50 livros de 1900 para ler antes de morrerConfira aqui a lista com todos os títulos que lerei. \o/   

Por que escrevemos ficção?

Meu primeiro pensamento para essa pergunta foi: MAS EU NÃO ESCREVO FICÇÃO. Escrevo, no máximo, crônicas do dia a dia, coisas que realmente acontecem comigo apenas porque a minha vida é uma sitcom escrita por um roteirista em rehab com várias recaídas ao longo do percurso. 

Aí me dei conta de que isso é uma baita mentira porque a vida da gente nada mais é do que má ficção. Quer dizer, a gente acha que vivemos uma coisa, que tudo é exatamente como o narrador que vive dentro de nosso cérebro - aka consciência - nos conta, mas se perguntarmos a qualquer outro ser humano como se deu aquele passeio em que fomos tomar um sorvete no parque a história será diferente da que está em nossas mentes. Como disse a dona Isabel Allende (diva ♥): 
A memória é ficção. Selecionamos o mais brilhante e o mais escuro, ignorando o que nos envergonha, e assim bordamos a larga tapeçaria da nossa vida. 
Escrevemos ficção para nos contar uma história, para nos dizer que está tudo bem, mesmo que não esteja, para que sejamos convencidos por palavras escritas de que o que nos acontece poderia acontecer com qualquer um, que outras possibilidades podem surgir, que um homem maluco numa cabine azul pode surgir nos céus e nos tirar da confusão em que estamos. No papel tudo é verossímil. Não há barreiras. E precisamos disso porque a vida já é cheia de barreiras, empecilhos, obstáculos. 

A velha pergunta por que escrevemos ficção tem apenas uma única resposta: a ficção serve para que, ao tentarmos responder o porquê, escrevamos mais ficção para demonstrar que só há uma forma de mostrar o porquê, e essa forma é lendo-a.

A dona Fran convidou as gurias do GSB pra um projetinho fofo baseado em Fangirl, da Rainbow Rowell - livro que ainda não li, confesso, mas o lerei um dia, eventualmente, sabe-se lá quando -, que consiste basicamente em a cada domingo escrever sobre um tema específico inspirado no livrinho. Bora ver os textos da Thay e da Alê também! 

Piquenique no lab

Da série: pessoas que fazem a vida ficar mais bonita.

No laboratório onde trabalho não é permitido comer ou beber coisa alguma.
Durante o turno da noite ninguém se atreve a comer ou beber nada porque o rapaz que chefia o lab é extremamente chato quanto a isso. Porém, durante a tarde, há uma senhorinha no comando. E a tal senhorinha é puro amor: traz café, bolinhos e bergamota. Todos comem, bebem, assistem filmes e escutam música (com fones de ouvido, evidentemente) durante seus trabalhos.

Senhorinha do lab = ♥ 

Desabafo de uma queenie

Eu amo o Queen. É a minha banda preferida desde pequena, não há um só momento da minha vida que não tenha uma trilha sonora dessa banda maravilhosa, a foto do Freddie Mercury fica me observando diretamente do meu mural todas as noites até eu dormir, eu tenho camiseta da banda, bottom, DVDs, CDs, vinis (♥) e tudo o mais. (Só me falta aquele livro maravilhoso de 40 anos de Queen; aliás, se alguém quiser me presentear com ele no Natal, aceito de bom grado; risos.)

Durante toda a minha vida eu fui zoada por ser fã do Queen. As pessoas sempre tiraram sarro da minha cara por gostar de banda de velho, de música velha, por não ser fã de, sei lá, The Killers - inclusive, gosto muito também, e é legal lembrar que essa banda se inspirou bastante em Queen; aliás até mesmo Katy Perry e Lady Gaga têm inspirações na melhor banda do universo, ou seja. Mas o fato é que sempre, fosse na escola, no meu grupo de amigos, nas redes sociais ou até mesmo aqui no blog, as pessoas apontaram o dedo e riram da minha cara porque "que gosto ruim; nem parece que tu é jovem; ai, credo, esse monte de véio, blablabla".

~já cansei de ouvir/ler a mesma resposta~
Aí, por conta do Rock in Rio, essas mesmas pessoinhas que sempre detestaram o Queen, que tiraram sarro da minha cara por ser queenie etc., agora, literalmente da noite pra o dia, se declaram fãs ardorosas, dizendo que sempre amaram a banda, que queriam abraçar o Brian e o Roger e dormir com o Adam Lambert.

Do que eu chamo isso? Histeria.
Okay, estou sendo má. Deixa eu voltar a 2009 e usar um termo que muita gente odeia, mas que, neste caso, se aplica: poser. BANDIGENTE POSER DOZINFERNOS.

E, é claro, não dá pra falar nada ultimamente que as pessoas começam com o mimimi. STOP THE MIMIMI, PLEASE! Tá complicado, de verdade, ter opinião. Pessoas com opiniões próprias têm sido cada dia mais hostilizadas nas redes sociais. Se você discorda da massa internética, saiba que há sempre no mínimo dez pessoas prontas e tirar prints do que você diz e distorcer suas palavras em grupos privados no fb e whatsapp. Mas enfim, a questão é que: claro que já apareceram pessoinhas-chuchu para dizer coisas como: "TU SÓ DIZ ISSO PORQUE ODEIA O ADAM LAMBERT", "ADAM É A PERFEITA SUBSTITUIÇÃO DO FREDDIE", "GOSTO MAIS DE QUEEN DO QUE TU" e a minha preferida "DEIXA AS PESSOA GOSTAR DA BANDA", assim mesmo, com a concordância completamente errada que é pra dar ênfase ao apelo.

E né? Não odeio ninguém. Okay, talvez eu odeie uma ou duas pessoas nesta vida, mas no geral ou eu amo algo ou simplesmente não estou nem aí. E, no caso do Adam Lambert: blergh. Nem aí. Tanto faz, de qualquer forma, porque ele não está no Queen.

COMASSIM ELE NÃO ESTÁ NO QUEEN?!

Explico: o Queen acabou há muito tempo, até mesmo antes da morte do Freddie. Quem é fã sabe que a banda nem estava mais junta e apenas voltaram a gravar porque ele estava morrendo e queria cantar até seu último suspiro (♥). Mas o fato é que assim que o Freddie morreu a banda não apenas perdeu seu vocalista como também seu baixista, aquele leonino maravilhoso de quem ninguém se lembra, John Deacon.

~John não está nada feliz por terem esquecido dele~ 
A banda era formada por Freddie Mercury, John Deacon, Brian May e Roger Taylor. Se Freddie e John foram embora, então não temos uma banda, mas sim uma dupla de senhorzinhos cantando uns rocks da pesada. E, com o moço Adam, temos um trio. Mas não é o Queen.

As pessoas que acham que o Queen continua são as mesmas que:
a. acham que Engenheiros do Hawaii continua apesar de, literalmente, só ter sobrado o vocalista da formação original e a formação ter mudado cerca de oito vezes - na verdade, Engenheiros deveria se chamar Gessinger e seus amiguinhos, porque né?
b. acreditam na volta da Legião Urbana, mesmo sem Renato Russo;
c. ainda chamam qualquer coisa que o Slash ou o Axl fazem de Guns 'n Roses.

Sabem o que os carinhas do Nirvana fizeram quando Kurt Cobain se matou? Fundaram o Foo Fighters. Porque Nirvana sem o vocalista não é Nirvana. Sabem o que Freddie Mercury fez quando se juntou a Brian e Roger para formar o que seria o Queen? Mudou o nome da banda, que antes, sob os vocais de Tim Staffel, se chamava Smile. Porque A BANDA NÃO É A MESMA, MESMO QUE APENAS UM DOS MEMBROS TENHA MUDADO.

Roger e Brian mantiveram o nome Queen, colocaram alguns vocalistas - além do Adam, houve também o Paul Rodgers e mais alguns outros em participações especiais ao longo desses 24 anos sem o Freddie - e montaram vários projetos como o Queen Extravaganza que, sinceramente, não passam de uma forma de ganhar a vida e fazer alguma coisa com a velhice, afinal, ELES estão vivos e, como cantou Freddie, the show must go on.

Contudo, dizer que odeio o Adam porque, supostamente, ele está tomando o lugar do Freddie nos vocais do Queen é um absurdo simplesmente porque o Queen já não existe há mais de vinte anos. Brian e Roger continuam arrasando? Com certeza. Eles têm mais é que continuar mesmo? Mas é claro que sim. Porém, eles são parte do Queen, mas não o Queen. Assim como o Adam só é um carinha que está cantando e tentando dar o seu melhor. Particularmente acho que ele não é lá essas coisas, não canta tudo isso que estão dizendo e tem apenas uma performance escandalosa, coisa que cai no gosto do povo, mas é só. Nada mais.

Não é questão de comparação com o Freddie Mercury por motivos de que não há parâmetros de comparação. Não é a mesma banda, apesar de serem as mesmas músicas.

"MAS ENTÃO POR QUE EU NÃO POSSO GOSTAR E TU TÁ ME CHAMANDO DE POSER?" Filhote, senta que a titia Mia vai explicar de novo: você não é poser por descobrir uma banda que existe há muitos anos e começar a gostar dela a partir da primeira nota musical ouvida. Mas você é um poser otário dozinfernos se passou anos tirando sarro de pessoas como eu, que são verdadeiramente fãs da banda, e agora, só porque a "mesma" está nas notícias, passou na Globo e é comentada no fb, tenha decidido declarar amor por algo que sempre desprezou e menosprezou.

E é com você, querida pessoa poser, que estou de saco cheio.
Tá feio isso.

~Freddie couldn't care less~ 

O momento should I stay or should I go de hoje

Aí a professora de Artes passa um questionário vindo do além com perguntas simplíssimas como: o que o artista pensava quando decidiu usar um mictório como arte?

Novamente: o que o artista pensava quando decidiu usar um mictório como arte?

1. QUEM é o artista?
2. Como é que eu vou saber?
3. Provavelmente um dia, olhando para seu próprio xixi, achou de bom tom ver as gotículas brilhantes em contato com a louça e disse: oras, mas isto é arte!

Não sei lidar com arte, socorro.

~esta sou eu em cada momento dessa bendita aula~

Com carinho, Mia.

No post anterior algumas pessoas vieram me encher os pacovás e lotaram a minha caixa de comentários porque aparentemente se ofenderam com o seguinte trecho:

uma menininha, Scout, vivendo numa cidadezinha de interior dos Estados Unidos - que não é considerada TÃO de interior porque ao menos lá eles têm um pouco de "civilidade" - durante os idos de 1930

A reclamação dessas pessoas é que eu estaria dizendo que cidades do interior não possuem civilidade. Sendo que, oi, há cerca de 10 posts neste blog falando sobre como eu amo cidadezinhas do interior e blablabla. Mas enfim. A questão é que, nesse mesmo post, eu disse pras pessoas o seguinte: PAREM A LEITURA, LEIAM SEUS LIVROS DE HISTÓRIA, DEEM UMA PESQUISADA NO GOOGLE E DEPOIS VOLTEM AQUI. O que algumas fizeram? Leram, literalmente, a primeira linha e já saíram por aí falando bobagem pela internet afora e lotando a minha caixa de comentários com ofensas.

O que eu tenho a dizer é: queridas pessoas que fizeram isso, vocês sabem como era o interior do Sul dos Estados Unidos em 1930? Vocês sabem o que estava acontecendo em 1930? Algo chamado GRANDE DEPRESSÃO. Sabem o que é a Grande Depressão? Sentem aí que a titia Mia vai lhes dar um resuminho da história: em 1929 ocorreu a quebra da Bolsa de New York, o que fez com que o país inteiro - e, consequentemente, outros países e/ou colônias que dependiam da economia dos EUA - entrasse numa crise desgraçada; basicamente todos passavam por dificuldades econômicas. Especialmente o pessoal das cidades pequenas. Sabem o que mais havia? Um racismo intenso e feroz. Disputas. Gente maluca e fundamentalistas religiosos. Lembram daquela história da Rosa Parks, uma mulher negra que se recusou a ceder seu lugar para um branco e, por conta disso, foi presa? Isso ocorreu em 1955.

Agora pensem um pouquinho que, se isso ocorreu em 1955, quando já havia mais aceitação e uma certa modernidade, como as pessoas reagiam em 1930? POIS É. Nas grandes cidades havia, claro, mais aceitação para com os negros - ou os de religiões diferentes -, mas não muita, de qualquer forma. O racismo era extremamente forte, a pobreza assolava a todos e os fundamentalistas religiosos estavam à solta. Isso pra nem mencionar que lá eles saíram da Grande Depressão direto pra Segunda Guerra Mundial, em 1939. Por conta disso, a década de 30 é considerada, até hoje, a pior década do século XX.

Conhecem o conceito de civilidade? Ei-lo aqui:
conjunto de formalidades, de palavras e atos que os cidadãos adotam entre si para demonstrar mútuo respeito e consideração; boas maneiras, cortesia, polidez.

Então, vamos raciocinar: é algo civilizado prender uma mulher negra só porque ela não quis ceder seu lugar no ônibus pra um branco?

É algo civilizado prender uma mulher negra só porque ela está frequentando os mesmos lugares que os brancos?

Então, por que seria civilizada uma cidadezinha do interior dos Estados Unidos, sulista, que condenou um rapaz inocente e o sentenciou à morte só porque ele era negro?

Se você acha isso atitude de gente civilizada, bem, eu já sei que civilidade é um conceito abstrato em sua mente. Mas de uma coisa eu sei: é por isso que as pessoas vão tão mal no ENEM e em vestibulares. Estudar um pouquinho de história não mata ninguém, não é perda de tempo. Interpretar o contexto de um escrito também não.

Não adianta querer entrar na modinha de ser polêmico e debatedor de redes sociais (risos), mas não entender bulhufas do que está falando.

Não adianta querer "desconstruir" coisas se tu não tiver uma base teórica, por mínima que seja, e ser apenas um grande empirista metido a filósofo revolucionário.

Não adianta querer problematizar um texto por conta de uma frase sem nem ao menos se dar ao trabalho de LER O TEXTO NA ÍNTEGRA e/ou, ao menos, fazer aquela pesquisa básica sobre o que diabos a pessoa escreveu.

Não me admira que 529 mil pessoas zeraram a redação do ENEM ano passado. Fazer textão em comentários e em fb "problematizando" as coisas é fácil. Estudar é muito trabalhoso, né? É. 

It's a sin to kill a mockingbird

O sol é para todos
Harper Lee
Editora José Olympio
363 páginas
Ano de publicação: 1960 

Sobre o que é: uma menininha, Scout, vivendo numa cidadezinha de interior dos Estados Unidos - que não é considerada TÃO de interior porque ao menos lá eles têm um pouco de "civilidade" (e se vocês discordam disso, este texto é essencial) - durante os idos de 1930, conta a história de como seu irmão, Jem, acabou com um braço maior do que o outro. Mas, para contar essa história, ela é obrigada a explicar tudo o que aconteceu para que esse acidente ocorresse e fizesse com que o irmão dela nunca mais pudesse jogar futebol. A partir daí somos apresentados a personagens maravilhosos como Atticus, o pai das crianças, um advogado extremamente correto, e Calpúrnia, a empregada da casa que praticamente criou ambos - isso porque a mãe das crianças morreu no nascimento de Scout. Tudo corria pacatamente até que um rapaz negro é acusado - injustamente - de ter estuprado uma moça branca. E é aí que as coisas complicam.

Por que ele é bom? Há tantos motivos pelos quais esse livro é bom que nem sei por onde começar, mas deixa eu me ater primeiro a Atticus: BEST CHARACTER EVER. ♥ Atticus é o pai das duas crianças, um advogado na casa de seus 50 anos e já considerado velho demais para ter filhos, que cria seus rebentos sozinho, apenas com a ajuda da empregada Calpúrnia, que é considerada da família. Ele é íntegro - e vocês podem achar que isso é muito chato para um personagem, mas não. Ele é íntegro de verdade, é a mesma coisa tanto fora de casa quanto dentro, tanto no tribunal quanto na sala de estar. O cara é um paizão, provavelmente o melhor pai de toda a literatura. ♥ Atticus Finch é o advogado que, em plena Depressão, nos Estados Unidos, defende um rapaz negro num tribunal. "Ai, o que tem isso, coisa mais normal?!" LEIA SEUS LIVROS DE HISTÓRIA, DÁ UMA PESQUISADA NO GOOGLE, DEPOIS VOLTE AQUI. Isso quer dizer que ele, e toda sua família, foi extremamente hostilizado porque tratava os negros como iguais, ao contrário de todo o resto da sociedade extremamente racista da época. Fora o fato de que Atticus demonstra ser um cavalheiro em todas as situações que se apresentam - porque quer dar bom exemplo aos filhos, ó que coisa mais linda. Este quote representa bem isso:

Atticus estava saindo do correio quando o sr. Bob Ewell aproximou-se, amaldiçoou-o, cuspiu na sua cara e ameaçou matá-lo. D. Stephanie disse que Atticus nem piscou, apenas tirou o lenço do bolso, limpou o rosto e permaneceu impassível, deixando que o sr. Ewell o chamasse de coisas que por nada deste mundo ela seria capaz de repetir. O sr. Ewell era um veterano de uma obscura guerra; isso, mais a reação pacífica de Atticus, provavelmente levaram-no a perguntar: "Orgulhoso demais para brigar, hem, seu desgraçado, amante de negros?" D. Stephanie disse que Atticus respondera: "Não, velho demais", e enfiando as mãos no bolso, seguira seu caminho. D. Stephanie disse que era preciso reconhecer que Atticus sabia ser conciso às vezes. (p. 281) 

Eu sei que a maior parte das resenhas por aí fala que este é um livro sobre o preconceito racial. Não é. Ele trata disso em certa parte, mas não apenas disso. Na verdade, To kill a mockingbird - que é um título BEM MAIS legal do que o original e faz todo um sentido que vocês só descobrirão ao ler o livro, mas que infelizmente não pôde ser mantido porque mockingbird não é um pássaro existente aqui no Brasil - trata do crescimento de duas crianças que estão aprendendo a conhecer o mundo que as cerca e a perceber que nem tudo o que parece ruim o é e que nem todas as pessoas que sorriem e lhe cumprimentam na igreja realmente prestam. O melhor do livro, na minha opinião, é perceber essa tênue realidade fantástica e mágica das crianças sendo quebrada pela realidade dos adultos, mas sem que elas percam a capacidade de questionar e debater sobre aquilo que consideram errado.

Por que ele é ruim? Não é. Pra vocês terem ideia, eu li mais de 200 páginas em questão de duas horas ontem à noite simplesmente porque não conseguia largá-lo. O livro é excelente, retrata bem como era a sociedade - e, cá entre nós, é assim até hoje - e possui momentos geniais, como a cena em que Scout fica horrorizada quando se dá conta de que as pessoas odeiam Hitler porque ele quer matar os judeus apenas por serem judeus, mas não odeiam a si mesmas por quererem matar negros apenas por serem negros. Scout é a narradora, e o mundo sob a ótica de uma criança entre 6 a 9 anos - a história se passa em três anos - é incrível. A história só não é mais pesada do que já é porque a narradora-mirim não entende metade das coisas que acontecem. Mas o fato é que: não há críticas para esse livro.

Se eu recomendo a leitura? SIIIIIIIIIIIIIIIIM ♥ Se você ainda não leu este livro não sei o que está fazendo aqui lendo meu blog ao invés de estar numa livraria, num sebo, catando um PDF, sei lá, indo atrás, porque, olha, um dos melhores livros do ano - disputando o cargo de melhor livro do ano ferrenhamente com Cem anos de solidão.

~esta sou eu ao terminar o livro~ 
Eu terminei esse livro já querendo relê-lo. ♥

Em um quote:
Quando crescer, todos os dias você verá brancos ludibriando negros, mas deixe-me dizer uma coisa, e nunca se esqueça disso: sempre que um branco trata um negro desta forma, não importa quem seja ele, o seu grau de riqueza ou a linhagem de sua família, esse homem branco é lixo. (p. 258) 

Este post faz parte do Desafio 50 livros de 1900 para ler antes de morrerConfira aqui a lista com todos os títulos que lerei até sabe-se lá quando. \o/    

Durante a aula de Linguística...

"Mia, o que você está fazendo, afinal de contas?"
Funciona assim: eu escrevo um parágrafo, paro, leio um capítulo de O sol é para todos, paro, arrumo alguma parte do quarto, paro, assisto a um episódio de Once upon a time, paro, leio algum artigo e faço apontamentos sobre, paro, como alguma coisa porque saco vazio não pára em pé - ao mesmo tempo em que parafraseio a minha avó -, paro, escrevo um parágrafo.

Portanto, não sabemos quando este texto será publicado.

Ninguém sabe ao certo sobre o que é a aula de Linguística. Quer dizer, a gente sabe que deveria estar aprendendo morfossintaxe e todas essas minúcias da Língua Portuguesa. Mas a professora de Linguística é uma senhorinha já bem velhinha que - e este é o termo que realmente mais se adéqua a ela, apesar da minha irritação pelo mesmo - é super de boas. Ela literalmente não tá nem aí. Não sei se pela idade, não sei se é questão de personalidade mesmo. O fato é que a mulher fala de tudo, menos de Linguística.

Ontem, por exemplo. Ela nos deu uma folhinha contendo alguns exercícios - de matérias abordadas APENAS e tão somente em PDFs deixados no moodle, mas jamais mencionados em sala de aula - e a fábula d'A cigarra e a formiga. Eu li aquilo, achei estranho, não era o que eu lembrava ter lido anos atrás, mas fiquei quieta, porque eu sou dessas que fica quieta por pura preguiça. Uma colega, no entanto, não é tão preguiçosa quanto eu e perguntou:
— Essa fábula é a original, prof.?
Ao que a professora disse:
— É, mas não tudo. Eu sempre achei ela meio pesada, então mudei o final. Pra quê um final tão forte desses, vamos manter as coisas simples e bonitas.

~achei ela meio pesada e mudei o final~

— Ali, onde diz nas referências que a editora é Estrelinha, na cidade de Sonho Doce, também inventei porque ninguém tem tempo pra perder procurando referências de fábulas.

~também inventei as referências porque ninguém tem tempo pra perder~

~cara de David Tennant espantado~ 
Só gostaria de saber se a senhorinha professora aceitará, em futuros trabalhos, citações mudadas a meu favor e referências como "editora Estante lá de casa".
— Mas de onde você tirou isso, minha filha?
— Ah, de um livro lá de casa.
— Tá, mas qual é a referência dele?
— Não tinha tempo a perder com referências, prof. Tinha de escrever o trabalho, sabe?
— Sei, mas... isso não parece algo que Nietzsche falaria...
— Ele falou, mas não exatamente assim. Sabe como é, né? Achei muito pesado o que ele disse e mudei a frase final, só pra dar uma suavizada.

Vou nem falar do fato de que ela passou o resto da aula inteira falando sobre vestidos de casamento e astrologia, porque realmente eu meio que me desliguei, abri meu livrinho e fui ler mais uns capítulos até chegar a hora de ir embora.

Aulinhas de sexta à noite, as melhores. ♥ 

Bad karma is a bitch

A pessoa acorda cedo para ir ao dentista, o que por si só já é uma tragédia. Mas a pessoa acorda e vai porque, na minha nova rotina, quarta-feira é o dia de ir ao dentista. A pessoa acorda de um lindo pesadelo - e eu SEMPRE tenho pesadelos; não há um só dia em que eu não tive pesadelos até hoje -, se "arruma" e vai.

Minha arrumação para ir ao dentista numa quarta-feira pela manhã:
- legging
- blusinha que uso de pijama
- moletom
- tênis de corrida
- cara lavada, porque não vou me maquiar só pra ir ao dentista.

Aí eu ouço a pergunta:
— Tu vai ir ao dentista assim, sem te arrumar?
— Sim. :)

Chego no consultório, dou meu nome na recepção e a atendente me manda aguardar. Sento num banco e, quando olho pra os lados, pra frente, pra sala, me deparo com um monte de gurias com maquiagem pesada e mega arrumadas, todas esperando ser atendidas. O que realmente me impressiona, porque não entendo muito bem o objetivo de passar batom - e batom forte, batom vermelho, batom roxo, enfim - pra ficar meia hora ou mais de bocarra aberta, manchando as luvas do dentista e o queixo inteiro, mas okay. Elas também devem me olhar e pensar que não entendem o objetivo de sair de casa praticamente de pijama e cara lavada.

(A escrita deste post foi interrompida por motivos de: estava almoçando e, quando dei por mim, acordei às 17h30min da tarde com várias mensagens de uma pá de gente, ligações perdidas e minha mãe me chamando porque achou que eu tivesse tido um treco. O único treco que tenho se chama TPM e se você acha que isso é manha e/ou não é real, desejo que você acorde amanhã com uma imitação de gato persa arranhando seu útero de dentro pra fora, contorcendo suas entranhas e lhe dando tanta cólica quanto a que tenho, ao mesmo tempo em que seus hormônios estarão loucos como se você tivesse tomado maracujá aos litros e não conseguisse ficar acordada por mais de meia hora. TPM, gente. A minha TPM é louca.)

Também fico muito vingativa e irritada, como se pôde perceber pelo parágrafo acima. Pois bem.

Aí que estava lá na salinha de espera há um uns 15min quando começou uma barulheira dozinfernos, gritaria, som de metal... E quando dei por mim havia umas 5 pessoas dentro da recepção, todas batendo em panelas e gritando: ABAIXO O TERRORISMO, VIVA A REVOLUÇÃO! Olhei pra aquilo, virei o rosto, olhei pra os lados, olhei pra aquilo de novo, dessa vez por um novo ângulo, fui até a janela e vi mais cerca de centro e poucas pessoas fazendo a mesma coisa na rua... Dei de ombros, olhei pra aqueles 5 que estavam parados gritando impropérios, fiz um SHHHHH!, mandando-os calar a boca, sentei novamente, abri um livro aleatório - sempre tenho livros aleatórios na bolsa - e comecei a lê-lo.

~eu sempre quis usar esse gif~
Eles pareceram desconcertados. Baixaram as cabeças e foram embora.

Minutos depois o dentista me chamou. Entrei no consultório e se deu o seguinte diálogo:
— Bom dia, Mi; pode ir largando suas coisas aqui e se sentando.
— Bom dia, senhor. Okay.
— Mas guria, cada vez que tu vem aqui teu cabelo tá diferente!
— É, eu enjoo muito facilmente do meu cabelo.

Ele coloca sua máscara, tapando a barba rala que possui, liga o rádio num volume alto e se posiciona.
— O que tá tocando?
— Ah, é uma rádio nova-iorquina que só toca clássicos do rock; tu gosta?
— Aumenta o som.
~e começa a tocar várias músicas maravilhosas do Queen e Rolling Stones~
— Então, eu vi que tinha me preparado todo pra fazer a finalização do dente hoje, mas percebi agora que é melhor colocar mais um remedinho pra sermos cuidadosos. Tu acha que eu devo usar anestesia pra isso?
~minha cara de: o dentista aqui é você~
— Tem sentido dor durante a semana? Não sei se devo colocar anestesia ou não... O que tu acha?
— Eu não sei o que o senhor vai fazer.

Nisso ele irrompeu numa gargalhada infinita. Arrancou a máscara e ria, ria, ria como se eu tivesse dito a coisa mais engraçada que ele já ouviu na vida. Uns 5min depois de tanto riso, respiração, secar lagriminhas etc., ele se virou pra mim - que ainda estava na cadeira com a luz na minha cara - e disse:
— Nossa, mas tu é uma figura, hein!
E eu apenas fiquei: Q?!

~Q?!~ 
Aliás, eu realmente não entendo a graça que as pessoas sentem em tudo o que eu falo. Eu sou basicamente o Grumpy Cat, falo as coisas super sérias e as pessoas choram de rir, como se eu tivesse feito alguma piada.

Semana passada a minha turma de Biblio teve de organizar um evento - um Fórum de Biblioteconomia - lá no Instituto Federal, então alguns faziam o cerimonial - namorado e a dona Sílvia (olá, Sílvia!) - e ficavam apresentado as pessoas e dizendo quando era a hora de fazer a pausinha pra o lanche etc., outros ficavam lá dentro no som, alguns ficavam organizando a questão das águas pra os palestrantes e o silêncio... Eu fiquei na recepção anotando o nome dos presentes e dizendo-lhes que entrassem pelos fundos pra não atrapalhar a cerimônia entrando pela frente e aparecendo nas câmeras - estava sendo transmitido em tempo real.

Isso durou o dia inteiro (das 7h às 18h30min., saí de lá correndo direto pra faculdade, uma delícia) e houve certos momentos em que nem eu nem as gurias que estavam me auxiliando na recepção entenderam coisa alguma.

Durante essas horinhas na recepção, aconteceram algumas coisas:

Um grupo de jovens passou, me olharam, me olharam BEM, se entreolharam e começaram a rir da minha cara e a apontar para mim durante o processo.

Depois, uma senhorinha, toda de salto alto, maquiada, com um penteado digno de uma festa de casamento, passou por mim na recepção e disse:
— Onde é o banheiro?
— É ali, senhora, dobrando à direita e seguindo reto.
— Obrigada, mocinha! Vou fazer cocô. Uhul!

COMO SE EU QUISESSE SABER DISSO, MINHA SENHORA, era a única coisa que eu queria responder. Mas segurei a risada, engoli o espanto e sorri como se nada estranho tivesse acontecido.


Depois, uma outra senhora tentou entrar pela porta da frente do auditório, sendo que não dava porque as palestras já estavam em andamento e isso atrapalharia completamente a sincronia das coisas. No que eu disse:
— Senhora, como as palestras já estão em andamento, terei de pedir para que a senhora entre pela porta dos fundos, aqui ao lado, okay?
— HAHAHAHAHA QUE ENGRAÇADA VOCÊ.
— Senhora, eu estou falando sério.
— HAHAHAHAHAHAHA PORTA DOS FUNDOS, ADORO! HAHAHAHAHA
— (momento sorria e acene)
— HAHAHAHAHA QUE MOCINHA ENGRAÇADA, HAHAHAHAHAHA
E ela simplesmente se encaminhou à porta dos fundos acenando, gargalhando e mostrando a língua para mim e para as pessoas ali em volta. Tudo ao mesmo tempo.

Logo depois tivemos o coffee break, ou seja: pausinha do café. Claro que nós, que estávamos organizando o evento, não podíamos comer naquele momento e continuamos em nossas posições enquanto todo mundo se entupia de quilos de bolacha, bolo, chá e café. SÓ VI OS FARELOS DEPOIS. ~lagriminhas~

Nisso, fiquei sozinha na mesa de recepção porque o resto do povo tinha de auxiliar no coffee e afins. Aí que tinha um grupo de alunos de outra instituição cujo nome não citarei, mas que é conhecida por seu pedantismo, que se amontoaram como abelhas furiosas ao redor da minha pequena mesinha. Tudo porque alguma alma possuidora de espírito de porco lhes disse que eles deveriam assinar a lista de presença NOVAMENTE à tarde - como se não tivesse bastado a maluquice que foi pela manhã para que todos assinassem a maldita lista - porque, caso contrário, ganhariam falta na faculdade. Aí você pode dizer que isso é normal porque né, a pessoa ganha falta mesmo. E eu digo que não, migas, isso não estaria sendo possível porque aquele pessoal todo estudava pela manhã e a lista já havia sido assinada no turno de suposto estudo deles, ou seja. Fora que: a lista vale para TODOS OS TURNOS, e eu já havia explicado aquilo mais de cinco vezes quando chega uma dessas moça da tal faculdade pedante, coloca as patinhas na minha mesa e começa a gritar:
— Essa porcaria de caneta que vocês me deram! Essa porcaria falha toda hora e eu perdi anotações IMPORTANTÍSSIMAS por causa disso! Tu é uma inútil e eu EXIJO uma nova caneta.


No que eu, com aquele sorriso de ~i'm gonna kill you, bitch, there will be blood~, simplesmente peguei a caneta da mão dela, desmontei-a calmamente, peguei outra e dei pra ela, tudo na maior calma, tranquilidade e com um sorriso congelado em meu rosto.

O medo que habitou os olhos daquela menina, eu jamais esquecerei. E espero que ela não esqueça também porque NÃO SOMOS RESPONSÁVEIS PELAS CANETAS. A gente entregou um kit com uma pastinha, uma folha em branco, a programação do evento e uma caneta para todas as pessoas que fizeram inscrições para o Fórum. Eu fabriquei a caneta? Não. Eu testei todas elas? Não. Eu tenho saco pra aturar paty batendo o pé e dando chilique? Não. O que eu tenho é uma grande vontade de estrangular gente que grita, especialmente gente que grita para exigir coisas de outros sendo que, olha, ninguém tá aqui pra lhes servir, mas okay.


Meu karma na vida é mesmo aprender a me controlar pra não assassinar pessoas enquanto elas riem da minha cara, já percebi.

E as pessoinhas na volta enchendo o saco pra assinar novamente a lista de presença.
Nisso, outra guria louca veio perguntar, tudo na gritaria:
— Mas se não é pra assinar por que tem gente assinando?
No que eu disse, ainda com o sorriso e com uma voz doce, calma e fofa:
— Porque claramente vocês são todos retardados. :)

Minha colega havia chegado para presenciar essa cena e apenas me disse:
— Mia, de 10 palavras que tu fala, 10 são sarcasmo. Tu soa fofa, mas ao mesmo tempo parece que vai matar alguém. Meio Psycho isso.
— Obrigada. :)

Depois fiquei sabendo que a menina que gritou comigo por absolutamente nada era a mesma que estava rindo de mim anteriormente e é uma coleguinha de faculdade do meu namorado que o adicionou dia desses e que aparentemente se grudou nele para fazer trabalhos.

Eu não sou uma pessoa ciumenta, mas confesso que a cena em que eu pego uma espada e arranco os membros dela repetidamente me passou pela mente algumas vezes. Porque eu quero, sim, que meu namorado tenho amigos em sua faculdade. Deuzôlivre passar anos sem fazer uma amizade sequer, isso é horrível. MAS VÁ GRITAR COMIGO E RIR DA MINHA CARA (tenho pavor de que riam de mim) LÁ NO QUINTO DOS INFERNOS, CARAMBA.

Porém, o importante é manter a compostura. :)


Eu só gostaria de entender como eu atraio tanta vibe errada junta. Mas, enquanto não entendo, deposito tudo aqui no blog e farei o que qualquer pessoa relativamente sã faz em feriados: vou passar os próximos dias viajando com o namorado.

Volto semana que vem — mais calma, assim espero. :) 

Stupid fucking book

Adeus às armas
Ernest Hemingway
Editora Bertrand Brasil
406 páginas
Ano de publicação: 1929 

Sobre o que é: um cara americano chamado Henry um dia, em plena Primeira Guerra Mundial, decide se alistar no exército italiano e passa a ser motorista de ambulâncias. Por que ele fez isso? Jamais saberemos e, pelo que ele próprio fala, nem mesmo ele o sabe. Em meio ao conflito ele tem tempo pra sair com seus amigos de guerra e dormir com prostitutas. Numa dessas noitadas ele acaba encontrando uma enfermeira inglesa que também estava na Itália - parece que todos queriam ser italianos naquela época - chamada Catherine. Eles sentam, conversam sobre a guerra por alguns minutos e, no outro dia, quando se encontram novamente, já rolam juras de amor tresloucadas e muitos beijos. DO MAIS ABSOLUTO NADA. 

Por que ele é bom? Porque eu finalmente consegui entender o que as pessoas tanto querem dizer quando falam que o Hemingway é o mestre dos diálogos. Migas, ele é mesmo. O cara é bom. O livro todo é basicamente composto por diálogos - exceto as primeiras páginas, onde há muitas descrições pra situar o leitor. Os diálogos chegam a durar páginas, como na vida real mesmo, e isso é extremamente legal porque dá uma proximidade do leitor para com a obra. A forma de escrita do Hemingway é REALMENTE muito crua, como pode ser visto neste trecho incrível: 
Senti calor nas pernas e umidade, e calor e umidade também dentro dos sapatos. Sabia que fora ferido e levei a mão ao joelho. E meu joelho não estava mais lá. Minha mão afundou-se. Meu joelho fora parar na altura da canela. Limpei a mão na camisa. (p. 71) 

Por que ele é ruim? Vamos começar com o fato de que eu demorei cerca de duas semanas para ler esse livro. Ele não é um livro grande. Quer dizer, a fonte é gigante, sabe? E ele é cheio de diálogos. Mas eu simplesmente não consegui me conectar com personagem algum. Hemingway fica o livro inteiro intercalando entre uma história de guerra e uma história de """"amor"""" (e pode continuar colocando aspas até o infinito e além, porque que raio de amor é esse que a pessoa se conhece num dia, conversa meia hora e no outro dia já está fazendo juras de amor e planos para fugir juntos? okay, eu entendo o desespero da guerra, mas vão se catar e aquietar esses úteros, pelamordedeus!), e isso é um saco. A pessoa fica meio perdida. 

Fora que o Hemingway é incrível, sim, em diálogos, mas não em descrições. Há páginas inteiras apenas sobre a forma como o cara REMAVA. Ninguém quer realmente saber disso. Okay, talvez alguém queira, mas eu não. 

Outra coisa que me irritou é a submissão da Catherine para com o Henry. A mulher, literalmente, está em trabalho de parto e se recusa a gritar ou fazer caretas porque "quer ser uma boa esposa". GO TO HELL!!!! E fica o tempo todo se depreciando porque está gorda pela gravidez e acha que o cara vai deixá-la por conta disso. Querida, se o cara te deixar por conta de gordura ou gravidez é porque ele nunca te gostou. Simples. Mas foi escrito por um homem e no século passado, então a gente meio que releva porque sabe que naquela época esses ainda eram os costumes vigentes e o escritor estava retratando a época da Primeira Guerra. Mas: que saco. 

Agora, a coisa mais revoltante desse livro é o final. Eu esperava um final lindinho? Não. É um livro sobre guerra, não é pra ser bonito. Mas: REVOLTANTE. Vocês assistiram O Lado Bom da Vida? Sabem aquela cena em que o Pat joga um livro pela janela? ENTÃO. Era esse o livro. 

~I know that feeling, bro~ 

SPOILER ALERT ~mas tanto faz, porque o livro é ruim mesmo~
E, como o Pat diz na cena: 
O tempo todo você torce para que o cara sobreviva à guerra e ficar com a mulher que ele ama, Catherine. E ele sobrevive. Ele sobrevive à guerra após uma explosão, ele sobrevive e escapa para a Suíça com a Catherine. Mas agora ela está grávida, e isso é ótimo porque ela está grávida e eles vão para as montanhas e estão felizes e bebem muito vinho e dançam pra caramba, o que é entediante, mas eu gostei, porque eles estavam felizes. Você acha que termina por aí. Mas não. Ele escreve outro final. Ela morre. Quer dizer, o mundo já é difícil o bastante do jeito que é. Será que alguém poderia dizer sejamos positivos e dar um bom final para a história?

Se eu recomendo a leitura? NÃO. FOR GOD'S SAKE, NÃO! A não ser que você seja fã do Hemingway, goste muito de guerras ou adore uma história com final infeliz - ou goste da sensação de se sentir frustrado e querer atirar o livro pela janela.

Em um quote (tremendamente honesto):
Aos que trazem coragem a este mundo, o mundo precisa quebrá-los, para conseguir eliminá-los, e é o que faz. O mundo os quebra, a todos; no entanto, muitos deles tornam-se mais fortes, justamente no ponto onde foram quebrados. Mas aos que não se deixam quebrar, o mundo os mata. Mata os muito bons, os muito meigos, os muito bravos — indiferentemente. (p. 269) 

Este post faz parte do Desafio 50 livros de 1900 para ler antes de morrer. Confira aqui a lista com todos os títulos que lerei até agosto do ano que vem. \o/  

Da série: coisas que não se deve pensar às 22h de uma quarta-feira

Sinto falta de quando não sabia de nada. Não saber de nada é um presente. Desmond, de Lost - sim, eu adorava Lost, foi a primeira série que acompanhei mesmo -, num dos episódios disse algo que fiquei anos sem entender e talvez só tenha entendido, de fato, agora: a ignorância é uma bênção.

Eu ignorava ser gorda, eu ignorava não ser bonita, eu ignorava o que é o conceito de beleza. Eu ignorava que as pessoas riam de mim porque me achavam estúpida. Eu ignorava meu medo de falar em público. Eu ignorava que deveria ter medo de falar em público. E, por ignorar tudo isso, era linda, deslumbrante e falava pelos cotovelos, como se estivesse sempre entre os amigos mais íntimos, mesmo que não conhecesse uma pessoa sequer no local.

Hoje eu gaguejo e suo frio numa simples apresentação de trabalho, sendo que convivo com meus colegas há 3 semestres.

Hoje eu tenho de emagrecer 10 quilos porque a balança disse que estou gorda, porque meus amigos dizem que estou gorda, porque meu médico diz que estou gorda. Então me olho no espelho e me vejo gorda, sendo que há alguns anos eu tinha bem mais do que o peso atual e me achava maravilhosa.

Até os 17 anos eu não sabia que era uma péssima desenhista, então eu desenhava. Eu não sabia que minha voz era muito fina para cantar e literalmente parecia um gato miando - como se não bastasse eu me chamar Mia -, então eu cantava, tinha uma banda, ia pra outras cidades me apresentar. Eu não sabia que tinha de me encaixar em uma categoria, que tinha de ser de direita ou de esquerda, rockeira ou patricinha, hipster ou indie, e, agora, deboísta - será que vocês podem parar com essa mania de definir tudo, for God's sake?! Eu não sabia de nada disso e simplesmente vivia a minha vida com uma autoconfiança invejável. E todos me adoravam porque eu não me importava. Mas como poderia me importar com aquilo que, para mim, não existia?

Eu não sabia o que era uma pessoa gorda ou uma pessoa magra. Eu não fazia diferença entre um 36 e um 42. A única diferença era o preço. Eu não sabia que tinha de comunicar algo muito profundo ou inovador no blog. Apenas fiz um e comecei a escrever, meio que sem objetivos, somente porque se tem uma coisa que amo fazer essa coisa é escrever.

E as pessoas começaram a ler meus escritos e passar meu link pra os outros porque diziam "nossa, que despretensiosa a forma como ela escreve, olha só que coisa engraçada", e eu ficava sem entender nada porque não estou tentando ser engraçada ou despretensiosa ou linda ou magra ou gorda ou um símbolo feminista de autoaceitação. Só estou sendo eu mesma.

Ou estava.
Até o dia em que comecei a ter pavor de falar em público porque aparentemente você tem de estar cem por cento certa do que fala e nunca dá para se estar cem por cento certa de algo, porque as pessoas vão rir e eu vou ficar desconcertada e vou ficar envergonhada e vou começar a conter lagriminhas. Até o dia em que desisti de Jornalismo e fui pra Pedagogia só porque me convenci de que seria muito aterrorizante ser uma jornalista e que eu não sirvo pra isso por não ser comunicativa o suficiente.

Sendo que claramente eu seria um desastre como professora infantil. Imaginem seus filhos sendo ensinados por mim. Pois é. Medo.

Hoje não sei mais direito quem eu sou. Só sei que gostaria de voltar a não saber e não me importar com isso.


And that sucks. A lot.