Sobre a escrita, do titio King

Eu nunca gostei do Stephen King.
E é aqui que você, pessoa que está lendo meu blog, começa a erguer a sua pequena mão para me apedrejar. Mas é verdade. Jamais gostei do King. Seus livros sempre me despertaram apenas um sentimento: preguiça. As histórias são boas, eu tenho de admitir. Mas sua narrativa, não. Há quem diga o contrário, contudo considero a forma de escrita do tão conhecido autor deveras parada, prolixa, chata.

Então é claro que é uma ironia e tanto o fato de eu ter adorado, favoritado, amado o livro do cara que fala justamente sobre a escrita.

~comequié?!~ 
Porém, não houve maneira de eu ficar indiferente ou bocejando após ler isto:

Não estou pedindo que você comece com reverência e sem questionamentos. Não estou pedindo que você seja politicamente correto ou deixe de lado seu sendo de humor. (Deus queira que você tenha um.) Isso não é um concurso de popularidade, nem os Jogos Olímpicos da moral, nem a Igreja. Mas é a escrita, cacete, não é lavar o carro ou passar delineador. Se você levá-la a sério, podemos conversar. Se você não puder ou não quiser, é hora de fechar o livro e ir fazer outra coisa.
Lavar o carro, talvez. 

Eu levo a escrita a sério. Pra caramba. Costumo dizer que só entendo de duas coisas na vida: a arte da confecção de bolos e tudo o que envolve literatura. Sou expert? Longe disso. Mas sou tão apaixonada pelas duas coisas - culinária e literatura - que acabo cada vez mais me aprofundando nelas e, consequentemente, entendendo mais do que a maior parte das pessoas que não lê regularmente ou não cozinha por prazer.

Estava eu na biblioteca da faculdade, apenas esperando a hora passar para ir para a aula, quando decidi ir à biblioteca para ler algo enquanto esperava. Caminhei pelas estantes - um dos meus passamentos preferidos, por sinal - até que algo me chamou atenção: havia um livro do Stephen King lá.


Explico por que isso me chamou atenção: eu estudo em uma instituição católica. Não sei se é por isso, pela política da coisa, mas sei que o fato é que não há livros do titio Stephen lá. Aliás, não há muitos livros de terror, no geral. Sim, eu já os procurei. Mas NÃO.HÁ. Por isso, quando me deparei com o nome Stephen King na estante, fiquei extremamente surpresa e decidi pegar o livro em mãos para saber do que se tratava.


Percebi que era um livro novo. SIM, EU FUI A PRIMEIRA AO LÊ-LO, MUHAHAHAHA. ♥ Já havia ouvido falar sobre ele: Sobre a escrita (Suma das Letras, 256 p.). O título me deixou curiosa, o assunto muito me interessava e, já que eu tinha um tempinho de sobra, decidi sentar num dos bancos da biblioteca e fazer leitura.

QUE LEITURA MARAVILHOSA. Em meia hora, li cerca de 50 páginas. Na volta para casa, li mais 25. O resultado foi que em 3 dias li o livro inteiro. "Ah, mas isso não é tão ligeiro assim." Olha, pra pessoa que faz dois cursos e trabalha como pesquisadora, isso é rápido pra caramba, sim. Devorei o livro sem culpa alguma e só não li mais rápido porque havia coisas para fazer, artigos para ler e uma cama me esperando para dormir. Caso contrário, se já estivesse de férias, ele não teria durado um dia sequer.

"Mas, Mia, o que esse livro tem de tão maravilhoso?"
Miga, deixa eu te contar 3 motivos do porquê você deveria ler esse livro:

1. Para conhecer o titio King.
Todo livro carrega consigo parte de seu escritor. Porém, em Sobre a escrita, há partes demais do cara. Simples assim. Metade do livro é uma miniautobiografia. Stephen conta acerca de sua infância turbulenta, dos primeiros contos que escreveu e de como se deu o processo de tornar-se um escritor. Por quê? Porque ele achou interessante que seus leitores pudessem ter um exemplo real de como um escritor se forma. É simples, é direto. E muito interessante.

2. Para ter noções de escrita. 
Não aquele blablabla técnico que se lê em livros de bibliografia básica do curso de Letras. Não. São dicas importantíssimas de um cara que escreve há décadas e faz sucesso. Eu, assim como ele, não acredito em fórmulas para o sucesso. Acredito em escrever sobre o que se entende, o que se gosta e sempre se divertir enquanto o faz. Simples assim. Ele também acredita em tudo isso - aliás, fiquei bem feliz ao perceber que titio Stephen e eu temos praticamente os mesmos hábitos de escrita diária -, mas acrescenta muitas mais coisas, coisas que, de fato, ajudarão na hora da escrita.

3. Para se divertir. 
Mas esse item é só para aqueles que são apaixonados pela arte de escrever, pela linguística, pela literatura, pela análise textual. Quem não gosta dessas coisas ou até gosta, mas não tanto: bem, esse livro não é para você porque você não achará a mínima graça nele. Como Stephen escreveu: se você levá-la a sério, podemos conversar. É um livro divertidíssimo, e você não precisa ser um ou almejar ser um escritor para tirar proveito dele. Basta gostar de ler e de escrever. Se gostar de tais coisas, não terá problema algum em dar boas gargalhadas com o livro. Caso contrário, ainda poderá ler as 100 páginas de autobiografia e dar boas risadas por conta delas.

Ou seja: o livro vale a pena para todo mundo. Favoritei-o no coração e tentarei ler outras coisas do titio Stephen (já somos íntimos) só porque o cara me conquistou escrevendo sobre a escrita.

Em um quote:
Se você quer ser escritor, existem duas coisas a fazer, acima de todas as outras: ler muito e escrever muito. Que eu saiba, não há como fugir dessas duas coisas, não há atalho. 

A única coisa que tenho a dizer é QUERO A MINHA CAMA

Eu poderia resumir o mês de Junho* apenas com: 


Mas direi que: gente, não tá rolando postar no blog com frequência. Nem estranhem meu desaparecimento porque, vejam bem, há trabalhos para fazer e provas para gabaritar e pesquisas a realizar. Portanto, leiam os posts antigos por enquanto, tá? Tem coisa legal lá.

Kissus ;*

*detalhe: o mês está a recém na metade e eu já o resumi. feel the vibe. 

Senescência rules

Eu sou uma pessoa atrapalhada. Muito atrapalhada. Tropeço parada. Derrubo coisas. Me sujo toda de maquiagem. Tenho uma risada malignamente escandalosa. Sou esquisita. E por conta disso nunca me senti adequada.

Até ontem. 

Porque ontem estava eu na fila eterna do tri (sistema de passagem do povo de Porto Alegre) e havia uma velhinha na minha frente. Cabelos branquinhos, roupa de vovó de desenho da TVE, toda fofa, toda nenis. Ela mexia freneticamente em seu celular e em dado momento a senhorinha virou-o meio que de lado e eu pude ver no que ela tanto mexia ("mas Mia, 'cê espiou a vovó?!" Espiei mesmo que estava entediada, ué). Acontece que ela estava mexendo no whatsapp. Até aí tudo bem. Claro que é peculiar encontrar uma pessoa de mais idade tão familiarizada com as tecnologias atuais, mas né? Porém, o que li mudou minha compreensão acerca de mim mesma. Simplesmente porque a senhorinha de cabelo de algodão havia mandado a seguinte mensagem para um senhor chamado Carlos: 
Se você me chupar bem gostoso, te deixo colocar no meu ~orifício anal~ (porque me recuso a escrever palavrão aqui, gente, mas cês entenderam a moral da história: era o ** no diminutivo, OU SEJA). E a conversa continuava com lembretes: mas só se tu fizer bem gostoso

Naquele momento eu me senti a pessoa mais boba do universo. 
Jamais teria a coragem daquela vovó de mandar uma mensagem desse nível pra qualquer pessoa. "Mas só porque ela é velha não pode, então, ter vida sexual?" Tanto pode quanto deve. Mas que é surpreendente, é. Ainda mais nesses termos e na circunstância de: FILA PÚBLICA. Qualquer pessoa poderia ter lido aquela conversa, assim como eu o fiz. 

Vergonha alheia define. 

Em seguida o tal Carlos ligou e jamais saberemos o que ele disse, só sei que ela respondia, toda compenetrada, com intermináveis: tu sabe, eu acabei de te dizer, querido
Me senti extremamente adequada. Quero apenas ter 10% do desprendimento dessa senhorinha, hein. Jamais passaria vergonha na vida. 

A terceira idade já não me parece mais tão desinteressante assim. 

~uma doce senhorinha~

Tão conectados e tão sós

Quinhentos amigos no facebook. Mil seguidores no twitter. Setecentos leitores no blog. E ninguém com quem ir ao cinema.

A amizade hoje não tem mais o mesmo sentido que antigamente. É meu amigo aquele que comenta minhas publicações. É meu amigo aquele que curte minhas fotos. Tornou-se difícil escrever sobre amigos nos dias atuais porque não temos amigos, temos seguidores. Nos sentimos perturbados quando paramos para pensar em quem está ao nosso lado, para quem podemos ligar a qualquer hora do dia e dizer "venha aqui agora".

Muitas vezes fazemos esforços para que um vínculo real seja criado. Jantares são marcados, idas ao cinema ou um dia de beleza no salão. Porém, tudo parece resumir-se a hashtags. Qualquer saída com amigos vira motivo para uma postagem dizendo que temos amigos, que temos vida social fora da internet. Temos?

Existe um quadrinho, cujo autor não recordo, que diz que nos divertimos tanto que ninguém tirou fotos. Quantas vezes podemos verdadeiramente dizer algo assim? Qual foi a última vez em que vimos nossos amigos e não tivemos a necessidade de relatar ao mundo isso?

Se há uma coisa que pudemos aprender com as redes sociais é que ter mil amigos na internet não quer dizer tê-los na vida real. Mil amigos, trezentas curtidas e cem comentários, mas ninguém para segurar nossa mão quando precisamos. Amizade virou status.

Por que eu escolhi a Pedagogia

[...] a tarefa do ensinante, que é também aprendiz, sendo prazerosa é igualmente exigente. Exigente de seriedade, de preparo científico, de preparo físico, emocional, afetivo. É uma tarefa que requer de quem com ela se compromete um gosto especial de querer bem não só aos outros mas ao próprio processo que ela implica. É impossível ensinar sem essa coragem de querer bem, sem a valentia dos que insistem mil vezes antes de uma desistência. É impossível ensinar sem a capacidade forjada, inventada, bem cuidada de amar. Daí que se diga no terceiro bloco do enunciado: Cartas a quem ousa ensinar. É preciso ousar, no sentido pleno dessa palavra, para falar em amor sem temer ser chamado de piegas, de meloso, de a-científico. É preciso ousar para dizer, cientificamente e não bla-bla-blantemente, que estudamos, aprendemos, ensinamos, conhecemos com o nosso corpo inteiro. Com os sentimentos, com as emoções, com os desejos, com os medos, com as dúvidas, com a paixão e também com a razão crítica. Jamais com esta apenas. É preciso ousar para jamais dicotomizar o cognitivo do emocional. É preciso ousar para ficar ou permanecer ensinando por longo tempo nas condições que conhecemos, mal pagos, desrespeitados e resistindo ao risco de cair vencidos pelo cinismo. É preciso ousar, aprender a ousar, para dizer não à burocratização da mente a que nos expomos diariamente. É preciso ousar para continuar quando às vezes se pode deixar de fazê-lo, com vantagens materiais. 
Paulo Freire | Professora sim, tia não: cartas a quem ousa ensinar 

Cem anos de solidão

Ler Gabriel García Márquez sempre é uma experiência única. Não importa quantos livros dele você já tenha lido: ao ler o primeiro parágrafo a sensação é sempre a mesma, a de estar adentrando em um universo mítico, mas real, a de estar caminhando dentro da cabeça do Gabo e vendo o mundo através de seus peculiares e encantados olhos latinos.

Como todo ser humano possuidor de uma queda de penhasco por livros, sempre ouvi falar coisas confusas e misteriosas acerca de Cem anos de solidão (editora Record, 394 páginas), a obra mais consagrada do Gabo. Porém, nunca havia lido o tal esplêndido livro por motivos de: ele inexistia nas bibliotecas que eu frequentava. Porém, há algumas semanas o achei na biblioteca da faculdade. Tive de fazer reserva, claro. Esse livro literalmente não pára nas estantes. Há trocentos mil exemplares, e nenhum deles fica disponível por mais de dois dias. Ou seja = ou o livro é muito bom ou é muito famoso.Cem anos de solidão é ambos. Tão bom quanto famoso.
Úrsula se perguntava se não era preferível se deitar logo de uma vez na sepultura e lhe jogarem a terra por cima, e perguntava a Deus, sem medo, se realmente acreditava que as pessoas eram feitas de ferro para suportar tantas penas e mortificações; e perguntando e perguntando ia atiçando a sua própria perturbação e sentia desejos irreprimíveis de se soltar e não ter papas na língua como um forasteiro e de se permitir afinal um instante de rebeldia, o instante tantas vezes desejado e tantas vezes adiado, para cortar a resignação pela raiz e cagar de uma vez para tudo e tirar do coração os infinitos montes de palavrões que tivera de engolir durante um século inteiro de conformismo.
— Porra! — gritou.
Amaranta, que começava a colocar a roupa no baú, pensou que ela tinha sido picada por um escorpião.
— Onde está? — perguntou alarmada.
— O quê?
— O animal! — esclareceu Amaranta.
Úrsula pôs o dedo no coração.
— Aqui — disse. 
O livro conta a história da família Buendía, uma família marcada pela solidão. Apesar de serem uma família numerosa, todos eles trazem dentro de si uma solidão intrínseca. Por mais que guerreiem, criem povoados, façam filhos etc., a solidão está lá dentro, como uma companhia irremediável a qual temos de nos acostumar.

A história começa com uma lembrança do Coronel Aureliano Buendía, do dia em que tudo começou a mudar em sua vida: o dia em que seu pai, José Arcadio Buendía, o levou até os ciganos para conhecer o gelo. José Arcadio Buendía, casado com Úrsula Iguarán, um dia saiu à procura do oceano e, meses após uma caminhada árdua e sem fim, decidiu parar num local e fundar um vilarejo que se transformou na cidade de Macondo, a cidade em que nasceram todos os Buendía e que se tornou palco central de rebeliões futuras entre conservadores e liberais.

O interessante nesse livro - que, inclusive, ganhou o prêmio Nobel de Literatura - não é a história em si. Claro que a história é interessante, mas ela poderia ser a história mais fascinante do universo, se o escritor não soubesse escrevê-la, viraria nada além de um enredo mal aproveitado. O interessante é a forma como o Gabo nos faz mergulhar nas páginas do livro, sentir o que as personagens sentem e nos identificarmos com as situações vividas, por mais bizarras que elas sejam - afinal, estamos falando de uma história que se enquadra no realismo fantástico.

Uma das características dos livros do Gabo é o de escrever sempre o nome completo das personagens. Lembro que a primeira vez que li algo dele (O amor nos tempos do cólera) fiquei meio irritada com essa mania porque ele não podia chamar o Florentino pelo primeiro nome apenas. Não. Tinha de ser Florentino Ariza. Não podia chamar a Fermina apenas de Fermina. Tinha de ser Fermina Daza. Ele repetiu tantas vezes os nomes dessas personagens que faz um ano que fiz leitura do livro e não consegui esquecer seus nomes. A mesma coisa acontece em Cem anos de solidão. Todas as personagens têm seus nomes e sobrenomes repetidos exaustivamente, porém nesse livro isso se faz extremamente necessário, já que as personagens da família Buendía, conforme vão passando as gerações, possuem todas os mesmos nomes. "Comassim os mesmos nomes, Mia?" Então, filhote, é isso mesmo: as personagens variam entre Aureliano e José Arcadio. Há variantes de Úrsula, Remedios e por aí vai. Nasce filho, morre personagem, mas os nomes permanecem.
— Vai se chamar José Arcadio — disse.
Fernanda del Carpio, a formosa mulher com quem se casara no ano anterior, concordou. Úrsula, pelo contrário, não pôde esconder um vago sentimento de derrota. Na longa história da família, a tenaz repetição dos nomes permitira que ela tirasse conclusões que lhe pareciam definitivas. Enquanto os Aurelianos eram retraídos, mas de mentalidade lúcida, os Josés Arcadios eram impulsivos e empreendedores, mas estavam marcados por um signo trágico. 
E isso não confunde o leitor? Olha, confunde, sim. Eu fiz a minha listinha de personagens conforme fui lendo e recomendo que vocês também o façam porque é muita gente com o mesmo nome e aí não sabemos mais quem é filho ou quem é pai. Mas confesso que adoro esse recurso porque ele demonstra bem como funcionam (funcionavam até pouco tempo atrás, ao menos) a dinâmica das famílias latinas. Nomeia-se a criança conforme os parentes. Acho digno.

Outra coisa incrível no livro é a resiliência das personagens em geral, mas especialmente das femininas. Gabo tinha esse dom de escrever mulheres fortes, cada qual à sua maneira, que viviam suas vidas conforme queriam, sempre se adaptando às circunstâncias da vida, sem nunca perder a postura e a firmeza de propósito. Isso eu acho lindo de ler, dá gosto de acompanhar a história dessas mulheres fortes.

Outra coisa interessante a ser observada é que parece que esses cem anos de solidão foram um tipo de maldição imposta à família Buendía já que ela começou por um incesto. E há aquela coisa bíblica, muito forte nesse livro, de que todos os incestos serão punidos com algum tipo de maldição: deformidade física ou maldição que dure gerações. É o que ocorre.

Se eu contar algo a mais para vocês será spoiler, porque acontecem coisas tão inusitadas e maravilhosas nesse livro que praticamente tudo o que eu disser poderá ser considerado um spoiler, mas posso dizer, como toda a certeza, que: vale a pena lê-lo. De verdade. Já.
O livro em um quote:
[...] porque achava que as calamidades não podiam servir de pretexto para o relaxamento dos costumes.  
 
Wink .187 tons de frio.