A insustentável leveza do meu livro preferido

Oi, eu sou a Mia e não faço ideia de como escrever resenhas.

Mentira, eu sei. Claro que sei. Mas é difícil escrever sobre o seu livro favorito. Colocar em palavras os sentimentos despertos através de uma leitura é algo terrivelmente difícil. São sentimentos, caramba! Ou, digo melhor, sensações. Coisas que sentimos ao ler determinados livros, coisas que nem sempre podem ser expressas pela junção das letras de um alfabeto. Até podem, porque há palavras suficientes para descrever a montanha-russa de emoções humanas. Mas o quê escrever sobre um livro que já possui todo o necessário para ser amado escrito em suas amareladas e gastas páginas?
É isso que chamo de impasse, senhores.

Li em algum lugar - não, eu não lembro onde, já que minha mente é como um grande livro com várias páginas faltando - a seguinte frase: ninguém escreveu sobre amor como Kundera. E devo dizer que eu não teria definido melhor a escrita de Milan, esse ser incrivelmente inteligente que abençoou a humanidade com a obra-prima que é A insustentável leveza do ser (Companhia de Bolso, 321 p.). Foi por conta da leitura que fiz desse livro que senti, pela primeira vez, o desejo de ler as entrevistas de um escritor.

Sobre o quê o livro fala? A antítese peso e leveza, a alma humana, o amor, e tudo isso num cenário revolucionário, político.

Mas, na verdade, será atroz o peso e bela a leveza?
O mais pesado fardo nos esmaga, nos faz dobrar sob ele, nos esmaga contra o chão. Na poesia amorosa de todos os séculos, porém, a mulher deseja receber o peso do corpo masculino. O fardo mais pesado é, portanto, ao mesmo tempo a imagem da mais intensa realização vital. Quanto mais pesado o fardo, mais próxima da terra está nossa vida, e mais ela é real e verdadeira.
Por outro lado, a ausência total de fardo faz com que o ser humano se torne mais leve que o ar, com que ele voe, se distancie da terra, do ser terrestre, faz com que ele se torne semi-real, que seus movimentos sejam tão livres quanto insignificantes.
Então, o que escolher? O peso ou a leveza?

Kundera é um desses autores que fazem com que o leitor leia e releia trocentas mil vezes um parágrafo simplesmente porque aquilo foi incrível, profundo, genial e espantadoramente simples. Tão simples que faz com que pensamos: "como eu não escrevi isso antes?!".

Muitas pessoas dizem que A insustentável leveza do ser é um livro sobre sexualidade. Olha, não é. É, antes de tudo, um livro sobre seres humanos: não há personagens boas ou más, há apenas pessoas tentando dar o seu melhor mediante as situações comuns da vida. Porém, Kundera nos insere no universo dessas personagens em um momento crítico da história da Tchecoslováquia: a Primavera de Praga, que resultou na ocupação soviética, em Agosto de 1968. Nisso, a vida tão comum dessas personagens - Tomas, Tereza, Sabina e Franz - vê-se, do mais absoluto nada, completamente transformada e a partir daí acompanhamos as reflexões do narrador - onisciente, onipresente - acerca dos ocorridos tanto políticos quanto pessoais.

O que eu percebi lendo Kundera ao longo dos anos (bem, vocês sabem que ele é o meu escritor preferido, né?) é que ele apresenta personagens, as coloca num cenário e tudo o mais, mas o que ele realmente faz é um baita monólogo acerca de suas reflexões sobre a humanidade, política, filosofia, história e tudo o mais que lhe vier à mente.

Numa das aulas de Biblioteconomia o professor fez uma piada falando que um dos pesadelos de qualquer bibliotecário é classificar este livro. Isso porque, já no primeiro capítulo, ele fala sobre Nietzsche, Parmênides, a Revolução Francesa e uma guerra na África Oriental nos idos de 1500. Isso tudo antes de entrar na história em si. Ou seja: é um livro sobre tudo. Um maravilhoso romance filosófico. (Que acaba sempre classificado como "Literatura Tcheca" porque simplesmente não há como defini-lo.)

"Ah, mas então deve ser muito difícil de ser lido!" Olha, eu não acho. Li esse livro pela primeira vez aos 18 anos e o adorei. Já o reli cerca de vinte vezes desde então e só posso dizer que cada vez que o leio percebo algo diferente. Mas, eu acredito firmemente que há tempo para tudo, inclusive para ler certos livros. Portanto, não se assuste com ele. Se acha que anda não é a hora, não tem problema. Se acha que irá odiá-lo, dê uma chance antes de achismos. Compre-o, coloque-o na sua estante e deixe o tempo passar, deixe que ele lhe chame. Na hora certa, você o lerá. Pode ser que goste, pode ser que não. Mas vale a pena, de qualquer forma.

Kundera, durante um discurso em 1985, falando sobre esse livro e fazendo alusão a um provérbio judaico ("O homem pensa, Deus ri."), disse:

"Agrada-me pensar que a arte do romance veio ao mundo como o eco do riso de Deus."

Apenas isso, senhores, apenas isso.

Em um quote:
Seu drama não era de peso, mas de leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.

O semestre nem começou e já estou cansada

Hoje foi o dia de fazer as rematrículas.
Como vocês sabem, eu faço 2 cursos - porque sanidade mental é algo inexistente por aqui e eu adoro me autossabotar, como meu histórico de postagens pode confirmar. Semestre passado cursei 14 disciplinas ao todo, e isso quase me matou, apesar de eu ter passado com média 10. Eu estudava dia e noite, literalmente, e comecei a desenvolver fortes dores de estômago porque eu sou uma pessoa obcecada, eu PRECISO tirar boas notas, eu PRECISO aprender direito as coisas, eu PRECISO fazer tudo com perfeição. Consegui? Consegui. Tirei notas maravilhindas, ganhei muitos elogios, assim como fiz desafetos pelo caminho (fica pra outro post que, ai, preguiça), mas o fato é que: provei a mim mesma que era capaz.

Pois bem. Aí que decidi cursar menos disciplinas neste semestre.
No entanto (little did she know), levei um baita susto quando, ao abrir o Portal do Aluno hoje para montar a minha grade de horários, me deparei com: 17 DISCIPLINAS AO TODO.

*_* 

Não rola, gente, não tem como. O horário para cursá-las todas eu até teria, mas não arranjaria tempo para: 
a. estudar para provas; 
b. escrever os trabalhos vindouros (que professor de faculdade ADORA passar aqueles trabalhos horrorosos com apresentações em power point, né? ninguém aprende nada, todo mundo fica com aquela cara de bocó olhando pra o infinito, mas o professor fica super feliz e satisfeito com as ~tecnologias~ usadas a favor do ensino, blablabla); 
c. comer; 
d. dormir; 
e. viver; 
f. fazer pesquisa em escola pra o projeto de iniciação científica em que trabalho e escrever um artigo sobre isso. 

Ou seja: diminuí 6 disciplinas do semestre atual porque não há formas de cursar 17 ao todo e manter a minha tão linda inexistente sanidade mental que é firmada por umas cinco voltas de fita crepe. 

Mas então me perguntaram quantas disciplinas eu farei. Expliquei todo o blablabla, que farei 11 porque não há condições de eu fazer as 17 neste semestre, enfim. Aí a pessoa me diz: 
— SÓ VAI FAZER ISSO? AI, DEIXA DE PREGUIÇA. 


Passado o momento Emma Swan, savior of the fairy tales, respirei fundo e avaliei: eu poderia fazer mais alguma sem me prejudicar demais no processo? 
E foi aí que me deparei com uma revelação aterradora: DISCIPLINAS DO DEMÔNIO ME ESPERAM. 

Disciplina do demônio 1: Ed. Física
Eu passei a minha vida inteira fugindo da Ed. Física por motivos simples de: odeio ser obrigada a ficar correndo pra lá e pra cá sem objetivo algum, odeio dar saltos em cima de varas e cair toda estrambelhada no chão, odeio jogar futebol e vôlei. Do que eu gosto? Basquete. Mas sou baixinha demais pra isso. 

Um dos maiores alívios em concluir o Ensino Médio foi saber que eu jamais teria Ed. Física novamente (um dos, porque o maior mesmo foi me livrar de Matemática, mas ledo engano: semestre que vem terei Matemática I, socorro). Aí chego na faculdade e descubro que, dentre todos os cursos que eu poderia escolher, fui escolher um dos únicos que tem como disciplina Ed. Física. 

Tem gente que adora essa coisa de usar leggings, aqueles tênis horrorosos com molas, toda aquela agitação, suor e alegria. O HORROR, O INFERNO, se querem saber a minha visão da coisa. E eu terei ~apenas~ 4h disso todas as terças-feiras, direto. :) 

Minha vida, um eterno estar na 8ª série sofrendo pelas aulas de Ed. Física. 

Disciplina do demônio 2: Artes Visuais
Semestre passado eu fiz uma disciplina no curso de Biblioteconomia chamada Preservação e restauração II. Pois bem, essa disciplina consistia, basicamente, em aprender a fazer capas, limpar propriamente e costurar livros, com algumas aulas sobre confecção de folhas de guarda marmorizadas. Enfim, nós aprendíamos a confeccionar um livro, literalmente. 

Consertamos vários livros, refizemos capas, preenchemos folhas rasgadas... Mas um dos trabalhos principais consistia em fazer um livro: capa, folha de guarda, miolo, costuras... Tudo. A turma não era lá muito grande, mas enchia o laboratório, e pode-se dizer que todo mundo acertou de primeira a feitura de seu livro. Menos eu. Eu tive de refazer o maldito livro TRÊS VEZES porque minhas habilidades manuais são nulas. 

Essa foi a única disciplina, dentre as 14, em que tirei uma nota relativamente baixa. Isso porque, nas palavras da própria professora: "Mia, eu vou te dar essa nota pra ti passar porque dá pra ver que tu tem todo o conhecimento e saberia explicar, ensinar o conteúdo pra alguém perfeitamente. Mas tu não sabe fazer. Dá pra ver que tu te esforça e melhorou muito, mas tem que praticar mais.". Ou seja: eu sou terrível nisso. De verdade, gente. Gabaritei a prova, mas meus trabalhos manuais, ai, que tristeza. 

De modos que posso facilmente concluir que essa será uma longa disciplina neste semestre. Artes visuais para uma pessoa que não consegue nem costurar, nem ao menos usar uma régua, nem cortar e colar uma folha de guarda sem fazer tudo errado? FAIL. 

Disciplina do demônio 3: Tecnologias da informação e comunicação
Eu sou uma pessoa que detesta celular. 
Tenho horror a touch-screen. Não porque não saiba mexer, apenas por não gostar mesmo. As pessoas que me conheceram de uns 2 anos pra cá têm dificuldade em acreditar que eu sou formada em Web Design, Design Gráfico e Banco de Dados. Olha, eu sou. E entendo de edição de imagens, de CSS, de HTML, de SQL... Enfim, eu sou formada nessas coisas e até entendo. MAS ODEIO. Saí dessa área justamente por pensar o seguinte: quero passar anos da minha vida na frente de códigos, lidando com tecnologias e afastada do contato humano (hahahaha, que piada, migos)? Não, não quero. 

Quando saí do mundo das tecnologias meio que deletei os conhecimentos que tinha. Foi traumático aprender tudo aquilo. Se eu ainda sei das coisas? Até sei, mas prefiro não acessar tais memórias porque elas estão vinculadas com um monte de situações bizarras e uma pessoa que eu não sou mais. Aí tudo bem porque, poxa vida, vou ser professora infantil, não terei mais de lidar com isso. SE FERROU, GATINHA. Tem que lidar, sim, tem que aprender as tecnologias, sim, tem que lembrar trocentos mil eventos traumáticos, sim. Bora, ânimo!

Para que vocês tenham noção, estou desde o começo do ano com o celular estragado. Ele não tocava mais música, não tirava mais foto, não funcionava mais a conexão USB... Enfim, o coitado tava todo estropiado. Mas ainda tinha suas funções básicas: receber chamadas e tocar o despertador.

Como eu não sou uma pessoa afeiçoada a tecnologias, dei uma pesquisada em celulares e concluí que: enquanto estiver funcionando pra coisas básicas, continuarei com o meu (de anos, porque eita celular que durou!). Dia desses vi uma menina comentando que começou a ler e-books pelo simples fato de que na sociedade atual é muito mais aceitável ficar com a cara grudada no celular no meio das pessoas do que ler um livro físico, afinal, as pessoas consideram falta de educação ler coisas na frente delas ao invés de desfrutar de sua companhia, mas acham super aceitável ler coisas NO CELULAR, ficar com a cara grudada no celular, estar numa roda de amigos e mesmo assim se preocupar mais com o whatsapp e fb. Enfim: a realidade tecnológica dos dias de hoje. Eu fujo de tudo isso.

Mas aí o meu celular, semana passada, morreu de vez e agora nem ao menos TOCA mais. Visto que serei obrigada a arranjar um outro até a metade deste semestre. Porém, meio que me recuso veementemente porque detesto o que a maluquice tecnológica fez com as nossas vidas: agora é tudo no virtual e isso me incomoda profundamente.

'Cês entenderam como me será um saco estar numa aula sobre tecnologias? Pois é. 
Eu não consigo imaginar essa aula indo bem. Mas esforçar-me-ei (mesóclise é afrodisíaco).

De forma que: não, não dá pra fazer mais disciplinas além das que farei. Porque eu só mencionei as 3 disciplinas do demônio da graduação, nem falei das do curso técnico. PERCEBAM.


Mas, em compensação, terei disciplinas lindas como: Contação de histórias, Leitura de autores modernos e Linguística.

Eu posso me ferrar lindamente tentando adquirir habilidades que eu não tenho nas disciplinas do demônio, mas em contrapartida as outras serão lindas e revigorantes. ♥ 

I wanna rock and roll all night and party everyday

Hoje é Dia Mundial do Rock ♥ e, para que a data não passe em branco, as meninas do Rotaroots propuseram uma postagem especial contendo uma listinha com os 5 melhores riffs de guitarra. Como metida a rockeira que sou ('cês olham minha foto na vibe Lana Del Rey com as florzinhas na cabeça, mas nem imaginam que na minha playlist só toca rock e heavy metal, basicamente), não poderia deixar isso passar em branco.

Ou seja: minha listinha dos 5 melhores riffs de guitarra:

Hammer to fall - Queen 
O Queen não era muito de fazer riffs de guitarra - apesar do Brian May ter sido considerado pela Planet Rock o 7° melhor guitarrista de todos os tempos e pela Rolling Stone o 26° -, o que mais se pode observar em suas músicas são solos de piano (amo/sou ♥), contudo o Brian sempre se destacava quando pegava a guitarra e creio que a música que mostra isso melhor é Hammer to fall.


Phantom of the opera - Iron Maiden
Eu não sou muito fã de Iron Maiden. Sim, eu sei que todos parecem amar essa banda e blablabla, mas a verdade é que eu não gosto da voz do Bruce Dickinson. No entanto, gosto pra caramba da composição musical deles. E, claro, nisso está incluso o uso da guitarra. Fear of the dark, pra mim, é a melhor música da banda mas, apesar disso, Phantom of the opera é a possuidora do melhor solo. (Sério, gente, escutem isso.)


Sweet child o'mine - Guns N' Roses 
Alguém não vai colocar Sweet child na lista? Porque não é possível, gente. Esse solo é simplesmente maravilhoso. Melhor toque pra celular que existe, hein (usei durante anos, antes de trocar para Angra). Guns é uma daquelas bandas das quais todo mundo se lembra ao falar em rock e eu certamente não poderia deixar de fora uma das músicas mais emblemáticas no quesito solos de guitarra. 


(I can't get no) Satisfaction - The Rolling Stones 
Fiquei em dúvida por um momento se havia ou não um solo aí, mas sim, há! Isso porque não é aquela guitarra rasgada a que nos acostumamos ouvindo Guns. Eu adoro essa música, a banda é maravilhosa e sempre, sempre que a ouço tenho vontade de começar a rir e fazer coreografias loucas. Aliás, isso é o que eu mais gosto no rock: a gente se diverte de verdade. 


School's out - Alice Cooper 
Novamente uma música sem aquele solo rasgado, mas, gente: QUE COISA MAIS INCRÍVEL. Sério, Alice Cooper é puro amor, essa música representa todo o espírito de rebeldia do rock e, de quebra, tem um solo maravilhoso que fica grudado na cabeça da pessoa que o ouve. Listen. 


E assim termina a minha listinha. 
Tá faltando coisa? Tá. Fiz e refiz essa lista mais de dez vezes, mas esta é a versão final e estou contente com ela. Agora quero ver a de vocês. Me mandem o link caso façam, hein! 

~o Dean tem o melhor riff e tá encerrada a discussão~ 

Vamos falar sobre a vagina

Você conhece a sua?
Você a chama como? Vagina? Duvido.
Eu mesma não a chamava assim. Tinha problemas com essa palavra. VA-GI-NA. Parece nome de remédio. Não soa como algo sensual, atraente ou bonito. Soa como algo a ser escondido ou aplicado em momentos realmente necessários. Como sempre tive uma visão muito bonita da minha vagina, me recusava a chamá-la assim, inventando toda a série de apelidos fofos para me referir a ela.

Que bobagem.


Fiz uma pequena pesquisa no Google para saber mais sobre esse órgão tão maravilhoso que nós, mulheres, temos entre as pernas, e me assustei com os resultados: nove de dez deles falavam acerca da vagina no ato sexual hétero, a penetração, e em como agradar o parceiro com óleos aplicados na região, depilações exóticas e coisas do tipo.

Eu estou na faculdade enquanto escrevo este post e há uma política aqui: sites com conteúdo pornográfico não abrem. Tudo bem, é justo. Mas sites literários que contêm resenhas acerca do maravilhoso Os monólogos da vagina, da Eve Ensler (Bertrand Brasil, 124 p.), também são barrados com o seguinte aviso: "conteúdo pornográfico".

Tanto minha pesquisa rápida quanto a tentativa de ler mais acerca desse livro/peça me fizeram compreender perfeitamente aquilo que negam, mas que é um fato escancarado: a vagina é considerada pornográfica. Quero dizer, não apenas a palavra, mas quando as pessoas pensam em vaginas, pensam no sentido sexual dela. E não no sentido sexual do dar prazer a si mesma, mas do sentido de dar prazer ao outro, de ser um buraco cheio de terminações nervosas onde os homens podem enfiar seus membros viris e despejarem seu líquido vital. E o que falar daquela pesquisa que mostrou o que já sabíamos há muito, que os homens têm nojo de fazer sexo oral nas mulheres porque, ai, que nojinho a vagina. Querida, lhe direi algo: se seu namorado/marido/whatever tem nojo de sua vagina, mande-lhe chupar um pau. Problem solved.

E se vocês não perceberam a ironia em meu tom de escrita no parágrafo acima, por favor, fechem este blog agora.

Qualquer simples pesquisa que fizermos sobre a vagina trará resultados relacionados ao pênis. Porque o membro masculino tem de, literalmente, por vezes, se meter em tudo. Mas nós, mulheres, precisamos descobrir nossas vaginas. Precisamos conhecê-las. Não ter receio de dizer a palavra. Vá, diga. Um pouquinho mais alto, não precisa ter vergonha: vagina. VA-GI-NA. Vergonha pra quê? Todas nós temos uma.

Vamos deixar os homens de lado um pouquinho e pensar no prazer feminino? Não digo apenas o prazer da masturbação, mas sim o prazer de ser mulher. Olhe para si mesma. Não importa se você se enquadra no padrão estético de beleza (que coisa mais boba) ou se não poderia estar mais longe do mesmo. Olhe para você de verdade. Sinta-se mulher. Sinta sua vagina: ela é essencial. Todos os seres humanos já passaram por uma. Ela é linda, sagrada, mágica.

E é isso que o livro de Eve Ensler fala: sobre a descoberta da vagina. Nele, ela conta acerca de mulheres que jamais sentiram um orgasmo, que nunca ousaram sequer chamá-la pelo nome, referindo-se apenas a ela como "lá embaixo". Imagine passar uma vida inteira sem descobrir seu próprio corpo. Como podemos dar nossos corpos para homens ou mulheres sem conhecer cada cantinho de nós?! Não podemos. Precisamos nos conhecer. Precisamos parar de ter vergonha. Precisamos parar de pornografar a vagina.

Ela não serve apenas para a pornografia. Ela serve para nós. Ela é nossa. Ela nos avisa quando estamos empolgadas, ela contrai quando temos medo, é através dela que limpamos nosso organismo e também que parimos crianças. Ela é a entrada para o âmago de nosso ser, e muitas vezes, por pudor, esquecemos de que ela existe, deixando-a apenas para o deleite do parceiro.

Isso não pode acontecer.

Eve nos conta a história de mulheres que passaram por estupros e que só conseguiram redescobrir suas vaginas muitos anos depois. O sistema patriarcal sempre tentou - e tentará - silenciar-nos e fazer com que tenhamos vergonha de nossas vaginas, de nossos corpos, de nossa essência feminina.

Eu poderia me estender acerca do livro, mas é isso: um livro que fala abertamente sobre a vagina sob a perspectiva de diversas mulheres entrevistadas pela dona Eve Ensler ao longo dos anos. É uma obra honesta, direta, que eu recomendo deveras. Mas, neste momento, prefiro me concentrar em falar um pouquinho da realidade que enfrentamos dia a dia.

A vagina é violada diariamente. Não podemos falar dela abertamente sem sermos chamadas de vadias, sem vergonhas, desprovidas de bom senso. Somos obrigadas a usar eufemismos ridículos porque deuzôlivre se falarmos abertamente sobre uma das partes mais importantes do nosso corpo. Nem mesmo a presidenta do nosso país passa incólume por isso. É um absurdo que isso aconteça em nosso país, no mundo, na nossa realidade de século XXI. É um absurdo que as pessoas achem isso muito normal e desculpável, afinal, é apenas um protesto. Um protesto em forma de estupro?

A primeira forma de silenciar uma mulher é falar que ela está afetada por conta da TPM, de seu período menstrual. Sempre silencia-se a vagina. A violência física vem logo em seguida, mas o fato é que a cultura patriarcal sempre foi a favor de vigiar e humilhar a mulher, afinal, silenciando-a e deixando-a com vergonha de si mesma, ela não terá poder para tomar posse do que é seu: seu corpo, sua vagina, o que entra nela, o que dela sai.

Como sabemos, antigamente, na cultura greco-romana, os homens, ao nascer a criança, reconheciam-na ou não e, caso não a reconhecessem, a criança era morta no ato. A mãe não tinha parte nisso, não tinha voz, afinal, ela não tinha um pênis para protestar.
Durante o julgamento das feiticeiras em 1593, o advogado investigador (um homem casado) descobriu um clitóris pela primeira vez. Ele o identificou como a teta do diabo, prova evidente da culpa da bruxa. Tratava-se de "um pequeno pedaço de carne que saía para fora do resto como se já fora uma teta de um centímetro e meio de comprimento".
O advogado, "percebendo à primeira vista que não deveria tocá-lo, pois estava ligado a um lugar tão secreto que não seria decente olhá-lo", decidiu, no final, "não querendo esconder matéria tão estranha", mostrá-la a várias pessoas presentes no local. Essas pessoas também jamais tinham visto algo como aquilo. A feiticeira foi condenada.
The Woman's Encyclopedia of Myths and Secrets 
 A cultura cristã incutiu na cabeça dos homens que a vagina não é para ser tocada, que a mulher tem de ficar calada, que durante seu período menstrual ela é nojenta. Infelizmente, isso é passado até os dias de hoje. Mas a mulher tem se empoderado cada vez mais. Há ainda homens que tentam reprimir nossos atos, nossas palavras, que tentam nos humilhar dizendo que tudo é consequência da TPM, que não sabemos o que dizemos, que temos de ficar quietas e não falar acerca de nossas menstruações, que não devemos falar a palavra vagina, que isso é nojento, não é coisa de moça decente falar abertamente sobre suas partes íntimas.

Eu digo o contrário. Pode ser que eu não pareça decente para você, mas livre, isso eu sou. Assim como a minha vagina.
O coração é capaz de sacrifícios.
A vagina também.
O coração é capaz de perdoar e reparar.
Pode mudar de forma para nos deixar entrar
Pode se expandir para nos deixar sair.
A vagina também.
Pode sentir dor por nós, pode se esticar por
nós, pode morrer por nós e sangrando nos
colocar dentro desse mundo
difícil e maravilhoso.
A vagina também.
Os monólogos da vagina; p. 114-115. 
 
Wink .187 tons de frio.