Como a meditação mudou o meu ano

Quase ninguém sabe, mas finalizei meu ano passado flertando com o budismo. 
Eu não sou budista. Não sou adepta a religião ou filosofia alguma - porém, ao mesmo tempo, flerto com várias e vou adaptando suas regras conforme o que sinto ser bom para mim. Ao final do ano passado eu precisava desesperadamente de um F5. Minha vida era uma página em about_blank à espera de uma atualização. 

~BLAKE, William. The Song of Los~

Passei a virada do ano chorando numa cama improvisada no chão da casa da tia do meu até então namorado. Havíamos passado aquele mês inteiro juntos e apenas confirmamos o que já desconfiávamos: somos pessoas completamente diferentes, e não de uma forma complementar. Ele surgiu na minha vida numa época em que tanto ele quanto eu precisávamos de apoio, de afeto, de um se importar com o outro. Mas nosso tempo já havia acabado e estávamos insistindo em migalhas de afeto, na memória de algo que havia sido tranquilo. Não apaixonante, porque nunca houve paixão, e sim um companheirismo. Estávamos estragando nossa amizade. 

Todo aquele dezembro eu passei lendo livros que me ajudaram a perceber que eu precisava parar tudo e conhecer a mim mesma. Quem era a Mia longe de relacionamentos? Quem era a Mia longe do até então namorado? Quem era a Mia longe dos amigos? Quem era a Mia a quilômetros de casa? Quem era a Mia fora da zona de conforto? E descobri que eu não olhava para mim mesma há muito tempo. 

Foi aí que começaram as meditações. 
Claro que eu já meditava, mas era mais algo para controle de ansiedade ocasional do que para parar tudo e reconhecer meu lugar no universo, reconhecer a mim mesma e ao outro, ao que me cerca, a tudo o que existe. 

Apenas a ideia de terminar o ano naquela infelicidade, voltar para o curso de Pedagogia para mais um semestre e viver uma vida que não era minha me deixavam numa angústia tamanha que eu só tinha vontade de sair correndo sem rumo, em linha reta, e só parar quando caísse de exaustão ou quando uma luz me parasse e dissesse CÊ TÁ LOUCA, MENINA MIA?! 

Eu não me conhecia mais. Então, meditei. 
Eu estava triste. Então, meditei. 
Eu vivia um relacionamento sem paixão. Então, meditei. 

Se você acha que isso resolveu meus problemas e me tornou uma pessoa muito mais centrada e equilibrada, você está completamente enganado. Isso foi o começo de um inferno particular que durou meses. Porque não é bonito conhecer a si mesmo. Não é legal ficar em silêncio e examinar todas as suas cicatrizes, cutucá-las uma a uma até descobrir que, opa, aquela ali não cicatrizou muito bem, ainda há um pouco de pus, temos de tratá-la. Não é prazeroso ficar parada por 1h na mesma posição, esvaziando a mente, enquanto a família do seu namorado grita dizendo que você é estranha, é esquisita, não se enquadra, que ele deveria arrumar outra porque você é antissocial e se isola no quarto durante 2h diárias para ficar em silêncio. Não é satisfatório viver a destruição de um relacionamento estável estando todos os envolvidos - inclusive a família dele - sob o mesmo teto, num calor de 37°C, a quilômetros de casa, enquanto você tenta ~descobrir a si mesma~ porque simplesmente não aguenta mais tanta tristeza, tanta desilusão e não sabe como as coisas chegaram naquele ponto. 

Ao voltar pra casa eu estava quebrada. Não apenas por ter, agora, consciência de muitas coisas que havia ignorado durante um bom tempo, mas também por todo o estresse que passamos durante a viagem de férias. Cheguei em casa um dia antes do meu aniversário, no dia em que fazia um ano da morte da minha avó. Não houve comemoração. O tal namorado não foi me ver.

Eu não queria ver ninguém.
Nem a mim mesma. Mas eu tinha de me enxergar, eu tinha de olhar para a figura patética que eu havia me tornado, aquela personagem que havia abdicado de sonhos, que tinha deixado de lado tudo o que um dia almejou ser apenas para se conformar com o que as circunstâncias lhe haviam imposto. Só que meu mundo circunstancial estava caindo aos pedaços, tudo o que até dois meses atrás era certo, seguro, infeliz mas estável, do mais absoluto nada estava ruindo e eu precisava encarar isso de uma vez por todas.

O resto do mês de janeiro e todo o mês de fevereiro se passaram em silêncio. Não falara com meu até então namorado durante todo aquele tempo e, estranhamente, não sentia falta dele. Só queria ficar quieta, no meu canto. Estávamos em suspenso, a vida havia parado. Era o suspiro profundo antes do mergulho.

Faltando 6h para o início das aulas do semestre, ele me mandou uma mensagem no fb terminando, de vez, o relacionamento. Eu sabia que já havia terminado, mas estava esperando vê-lo para lhe falar isso pessoalmente porque você não termina um relacionamento longo, de anos, através de uma mensagem no facebook. Não é correto, não é legal.

O grande problema era que: éramos colegas no curso de Biblioteconomia. Nos veríamos dali a 6h numa sala extremamente pequena onde teríamos de conviver por mais um semestre de forma tranquila e profissional. Quando me dei conta disso comecei a ter um nervous breakdown que me tirou do meu eixo pelo mês de março inteiro. Porque não apenas terminamos. Não. Teríamos de nos ver diariamente, fazer trabalhos juntos em grupo e fingir que nada havia acontecido porque a ideia foi: não contar para ninguém, fingir que estava tudo bem e que continuávamos juntos. Ele me pediu para ser profissional. Como ser profissional após um término que não tinha completado nem 12h, ao lado do seu ex, numa sala de aula extremamente pequena e numa turma que nos via - e nos tratava - como casal? Como ser profissional com o seu ex te abraçando subitamente e te dando beijo no rosto na frente dos outros mas, assim que eles viravam as costas, te tratando como se você não existisse e tudo pelo que vocês haviam passado fosse apenas literatura de má qualidade, pronta a ser esquecida?

Vou lhes responder: não tem como.

E então a dona Mia teve duas coisas que resultaram em uma: crise de depressão + crise de ansiedade = o maior nervous breakdown da história deste blog. Maior ainda do que a crise de depressão de 2014.

Eu estava no meu último semestre de Biblioteconomia, no primeiro semestre de Jornalismo e tendo de fazer o estágio obrigatório em uma biblioteca para concluir o curso. O que eu fazia, de fato? Corria pelos corredores, entrava no primeiro banheiro que visse e chorava sem parar. Eu simplesmente não podia evitar. Não conseguia dormir, não conseguia comer, não conseguia nem ao menos ler livros de ficção, que o fará os artigos que os professores passavam. Aquela situação era insustentável e eu não sabia o que fazer. Ou, antes, até sabia, mas o combo depressão + ansiedade me deixou apática, incapaz de, de fato, tomar alguma atitude.

O ápice do colapso nervoso foi quando, no final de março, um professor de Biblioteconomia me parou no meio de um corredor pra me cumprimentar e, ao perguntar como eu estava, não consegui mais segurar o sorriso, fingir que estava tudo bem e literalmente saí correndo chorando pela instituição. Acabei escondida, em posição fetal, no banheiro.

Então, procurei uma psicóloga. Porque a meditação apenas não estava funcionando, eu não estava conseguindo me concentrar e precisava de, sei lá, psicotrópicos, alguma coisa que me ajudasse a focar nas coisas importantes. O que a psicóloga fez? Psicóloga riu da minha cara loucamente e disse que não era possível que a situação fosse verdade porque parecia muito mais coisa de sitcom ou de algum filme de comédia romântica dos anos 50.

Virei as costas e nunca mais voltei.
Me dediquei totalmente a dizer não. Não a tudo que me fizesse mal. Não às expectativas que os outros tinham de mim. Não a um relacionamento falido. Não aos rótulos estereotipados do que eu deveria ser, como mulher, na sociedade. Não. E nesse momento eu passei a dizer sim para mim mesma. Sim para o que eu queria. Eu queria ficar sozinha durante um final de semana inteiro? Dane-se se me quisessem por perto, eu ficaria sozinha. Eu queria pegar um cara numa festa? Dane-se se me chamassem de vadia, eu o pegaria. Eu queria sair toda maquiada pra faculdade? Sairia como se pra uma festa estivesse indo. Parei de fazer o que os outros esperavam de mim, parei com tudo e comecei a me ouvir. Mas antes de fazer qualquer coisa eu precisava descobrir o que eu queria. E, para isso, conhecer a Mia novamente. Uma Mia cheia de cicatrizes e toda quebrada, uma Mia feia de se olhar. Mas a cortina do espelho precisava ser retirada: eu precisava me encarar por completo.

Essa também é uma forma de meditação.
Ninguém precisa ficar na posição de lótus por horas para entrar em contato consigo mesmo. Mas é necessário primeiramente colocar-se na posição de eu. Quem sou eu? Por que eu estou fazendo o que faço? Por que quero o que quero? Por que deixo as pessoas decidirem o que eu devo fazer? Conhece-te a ti mesmo, já diz a base da filosofia. Não é novo, mas é atual.

Ainda tenho muito a progredir e uns bons anos de traumas a superar, mas consegui tanta coisa nos últimos tempos apenas me conhecendo que só posso dizer que: vale a pena. É doloroso, é sofrido, é penoso. Mas é a melhor coisa que se pode fazer. Por mais que doa.

Hoje eu só quero ser quem eu sou e querer o que eu quero.
Seja lá quem eu for.

~grupinho do amô pra gente se apoiar durante o BEDA~

8 comentários:

  1. Nossa, Mia, rolou uma identificação ABSURDA com esse texto mesmo que eu nunca tenha tentado meditar.
    Eu estava tentando salvar um relacionamento falido até o fim de semana passado e, no fim das contas, deu no que deu. Terminamos. Chorei horrores e agora estou sentindo um vazio existencial imenso, mas é bem isso que você falou. A gente chora mesmo tendo a certeza que aquilo ali não está certo. E mesmo que a gente tenha detectado isso antes, saber que chegaram até ali juntos é no mínimo inspirador.

    Eu acho essa sua decisão de conhecer a si mesma maravilhosa e estou fazendo o mesmo por aqui. Sempre fui dessas que emendam namorado, mas estou me dando um tempo. Eu preciso disso pra botar pra fora toda a bad vibe do relacionamento que acabou e, no fim, me conhecer. Eu não quero mais alguém pra evitar ficar sozinha, eu quero alguém que me entenda e que seja bom comigo e que eu me apaixone mesmo. Se for por falta de companhia os amigos preenchem esse espaço.

    Acho que vou fazer mais essas catarses que você anda fazendo. Deixa a gente aflito? Deixa, porém depois a gente vê como aquilo foi importante pro crescimento pessoal.

    Acho que é isso. Amei seu texto. Tá favoritado aqui.

    Beijos :)

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  2. OI MIA, eu tbm medito e ajuda muito, muito mesmo. tbm não sou adepta a nenhuma religião e trago pra minha vida o que acho certo e me faz bem.
    autoconhecimento é necessario. ♥ tbm flerto muito com o budismo

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  3. Admito que um dos motivos pelos quais parei de meditar é porque eu tinha crises de choro logo após. A realidade de nós mesmos pode ser insuportável. Olhando agora eu percebo que aquele pequeno sacrifício de uma hora fazia sim uma diferença enorme e que preciso voltar a fazer isso porque a única maneira de ficar bem é encarando o mal e dizendo “hoje não”, coisa que não faço há séculos.

    Não entendo porque teu ex não queria que os outros soubessem que vocês tinham terminado. Ok, eles não precisavam saber que foi um término tão ruim assim, mas também não tinha porque fingir que não tinha acontecido nada.

    Caraca, que psicóloga babaca. Como é que uma pessoa assim podia dar consultas? Que horror!

    É difícil parar de fazer o que os outros esperam de você, pelo menos eu ainda estou aprendendo. Me embanano bastante com essa coisa de dizer sim a mim mesma, sempre tento dialogar comigo mesma, tentando me convencer de que estou sendo impulsiva e de que, provavelmente, não é aquilo que quero. Dificilmente dou um passo quando desejo.

    Achei lindo o final do texto. Também acredito que meditar não é sentar e ficar quieta por horas até alcançar uma espécie de iluminação. Fico feliz em saber que você tá se encontrando, e desejo que você nunca mais se perca no caminho. ♥

    Beijinhos.

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  4. EITA GENTE oO que semestre tenso D: essa coisa do "conhecer a si própria" é dolorido pra caralho, mas é aquele tipo de coisa que eventualmente acaba sendo necessária. Queria poder dizer que só traz benefícios, mas nem sempre é assim. Mas já é um passo enorme em direção a mudanças. Tomara que esse novo semestre seja menos bostinha <3

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  5. Eu já tentei aprender a meditar, mas nunca consegui. Acho que não encontrei a técnica certa ou, vai ver, tenho medo do que vou encontrar no meu interior e arrumo umas desculpas esfarrapadas pra fugir disso. Vai saber.

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  6. Mia, esta é a primeira vez que visito o seu blog e este texto foi tão lindo <3
    Tô te mandando abraços virtuais :)
    Há um ano vivi um término de relacionamento e, ao ler o seu texto, percebi que estava em uma situação semelhante. Estávamos juntos há bastante tempo, mas, em algum ponto, os sentimentos mudaram. O término em si foi horrível, a dor foi forte, os ataques de pânico e ansiedade me causam pesadelos só de lembrar. Porém, esta semana - quase um ano depois! -, finalmente entendi duas coisas: 1) eu não tava feliz naquele relacionamento e 2) hoje, finalmente, me tenho de volta. Cara, perceber isso foi tão libertador! Como você, simplesmente mandei um "dane-se" para o universo. Nem abro margem para pessoas e coisas que não me fazem bem e, na real, tô vivendo tão em paz. Nunca fiz meditação, mas acho que vou pesquisar sobre o assunto.
    Por mais que tenha encontrado um equilíbrio, sinto que ainda estou me conhecendo novamente.

    Adorei o texto!
    Fique bem :)

    Beijos,

    ~Michas

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  7. Adorei seu post! Parabéns pela transcendência, preciso dessa luz também. Como futura psicóloga, peço desculpas pela vaca que te atendeu. Que biscate. Beijos e parabéns!

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Wink .187 tons de frio.