[des]conhecer

teu beijo
que dançava em meu corpo
que lançava um feitiço
de encanto sem fim
agora
descansa noutro gosto
percebe outras curvas
do amor sem mim. 

Hello, darkness, my old friend


Sonhei com você. Sonhei que você morava dentro de um poço, a vários metros de profundidade da superfície. Não, não era bem um poço, mas a entrada era parecida. Era no subterrâneo, me entende? Não, eu também não sei de onde tirei isso, mas apenas me ouça. Sonhei que você morava dentro da escuridão quase completa, debaixo da superfície, e que, para te ver, eu tinha de entrar lá também. Então você explicava como chegar até lá, não só para mim, mas para várias  pessoas que, após alguns metros de profundidade, desistiam por medo do escuro, por medo de serem surpreendidas por alguém tentando se esconder lá dentro, por medo de serem abraçadas pelo abismo, pela terra remexida, e nunca mais voltarem. Você explicava que o importante não era levar comida, lanterna ou velas, mas sim uma escada porque precisaríamos subir de volta eventualmente. Você falava e mostrava e exemplificava e todos tentavam e diziam que nunca te abandonariam, mas abandonavam porque quem cometeria a loucura de se enfiar debaixo da terra apenas para te ver? Quem aceitaria ter um quase enterro em vida, passear por um buraco de terra remexida só porque de lá você se recusava a sair? Apenas eu. Eu fui, mas não quis ficar. Eu queria te trazer pra cima, te mostrar a luz do sol, sair de toda aquela umidade, do meio das minhocas, daquela semivida que você vivia. Mas você não quis. Você queria que eu ficasse lá com você, apreciando a vida por uma janela de 558 metros de profundidade. E talvez seja isso que você queira. Talvez você realmente queira que eu mergulhe nesse seu abismo intolerante, profundo e escuro. Mas como eu posso fazer isso se a vida lá fora me chama, se eu ouço os pássaros a cantar e quero respirar outros ares, sentir outros toques, outras mãos e tons de vozes? Eu quero que você venha comigo, mas você quer o seu poço, está apegado ao fundo dele, tentando cavar cada vez mais terra para se esconder das pessoas e principalmente de si mesmo. Você quer a morte em vida e eu quero viver para morrer com a desconfiança de ter escapado do poço profundo que é o vazio existencial que carrego dentro do meu peito, tão trancado, tão obscuro, tão silencioso. 

Do riso, da lua, tão nua

O que seria de mim
Sem meus diálogos? 
Pesquisas, saídas, embalos
Ideias que surgem e se calam? 
Quem seria eu
Sem minha astúcia programada
Horas a fio mergulhada
Em pensamentos levadas? 
No que me transformaria
Caso não fosse assim? 
Se a vida não tivesse sido amarga? 

Se a doçura - doce, amarga
Que habita no âmago, encabruada
Fosse esplêndida, rosada, vertebrada
Pétala que surge em noite enluarada.
Se essa - que se contradiz 
Fosse bela, límpida, virgem em esplendor
Se seu peito guardasse aquele amor
De um sabor de pureza e um quê de dor. 
Se o riso fosse maior
Que aquele pranto sem fim
Se a pétala ainda estivesse tocável
Como da rosa no jardim
Se a menina se abrisse
Talvez a dor tivesse um fim. 

Entretanto - se e somente se
A menina que sou eu
Segue alegre, segue triste
Segue a vida que a deusa lhe deu
E espera - ah, como espera! 
Que um dia, lá dos céus
Bênçãos caiam, cores se espalhem
E a tirem deste breu. 
Desse pranto, desse canto
Dessa coisa assim, assim
Dessa angústia que alimenta o riso
Dessa mágoa que não tem fim. 
Do encanto que alegra
Do amor que ela tem 
Por ele - e tão somente
E assim por mais ninguém. 

Se esse amor for o suficiente
Há de ser, ela crê, oh crê! 
O riso então - de contente
Há de ser assim também. 

Aquele com o quase sequestro na van

Acho que a essa altura do campeonato todos aqui sabemos que Murphy me ama, Murphy me quer. Recentemente comecei a estagiar como fotógrafa (fotojornalista ♥) num jornal da faculdade em que estudo e, é claro, Murphy vai todos os dias comigo pra lá. 

Sexta passada foi o exemplo perfeito disso. Estava eu linda, cheirosa e animada indo alegremente para a van que levaria a mim, a meu colega que iria comigo e a outras duas meninas da foto também para registrar umas coisas pra umas reportagens. E tava tudo bem. A gente falou com o motorista e deixamos especificado que iríamos a dois lugares: as meninas primeiro, depois o rapaz e eu a outro. O motorista concordou, pareceu entender, tava tudo de boas, tranquilíssimo. 

Fomos. Chegamos ao destino das gurias e o motora as largou lá. Tudo fluindo bem. Até que ele simplesmente estacionou ali e dali não mais saiu. Meu colega e eu nos encaramos, encaramos o motora e eu perguntei:
— Então, o senhor vai nos levar pra o IAPI?
— Não.

~acho que não entendi muito bem, senhor~

Foi um não seco. Um não categórico. O que era ridículo, já que havíamos combinado tudo anteriormente. Mas como eu sou uma pessoa insistente, continuei:

— Bem, mas a gente havia combinado de ir até o IAPI, lembra?
— Não mesmo, negativo. Minhas instruções foram para ir até o centro e do centro eu não saio.
— Mas, senhor, a gente precisa ir pra o IAPI.
— Bem, vocês não eram nem pra ter vindo comigo, então. Só as duas gurias. Porque fiquei de levar só elas pra o centro.

Nesse momento eu já estava começando a me perguntar se o motora havia esquecido de tomar seus remedinhos naquele dia, porque não estava sendo possível tanta falta de coerência numa só pessoa de um momento para outro.

E a coisa só piorou.
Após muitos minutos de silêncio, parados naquela van, novamente perguntei:
— Tá, então o senhor não vai nos levar, né?
— Não.
— Okay. Eu vou lá no Gasômetro com as gurias.

Nisso o motora simplesmente decidiu arrancar a van e correu loucamente pra, aparentemente, local algum, já que nos assustamos e durante o trajeto fantasma perguntamos ONDE DIABOS ele estava indo, já que ele já estava estacionado onde eu finalmente decidira descer, e ele nada respondia, apenas exibia o olhar da insanidade e dirigia. Aquela van fazia IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIH no asfalto e meu colega e eu pensamos que estávamos sendo sequestrados.

Até que, do mais absoluto nada, ele parou.
No meio de uma pracinha.
NO MEIO, eu repito, DE UMA PRACINHA.
Não ao lado da pracinha, mas no meio, em cima das areias das crianças, ao lado do escorrega.

E longe do Gasômetro.

Ele desceu da van, abriu a porta lateral, apontou pra direita e disse:
— Sigam reto pra direita.

EU.GELEI.DE.MEDO.E.DISSE.AGORA.QUE.EU.MORRO.

Obviamente não morri, mas quase.
Fomos, né? Meu colega e eu fomos seguindo reto à direita, pra o meio do mato e com o coração na mão. Até que, após muito caminharmos, encontramos finalmente ao longe a torre do Gasômetro.

Quando estávamos quase chegando lá passou por nós um cara numa moto que simplesmente parou de olhar para a frente, virou a cabeça em nossa direção e gritou AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHH com uma puta voz grave.

Minha reação foi: M E D O. Escapei da morte pra morrer na esquina.

detalhe: estava eu com uma câmera canon pendurada no pescoço. percebam o pavor da criança. teria de vender a minha alma pra pagar aquilo caso algo ocorresse. 

Só foi o tempo de olharmos um pra cara do outro, espantados, e passou um carro grudado na gente com uma pessoa com uma perna pra fora. NÃO VIMOS O MOTORISTA EM LOCAL ALGUM, apenas uma perna pra fora do carro.

Nesse momento eu já estava esperando Frank, o coelho de Donnie Darko, aparecer na próxima esquina e dizer que em 28 dias o mundo terminaria.


Felizmente chegamos ao Gasômetro, encontramos as gurias e conseguimos, após muita caminhada - porque tivemos de ir até a prefeitura também; muito legal e seguro 4 jovens caminhando com canons penduradas ao pescoço, nem me digam -, voltar pra PUCRS sãos e salvos.

Esse dia foi punk. 

Das [des]vantagens de ser visível

Eu não quero um namorado.
Por muito tempo eu quis um namorado pra chamar de meu, mas qual é o objetivo disso? Passear nos fins de semana? Tenho amigos pra isso ou posso até mesmo passear sozinha - por que não? A vida é divertida, ser uma espectadora do mundo é hilário. Posso perfeitamente passar um fim de semana sozinha sem me aborrecer por isso. 

Ou será que o objetivo seria ter alguém com quem me pegar loucamente? Meu bem, sem querer ser presunçosa aqui, mas eu tenho vários "alguéns" com quem me pegar loucamente - elevadores da vida que o digam - se assim quiser. Só que há um porém: eu gosto mais de falar sobre isso do que realmente fazer. É entediante. O corpo humano, na prática, não me interessa muito - e convenhamos que praticamente ninguém sabe o que fazer nem ao menos com as mãos num simples beijo, que o fará em outras situações, e eu não tenho vocação para lecionar.

Um namorado para não passar o dia dos namorados sozinha? Tive alguns namorados e sempre passei esse maldito dia sozinha. Não é algo que me incomode, de verdade. Quer dizer, eu não comemoro nem Natal, por que raios comemoraria o dia dos namorados? Pra dizer que alguém me quis?! Eu posso ser querida pelas pessoas em várias formas - depende do meu desejo, das minhas ações. Não preciso namorar para me sentir querida por pessoas legais.

Um namorado para me dar presentes legais? Cara, aí está um ponto que me irrita profundamente. Até nem tenho problemas em ganhar presentes de amigos, mas de namorado? É um baita problema aqui dentro. Por quê? Simples: um dia a relação vai acabar - amigo, tudo acaba nessa vida; o que não acaba em separação acaba em morte - e é um saco não saber o que fazer com aquele monte de presentes ganhos de um ser nem tão mais amado assim.

Namorar para exibir a vítima pra os parentes quando perguntarem aquele irritante "e os namorados?"? Não, nem pra isso compensa. Perceba: família + namorado = desastre. Assim que eu tiver respondido com um "então, é esse ser masoquista aqui que resolveu encarar a loucura que é me namorar" o pessoal começará a perguntar "pra quando é o casamento?", "será que dará em algo?", "a relação tem futuro?", "segura o bebê e já vai treinando, guria". Não rola, simplesmente não.

Namorar para estar com alguém legal e que me goste? Mas eu tenho pessoas legais e que me gostam que estão comigo: amigos e família. Perceba: não preciso me agarrar loucamente nas pessoas para mostrar que gosto delas, e amo profundamente meus amigos. Solidão não é meu problema, nem de longe.

Namorar para evitar assédios inconvenientes no fb da vida? Cara, essa seria uma vantagem: colocar o status de "relacionamento sério" no perfil evitaria muitos babacas azucrinando minha existência. Mas do que adiantaria fazer isso para me livrar de babacas se você também é um tipo de babaca - num outro nível, é verdade, mas ainda assim é um babaca - e provavelmente eu iria terminar contigo por isso? Nem isso compensa, amigo. Fora que eu gosto de ser paquerada. A paquera é a parte mais legal de qualquer relacionamento: ela determina quem fica e quem vai - e por "quem fica" quero dizer "quem vira amigo" - porque a maior parte dos meus amigos são paqueras que deram muito certo, afinal, conquistaram um lugar especial na minha vida maluca.

Se eu sou contra namoros e me tornei uma pessoa seca e fria? De forma alguma. Sou uma guria que - ainda - acredita em amor e em ser profundamente amada por um tempo. Um ser quase romântico. Namorar alguém legal é tri divertido e por um certo tempo eu quis muito isso. Mas sabe como é, quando um cara me diz que não é um bom namorado, eu acredito. E quando eu consigo fazer uma lista de motivos para ficar sozinha e não acho um só motivo para estar acompanhada neste momento, é sinal de que você simplesmente não vale a pena nesse quesito, filhote.
(e agora que eu desisti de vez de romances por este ano, aparecerá um cara tri legal e cujas circunstâncias sejam favoráveis só para me quebrar o bico, querem ver? ironia rege minha vida.)
~David Tennant abençoa este post~

I think I made you up inside my head

The Bell Jar 
Sylvia Plath 
Editora Harper Perennial 
244 páginas 
Ano de publicação: 1963 

Sobre o que é: uma garota chamada Esther consegue um estágio dos sonhos durante o verão: numa revista em New York para trabalhar diretamente com a editora, indo à festas, comendo maravilhosamente bem e ganhando roupas e maquiagens para ficar auxiliando e aprendendo o trabalho de jornalista numa grande revista feminina. Tudo parecia estar bem, até que lentamente Esther se dá conta de que não, nada está bem, as coisas não poderiam estar piores. E daí por diante as coisas degringolam de uma forma absurda e assustadora. 

Por que ele é bom? É até difícil dizer que um livro desses é bom quando se conhece a história da autora, Sylvia Plath. Esse é um romance semi-autobiográfico, ou seja: Sylvia criou a personagem Esther baseada em si mesma e a história contada segue a sua própria, mudando uma coisa ali e acolá. 

Um sentimento de ternura encheu meu coração. Minha heroína seria eu mesma, apenas disfarçada. (p. 120) 

É um livro sobre uma garota que lentamente se descobre com depressão. Ele começa leve, como todos os romances jovens, e vai afundando, afundando, afundando aos pouquinhos, tão aos poucos que o leitor mal percebe o que há de errado com Esther e só se dá conta quando a coisa está realmente escancarada. Assim como na vida real: os sintomas da depressão são tão sutis que muitas vezes apenas após uma grande crise estrondosa é que vamos nos dar conta da presença dela. 

Esther tinha tudo para estar feliz: uma bolsa de estudos numa faculdade de elite, um estágio numa revista feminina superfamosa, planos de ser uma correspondente de guerra, virar uma escritora, escrever sobre suas experiências... Era mega aplicada, uma aluna excelente, ia à festas, se vestia bem, era bonita, tinha um namorado... E mesmo assim se descobriu sem ânimo para absolutamente nada. 

I felt very low. I had been unmasked only that morning by Jay Cee herself and I felt now that all the uncomfortable suspicions I had about myself were coming true, and I couldn't hide the truth much longer. After nineteen years of running after good marks and prizes and grants of one sort and another, I was letting up, slowing down, dropping clean out of the race. (p. 29) 

A redoma de vidro é um livro extremamente delicado, numa progressão densa, tensa, porém muito bem escrito - tão bem escrito que consegui lê-lo em inglês sem problema algum. 

Por que ele é ruim? Não é. Ponto. Ao menos não no ponto de vista estético. O problema é que: a gente sabe que a Sylvia Plath teve uma vida BEM ferrada, se matou logo após escrever esse livro, inclusive e essa é uma obra semi-autobiográfica. OU SEJA: é triste.


Se eu recomendo a leitura? SIM, MAS É CLARO QUE SIM, porém talvez não agora. Porque, veja bem, se você estiver meio down, numa vibe não há esperanças para a humanidade, não toque no livro. Sério. Porque você vai ficar mal pra caramba e isso não será nada legal. Você se pegará chorando no ônibus lotado e as pessoas vão ficar lhe perguntando o que diabos está acontecendo em sua vida o que há de errado. Sério. Baseado em fatos reais. 

Em um quote: 
Eu queria dizer pra ela que se apenas houvesse algo errado com o meu corpo seria bom, eu preferiria ter qualquer coisa errada com o meu corpo do que com a minha cabeça, mas a ideia parecia tão complexa e cansativa que eu não disse nada. Só me enterrei ainda mais pra baixo na cama. (p. 182) 

Este post faz parte do Desafio 50 livros de 1900 para ler antes de morrerConfira aqui a lista com todos os títulos que pretendo ler até agosto deste ano. \o/   

"Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)"