O amor em tempos líquidos

Cada vez mais tenho superado pessoas com facilidade. 
Há 3 anos, quando me separei do meu ex-noivo fiquei 3 meses trancada em casa, com crise de depressão, chorando todos os dias e emagrecendo horrores por não conseguir nem ao menos comer direito. Já no término com meu ex-namorado mais recente o luto pelo relacionamento durou apenas 3 semanas. Chorei por 3 semanas e depois sequei. Nem mais uma lágrima sequer. Desde então já me apaixonei algumas vezes: foi um apaixona-desapaixona em questão de semanas. 3 semanas de paixão e 2 dias para lamentação. 

Eu não quero ser essa pessoa insensível que supera outras sem qualquer dificuldade. Não acho que o amor deve fazer sofrer, mas se não for pra sentir algo que mexa comigo, com as minhas estruturas, com todo o meu ser, que me deixe, sim, fortemente abalada por algum tempo, então pra quê sentir? Como disse Zambra em Bonsai: 

Qual é o propósito de estar com alguém se ele não muda sua vida? Ela disse isso, e Julio estava presente quando disse: que a vida só tinha propósito se você achasse alguém que mudasse, que destruísse sua vida. 

Não há sentido em se apaixonar se não for para realmente sentir algo a mais, algo diferente, algo que te modifique, te toque, te faça experienciar a vida de uma forma diferente. Não há sentido em ser apenas um corpo, em tratar o outro como apenas mais uma boca, um abraço, um colo. 

Não sinto falta do meu ex. Sequer sinto falta de ter um namorado especificamente. Mas sinto falta da intimidade. De chegar em casa e ter com quem conversar abertamente sobre o meu dia. De saber que a pessoa não vai sumir por mais que eu esteja dramática ou passando por uma situação difícil. 

Tem sido cada vez mais complicado encontrar pessoas que realmente se importem. Mas talvez eu também não esteja me importando. 

Tenho medo de me tornar uma pessoa seca, dura, feita de pedra, que não apenas não sabe amar ou não se permite apaixonar como também não saberá reconhecer quando o sentimento for recíproco simplesmente porque o mundo é líquido, as relações se liquefazem e tudo se desfaz, escorre em cerca de segundos, minutos, dois dias no máximo. 

Não quero ser quem eu tenho sido.

~I want to be devastated. Cadê o Ted Mosby que habita em mim?~

Vamos definir prioridades

Eu não procuro um amor.

Mas se um amor me encontrar que seja alguém com quem eu possa discutir o existencialismo de Sartre na cama. Quero poder falar de igual pra igual sobre a obra de Camus, sobre a visão da mulher de acordo com Simone de Beauvoir, sobre marxismo e luta de classes enquanto tomamos café da manhã. Quero poder conversar sobre viagens no tempo, física quântica, Doctor Who e clássicos das teorias de conspiração, como Eram os Deuses Astronautas? sem ser considerada maluca por isso. Colocar Mozart pra tocar a todo o volume aos domingos sem ter de ouvir suspiros profundos de mau humor canceriano pela casa, a lamentar por não poder ver um programa qualquer na tevê.

Não pode andar comigo no recreio quem não aceita minha maluquice. Aliás, não apenas aceita: precisa adorá-la. Rir junto da minha risada escandalosamente alta, não morrer de vergonha cada vez que eu começar a filosofar sobre os porquês da vida ou o que aconteceria se o ônibus mudasse de rota e nos levasse para o inferno enquanto toca Highway to Hell.

Certamente o cara não pode ser do tipo que quer mudar a mulher: se tem uma coisa que não faço é mudar por homem. E também JAMAIS aceitarei que tente atrapalhar meus estudos. Me alimentar de conhecimento é o grande amor da minha vida e o homem que se dispuser a concorrer ao cargo de good-old fashioned lover boy terá de aceitar que não há critérios de competição: livros são minha paixão primordial, ponto.

Aceitar minha individualidade; não apenas me deixar crescer, mas crescer junto de mim. Não encher o saco e me jogar na cara todo o meu drama quando eu estiver mal por conta de um dos trocentos traumas que carrego na alma, mas apenas silenciar e me dar um ombro pra deitar por uma meia hora: depois passa. Tudo passa.

Se um amor me encontrar que seja paciente, bonito, poético, delicado e firme.
Não quero nada menos do que eu. 

~se não for pra ser esquisito junto de mim, nem apareça~

Amanhã: termina hoje

Número Zero
Umberto Eco
Editora Record
207 páginas
Ano de publicação: 2015
Sobre o que é: um cara chamado Colonna, mas que se chama interiormente de perdedor, aos 50 anos nas costas e muitos fracassos no currículo é chamado para um trabalho estranho: fingir ser co-editor de um jornal-teste (que talvez saia, talvez não, dentro de um ano; sendo que deveriam ser produzidos 12 números zeros para o Comendador, o grande cara anônimo por trás do jornal) e, ao mesmo tempo, ser ghost-writer de uma autobiografia sobre o editor do suposto jornal. A equipe de jornalistas é composta por 6 membros: 5 homens e 1 mulher, fora o próprio Colonna e o editor. Esse projeto de jornal, chamado de Amanhã, tem por objetivo apenas fazer escândalo e suposições que possam arruinar a vida das pessoas, ou seja: o pior tipo de jornalismo possível. Porém, algo acontece que deixa Colonna numa situação de fuga e paranoia incompreensível.

Por que ele é bom? Porque ele te ensina a como NÃO ser um jornalista. No tal do jornal Amanhã só tem pauta dozinfernos, pra esculhambar com todo mundo fazendo uso do pior jornalismo possível: o de sutilezas, do disse-mas-não-disse, do "ninguém pode me processar porque eu nada disse e não sou responsável pelo que as pessoas entendem". OU SEJA: Umberto Eco fez uma crítica aos jornais e aos veículos de comunicação em geral.

Percebam que hoje, para contra-atacar uma acusação não é necessário provar o contrário, basta deslegitimar o acusador. (p. 57) 

Fora que é uma leitura bem rápida: eu o li em apenas uma tarde. Não tem como não se envolver na história e querer saber seu desfecho e seus porquês - afinal, ela começa com um mistério que só será resolvido faltando cerca de 15 páginas para o final do livro.

Por que ele é ruim? Não é ruim, mas falta profundidade. Em comparação com outros livros do Eco, este é bem fraquinho. Okay, a crítica ao jornalismo é bem compreendida, mas falta algo.

Isso sem falar que: a história se passa em 1992 e sabemos que se hoje em dia o machismo é algo ainda presente, naqueles tempos era ainda mais. Acontece que uma das personagens do livro é uma jornalista chamada Maia - a única mulher, na verdade - e ela sofre machismo de todos os lados a todo instante. Isso é bem incomodativo. Mas entendi que Eco escreveu a história justamente assim para fazer crítica.

Se eu recomendo a leitura? Sim, não poderia deixar de recomendá-la. É um livro fácil de ser lido, envolvente e que vai te fazer questionar a mídia e seus critérios do que é notícia e até que ponto somos manipulados pela mesma. Mas não é um livro que vai mudar a tua vida: contudo, sendo do Eco sempre vale a pena. ♥
Em um quote:
Estamos vacinados, seja qual for a história nova que nos contem, vamos dizer que já ouvimos coisa pior, e que talvez essa e as outras sejam falsas. (p. 204) 

Cíclica

Hoje chorei durante todo o caminho para a faculdade. Chorei por meu país, chorei pelo futuro de meus amigos, chorei pela incerteza que me espera na esquina. Com o golpe legitimado não há como saber se conseguiremos nos formar, se os programas estudantis como ProUni e Fies continuarão a existir. Não sabemos sequer se seremos atacados na rua apenas por sermos jovens. 

Pode parecer exagero, mas não é. Ontem, quando me encaminhava para a CCMQ a fim de fazer um trabalho fotográfico para o jornal em que trabalho me vi, repentinamente, em meio a algo terrível: cerca de 10 PMs correndo, surgindo do mais absoluto nada, sacudindo jovens que estavam apenas conversando na praça, revistando a todos, intimidando. Me olharam: "o que tu tá fazendo aqui? pra onde tu vai? o que tem na bolsa? é protesto?", e eu, uma jovem estudante de Jornalismo, tive de explicar que estava com a câmera na bolsa porque trabalho como fotógrafa e estava apenas em minha jornada diária, moço, não estou protestando. 

Mas queria estar. 

Queria, porque essa cena me lembrou exatamente tudo o que meus pais sempre disseram da ditadura: que, quando jovens, tinham de dar explicações para os homens da lei sempre que passavam por certas ruas da cidade. Há quem diga que tudo isso é exagero, que não estamos num golpe, que é tudo legitimado pela Constituição. Será? Não é o que parece. 

Ainda ontem um grupo que estava protestando contra o Temer na Cidade Baixa (Porto Alegre, o bairro dos poetas, dos bêbados e da juventude que está tentando se encontrar) foi violentamente reprimido pela polícia. Uma colega do jornal que lá estava fotografando relatou que houve, inclusive, bombas de gás lacrimogêneo. E aí, não poderemos protestar? Não poderemos sair nas ruas mais? Não poderemos nem ao menos cumprir nosso dever como jornalistas e registrar este infeliz momento histórico pelo qual o Brasil está passando? 

Portanto, choro. 
Choro porque não sei o que nos resta. Choro porque meio século após o início de uma ditadura, já se pode sentir os pútridos ares de outra. Choro porque o povo sofre, mas não perde a poesia, não perde a candura, não perde o samba, não perde a esperança. Choro porque me sinto, profundamente, brasileira. 

~Elis e os grandes artistas deste nosso Brasil ainda, infelizmente, nos representam~

Filhadaputagem

Eu tenho uma política de não-arrependimento na minha vida. Acredito firmemente que se fiz algo em algum ponto é porque tive boas razões para fazê-lo, por pior que aquilo fosse. Sendo assim, não me arrependo porque mesmo que quebre a cara de maneiras fantásticas e inovadoras - acontece sempre -, tudo contribui pra meu crescimento e processo de aprendizagem. 

Otimista, eu. 

Só que tem dias em que até eu me surpreendo com o tanto com que posso ter vergonha de algo sem chegar perto de um arrependimento. 

Eu demoro a errar. Sou aquele tipo de pessoa correta de forma quase irritante - não vou fazer algo que sei que te atingirá de alguma forma porque penso nas consequências e sou legal. E é justamente por isso que é sempre muito louco quando eu alopro um dia - uma vez ao ano, mais ou menos - e faço um erro épico. 

Tô aqui me perguntando como pude, nos últimos dias, fazer tanta filhadaputagem e não me arrepender de nenhuma, apesar de sentir profunda vergonha de todas.

Vou reunir todos os envolvidos num salão, me desculpar publicamente e sumir por uns 6 meses ou até passarem os danos e vergonhas alheias e próprias.


versos sem rimas, coração sem coesão

Tão assustada fiquei
Quando teus olhos
Encontrei.
Tuas palavras
Mudas
Nulas
Puras
Tímidas.

Teu esconderijo me assustou
Teu tom de voz, tão ameno, tão
m a l e m o l e n t e
Fez saírem
de mim
doçuras
que estão
me
dando
diabetes. 
 
Wink .187 tons de frio.