Não sirvo pra bruxa

Só quero dizer que achei meu propósito no mundo e este é um momento muito emocionante para mim. 


Por que será que essa coisa de atrair a morte não me espanta nem um pouco, não é mesmo?! Poderia culpar o stellium em escorpião ou poderia admitir que sou apenas desastrada e só não morri ainda de teimosa. Mas vamos todos lembrar que minha forma de ação é medir a água universal com a minha lua auto-existente vermelha na vibe do 69, hein. Muito importante deixar isso anotado em caso de piripaque mental. 

É por conta desse tipo de coisa que não consigo seguir religião alguma. As pessoas, elas viajam loucamente - e conseguem me deixar absorta no processo. 


Mesma coisa ocorre quando vejo alguém tendo medo de espelhos. NÃO LIDO COM ISSO. 

Eu tenho uma amiga da Wicca - ou seja, bruxa; de verdade - e um dia ela veio dormir aqui em casa. No meu quarto tenho dois espelhos gigantes virados diretamente pra minha cama - narcisista, eu? IMAGINA. A guria cavocou todo o meu armário até achar algum pano - no caso, uma manta - com o qual pudesse tapar meus espelhos porque DEUZÔLIVRE DORMIR COM ESPELHO NA CARA, MIA, SUA LOUCA, ESPELHOS SÃO PORTAIS PRA OUTRA DIMENSÃO E OS ESPÍRITOS VÊM TE ATORMENTAR E TE PRENDER DURANTE O SONO E AÍ TU ENTRA EM COMA, BLABLABLA. 

Não ouvi o resto porque o som da minha própria gargalhada foi mais alto. 


Até hoje não encontrei sequer uma religião com a qual verdadeiramente me identifique porque: gente, eu acho tudo muito engraçado. Super gosto do paganismo, acho o espiritismo maravilhoso, concordo em muitos pontos com a Wicca, mas não consigo seguir nada disso porque a pessoa me diz que tenho de fazer ritual x pra que y ocorra e eu começo a dar risada, já que acho tudo muito divertido e não acredito em rituais, que o fará no sobrenatural: pra mim, tudo é natural, porém em níveis diferentes. 

Mas é aquilo: se funciona pra ti, que bom, fico feliz. 
Só que eu nasci com esse gene do ignosticismo (sim, não é agnosticismo; usa o titio google e dá uma procurada aí, é bem legal) e não consigo lidar com coisas que não fazem sentido na minha mente. SORRY NOT SORRY. 

Sou a crédula mais cética que conheço. 

Queria adotar a Baleia

Vidas Secas
Graciliano Ramos
Editora Record
128 páginas
Ano de publicação: 1938 
Sobre o que é: uma família de retirantes tenta fugir da seca nordestina e caminha de um canto a outro procurando um lugar para ficar onde haja água e alimento. Fabiano, Sinha Vitória, O Menino Mais Velho, O Menino Mais Novo e a cachorra Baleia nos representam uma das histórias mais antigas do povo brasileiro: a da luta pela sobrevivência e a tentativa de ser feliz apesar dos pesares. A sequidão do Nordeste também é mostrada através das personagens: secas, brutas, duras. 

Por que ele é bom? O que Graciliano fez é simplesmente genial: o cara pegou uma história comum, a história do sertanejo pobre, e a transformou numa narrativa comovente e seca. SIM, HÁ REDUNDÂNCIAS, E É PRA TER MESMO. A ideia é justamente esta: passar a impressão do título pras frases. A escrita do cara não tem eufemismos: é o que é. 

Na contracapa da minha edição há uma citação do próprio autor que explica bem isso: 
Deve-se escrever da mesma maneira como as lavadeiras lá de Alagoas fazem seu ofício. Elas começam com uma primeira lavada, molham a roupa suja na beira da lagoa ou do riacho, torcem o pano, molham-no novamente, voltam a torcer. Colocam o anil, ensaboam e torcem uma, duas vezes. Depois enxáguam, dão mais uma molhada, agora jogando a água com a mão. Batem o pano na laje ou na pedra limpa, e dão mais uma torcida e mais outra, torcem até não pingar do pano uma só gota. Somente depois de feito tudo isso é que elas dependuram a roupa lavada na corda ou no varal, para secar. Pois quem se mete a escrever devia fazer a mesma coisa. A palavra não foi feita para enfeitar, brilhar como ouro falso; a palavra foi feita para dizer. 
É exatamente isso o que ele faz: torce, torce, torce até não haver mais enfeites, apenas a verdade relatada. E isso quebra o coração de qualquer leitor. 

Fora o fato de que: tem uma crítica social incrivelmente bem construída nesse livro. Fabiano é duro, não sabe se comunicar direito, não recebeu boa educação e, por conta disso, é explorado de diversas maneiras. Assim como sua mulher, Sinha Vitória, cujo sonho é apenas ter uma cama. UMA CAMA!!!! Quando você lê isso é impossível não parar para pensar no quão privilegiados somos por desfrutarmos de coisas tão ínfimas, mas que muitas pessoas não possuem. 

Por que ele é ruim? Ele não é ruim. Mas a escrita é pesada, extremamente direta e, por conta disso, apesar de ser um livro pequeno, de 128 páginas, eu demorei meses pra lê-lo. Lia um capítulo e me deprimia por dias. ESPECIALMENTE NO CAPÍTULO DA BALEIA. Nossa, quantas lagriminhas naquele capítulo! Porque a Baleia é a cachorrinha da família e SPOILER não é bem spoiler, mas SPOILER ALERT num determinado capítulo ela morre - a morte não é spoiler, gente, porque o importante nesse livro é a crítica social do autor e não os acontecimentos em si. CABÔ O SPOILER O senhor Graciliano teve a sensibilidade de escrever tal capítulo sob o ponto da vista da Baleia e isso quebrou meu coração de tantas formas diferentes que, nossa, foi difícil superar. 

~eu após ler o capítulo da Baleia~ 

Se eu recomendo a leitura? Cês ainda têm alguma dúvida a esse respeito? Corram até a biblioteca ou livraria mais próxima e VÃO LER ESSE LIVRINHO. It will kill your hopes and dreams, mas terá valido a pena. 
Em um quote:
Tinha obrigação de trabalhar para os outros, naturalmente, conhecia o seu lugar. Bem. Nascera com esse destino, ninguém tinha culpa de ele haver nascido com um destino ruim. Que fazer? Podia mudar a sorte? Se lhe dissessem que era possível melhorar de situação, espantar-se-ia. Tinha vindo ao mundo para amansar brabo, curar feridas com rezas, consertar cercas de inverno a verão. Era sina. O pai vivera assim, o avô também. E para trás não existia família. Cortar mandacaru, ensebar látegos - aquilo estava no sangue. Conformava-se, não pretendia mais nada. Se lhe dessem o que era dele, estava certo. Não davam. Era um desgraçado, era como um cachorro, só recebia ossos. Por que seria que os homens ricos ainda lhe tomavam uma parte dos ossos? Fazia até nojo pessoas importantes se ocuparem com semelhantes porcarias. (p. 97) 

Este post faz parte do Desafio 50 livros de 1900 para ler antes de morrerConfira aqui a lista com todos os títulos que lerei até sabe-se lá quando. \o/   

Alminha livre com assuntos pendentes

Tudo começou quando eu decidi que sairia do núcleo de fotografia e iria para o impresso. Isso aconteceria mais cedo ou mais tarde porque HELLO, MIA FOTÓGRAFA? Okay, eu tiro umas fotos legais, mas meu negócio é a escrita e todo mundo sabe disso.

Guarde esta informação: o pessoal da foto tem um mural maravilhoso em que escrevem o que será feito durante a semana, assim como lá também tem os bonequinhos desenhados de cada pessoa do núcleo.

Estava eu na sala de redação do impresso, minding my own business, fazendo pesquisa pra uma matéria que escreverei sobre o machismo no mundo nerd, quando um rapaz entra e diz: 
— Mia, por que tem uma cruz no teu nome lá na foto? 
Ao que eu, muito espirituosa e completamente perdida, respondo: 
— Ah, então, é que eu morri, mas ainda tenho assuntos pendentes aqui no impresso. Meu corpo já foi enterrado. Isto aqui que tu tá vendo não é a Mia de verdade, mas apenas seu espírito. 

PRA QUE FUI DIZER ISSO, é o que me perguntei horas depois. 

Mas tá, vida que segue. 
Fui, então, lá na sala do núcleo de foto pra saber do que diabos o guri tava falando. E me deparei com isto: 

"amigos para sempre" # Mia morta 

CLARAMENTE HOUVE MUITA MÁGOA NO CORAÇÃOZINHO PRA FAZER ISSO, HEIN. 

Mas tudo bem. Vi a cruzinha no meu nome, achei graça, rimos muito, tirei uma foto pra posteridade - foto post mortem, quem curte - e fui pra casa. 

No outro dia, após a aula pela manhã, eu tinha um encontro (hello, sociologuinho ♥). Então estava eu no banheiro, sozinha, me encarando no espelho e perguntando "será que estou muito pálida? será que devo colocar uma maquiagem? será que assustarei as pessoas na rua e à criatura maluca que está saindo comigo?". Como podemos observar, questões muito relevantes para uma garota de 16 anos - OPA, ESQUECEMOS DO DETALHE DE QUE TENHO 22. Mas aí eu acho que é só detalhe mesmo. 

Pois bem. Estava eu em minhas reflexões enquanto encarava o espelho e o espelho me encarava quando, DO MAIS ABSOLUTO NADA, entrou uma mulher aleatória no banheiro e gritou.

— AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAH

Gritou mais um pouco.
E mais.
E continuou gritando.

Deu a volta em minha pessoa, me olhava e gritava enlouquecidamente. Até que conseguiu dizer algo em meio a tanta gritaria:

— UMA ASSOMBRAÇÃO, SOCORRO!


Eu, que estava achando tudo aquilo um sinal do divino para passar maquiagem, comecei a gargalhar. PRA QUÊ. A mulher surtou mais ainda e falava a plenos pulmões, agora apontando para mim:

— MELDELS, ELA AINDA FALA! VÁ PARA A LUZ, ALMA PENADA! TU NÃO PERTENCE MAIS A ESTE PLANO, ESPÍRITO! TU JÁ MORREU! VÁ PARA A LUZ!

~Whoopi Goldberg veio te avisar, filha~

Eu não conseguia parar de rir. Aquilo era simplesmente surreal demais para ser verdade. A mulher já tava mais branca do que eu e, após algum tempo, consegui convencê-la de que:

— Senhora, eu estou viva, senhora. Olha só, senhora, não sou um espírito, não.
— MELDELS, ME DESCULPA, NOSSA, QUE MICO.
— Tá tudo bem, senhora, essas coisas acontecem. (fala sério, eu daria uma ótima atendente de telemarketing, hein. elegância e profissionalismo, trabalhamos.)
— Mas tu também, hein! Fica aí, parada, sozinha nesse andar, pálida e AINDA POR CIMA DE VERMELHO!

E saiu gargalhando, subitamente, da mesma forma como entrou.

As pessoas, elas estão cada dia mais loucas.

Mas convenhamos que: pós-morte desgraçado esse, hein. Além de morrer também fiquei eternamente vagando pelos corredores (e banheiros) da faculdade, tentando melhorar minhas notas e assustando senhorinhas durante os intervalos. 

Por que eu não lido com filmes românticos

Inventei de ver When Harry Met Sally (1989) e saí com a sensação de que tinha alguma coisa de errada naquele amor todo.

Harry & Sally: claramente não feitos um para o outro. Sally um dia dá carona até New York para Harry, um carinha egocêntrico, com complexo de Schopenhauer que, mesmo pegando uma amiga dela, dá em cima dela descaradamente ao que ela, muito educada, responde que poderiam ser amigos. O cara fica chateadão e aplica a moral falida de que men and women can't be friends because the sex part always gets in the way. Sally segue seu caminho e não dá mais papo pra aquele homem escroto. 10 anos e duas separações depois, eles se reencontram e aí rola uma amizade, coisa que o babaca do Harry disse que não seria possível jamais, e tudo está bem: eles cantam músicas constrangedoras em público, assistem a filmes e comem bobagens juntos. Até que um dia, quando Sally descobre que seu ex vai casar e fica fragilizada, Harry vai na casa dela e eles acabam indo pra cama. Isso não poderá acabar bem, é o que você, eu e todos nós pensamos. E não acaba mesmo. A não ser na mente maluca do roteirista que total forçou um amor romântico entre os dois e fez com que a Sally cedesse às investidas do Harry, mesmo após ela ter dito trocentas vezes que apenas não, porque ele é babaca. Aí rola o """"amor"""". Fim.

Basicamente a história de como se pode arruinar uma amizade com sexo. Ou de como os homens são babacas mesmo, não dá pra negar isso.

Os Harrys da vida, eles existem em mais quantidade do que podemos pensar. É o tipo de cara que é rejeitado, mas nunca deixa o ego ser ferido. Dá um tempo, vai insistindo, insistindo, insistindo até conseguir o que quer e dizer it was a big mistake, let's be just friends, sumir por semanas pra depois se "dar conta" de que ninguém mais vai aturá-lo a não ser aquela garota bacana que o aturou como amigo e que o achou suportável a ponto de ir pra cama com ele. Aí ele dá a louca e começa a persegui-la incessantemente.

O problema do filme é que a Sally foi escrita para ceder. Foi escrita como uma mulher que tá lá, ouvindo o tal do "relógio biológico", e meio que se convence de que ama o tal do Harry. Só que não, né.

É por isso que eu não gosto de comédias românticas. 
Os filmes deturpam o sentido de romance.
E fazem com que as mulheres pareçam umas desesperadas por carinho e atenção de qualquer pinto que seja, mesmo que for o cara mais escroto num raio de 450 quilômetros. 

~the fucking angel of death and arrogance~ 

Incrivelmente, gostei do filme. Deu pra dar umas risadas - se bem que QUALQUER FILME me faria rir após ver Misery. Riria até com Donnie Darko àquelas alturas. 

Mas também tem aquela questão de que todo mundo se derrete porque o Harry, pra conquistar a Sally, diz que when you realize you want to spend the rest of your life with somebody, you want the rest of your life to start as soon as possible. E né, problemático. POR QUE ESSA OBSESSÃO COM O RESTO DA VIDA? Não basta a vida presente? Cê não tem o passado: ele já foi, já passou, já escoou, você não o tem mais. Cê não tem o futuro: pode ter uma perspectiva de algo, uma vontade, um desejo, uma garrafa de guaraná te esperando em casa quando você está no ônibus morrendo de sede e se perguntando o sentido de sua existência enquanto um cara suado te esmaga contra a janela. Cê tem apenas o presente, o que está sendo vivido neste momento. Se ele é uma droga, mude isso. Mas não coloque todo o resto da sua vida em concordância com a expectativa que você tem quanto a outras pessoas. Isso não é apenas egoísta como muito, muito estúpido. 

Isso pra nem dizer que ainda há diálogos totalmente naquele esqueminha masculino de colocar as outras mulheres pra baixo apenas para levantar outras. 

Harry: There are two kinds of women: high maintenance and low maintenance.
Sally: Which one am I?
Harry: You're the worst kind; you're high maintenance but you think you're low maintenance.
Sally: I don't see that.
Harry: You don't see that? Waiter, I'll begin with a house salad, but I don't want the regular dressing. I'll have the balsamic vinegar and oil, but on the side. And then the salmon with the mustard sauce, but I want the mustard sauce on the side. "On the side" is a very big thing for you. 

HIGH MAINTENANCE O RETO DO INDIVÍDUO (como sou polida, risos).
Vamo avisar pra o querido que isso NON ECSISTE? O que existe é gente que gosta da pessoa e gente que não gosta. Gente que gosta da mulher em questão e gente que só tá ali com o objetivo de meter coisas em buracos - porque essa é a visão que a maior parte dos homens têm da maioria das mulheres. 

Mas a ceninha do orgasmo fake, ela vale o filme todo. ♥ 


Harry insiste que é o pica das galáxias e fez todas as mulheres com quem foi pra cama gozarem, sendo que nenhuma fingiu um orgasmo pra não ferir o frágil ego dele. Sally, então, dá uma lição prática da coisa. ♥ 
DEIXA 
COM 
CARA 
DE 
UVA 
PASSA 
♥ 

~apenas~

Por isso, não dá pra ser feliz com comédias românticas - ou romances propriamente ditos. Enquanto mostrarem mulheres descobrindo um "amor" apenas por cansaço, por insistência abusiva do cara ou por carência porque o ex tá com outra, não conseguirei gostar realmente de um filme desses ou, de fato, assisti-lo sem ficar problematizando a coisa a cada cena. Se fizeram isso até em Mulan (vamos lembrar que o cara só fica a fim dela porque ela age "como homem"?), que o fará com o resto dos romancezinhos por aí. 

O dia em que representarem DE VERDADE a dinâmica de um romance sem estereotipar a mulher, me chamem. Até lá, me deixem com meus filmes de sci-fi.

Em um gif:

 
Wink .187 tons de frio.