Não vai acontecer aqui

Não vai acontecer aqui
Sinclair Lewis
406 páginas
Alfaguara
Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: lá nos Estados Unidos dos anos 30 um cara fascista, racista, antissemita, misógino, mas com uma baita campanha de marketing se candidata à presidência e acaba ganhando. Só que, nessa de se candidatar, ganhar e exercer o poder, tem muita gente que não acredita que ele permaneceria muito tempo no comando, afinal "isso não pode acontecer aqui na América, nós somos muito civilizados pra esse tipo de coisa". Uma dessas pessoas é o jornalista, editor de um jornal em uma cidadezinha, Doremus Jessup. A gente acompanha a descrença dele o tempo todo, mesmo perante as maiores atrocidades cometida por esse governo ditador, até que certos fatos obrigam Jessup a agir. 

Por que ele é bom? Eu vou falar a mesma coisa aqui que falei na resenha de Admirável mundo novo: ele é bom, mas não parece. Digo isso porque as primeiras cem páginas são extremamente chatas, cheias de descrições de comícios eleitorais e gente completamente sem noção alguma de como se faz política falando bobagens e apoiando Buzz Windrip, esse candidato horroroso à presidência. 

Mas continue firme, porque o livro melhora. Muito. 

Não vai acontecer aqui é um desses livros que estavam completamente esquecidos, mas do qual o povo começou a lembrar com essa onda de direita que tem tomado conta do mundo, mais especificamente dos Estados Unidos com o Trump no poder do país. Há quem diga que esse é um livro profético porque o candidato que ganha as eleições, o Buzz, é basicamente um Trump dos anos 30. O discurso de fazer a América grande novamente é bem parecido, assim como os valores e as medidas tomadas (e a burrice, pra não mencionar a grande burrice que ambos têm, mas enfim). Eu entendo por que as pessoas fizeram esse paralelo, mas realmente acho que não é o caso. Infelizmente, desde que a gente tem um sistema mais ou menos livre, sempre há épocas em que a extrema-direita toma conta porque o povo novamente esquece o quão terrível isso pode ser. Mas ideologias políticas à parte, vamos falar do livro. 

A história, ao contrário do que muitos dizem, não é a da ascensão e queda do Buzz Windrip nem como um presidente falastrão e fascista conseguiu ganhar nos EUA. Não, nada disso. Claro que há tudo isso no plano de fundo, mas a história mesmo é a de Doremus Jessup e como gente normal e relativamente esclarecida consegue viver em uma ditadura. 

Já digo: não é fácil. 

Doremus se ferra loucamente, mas não mais do que milhares de outras pessoas no livro. Nisso ele é bem parecido com 1984, que mostra como um homem comum sobrevive nessas condições. 

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Como o Doremus é jornalista, uma questão bastante abordada no livro é a censura que a imprensa sofre. Aliás, nem é mais censura porque o governo simplesmente virou DONO de todos os jornais, de todas as prensas, de todo o maquinário e manda pra o campo de concentração (sim, campo de concentração) o jornalista que se recusar a fazer o que eles querem. Não é porque eu estudo Jornalismo, mas isso é forte demais e obviamente me lembra a nossa própria ditadura aqui. Mas creio que isso não é diferente em ditadura alguma: governos totalitários sempre usam de medidas drásticas pra conseguirem o que querem, não importa o quê, e a mídia, por mais corrupta que possa ser, é um baita veículo - e eles precisam comandá-la se quiserem permanecer no poder. 

Mas o que realmente tem destaque pra mim no livro - e certamente é uma coisa que eu não esperava - é a atuação das mulheres contra esse governo horroroso do Windrip. Mulheres espiãs, mulheres que se unem a organizações secretas, mulheres que estão dispostas a ser estupradas (!) pra conseguir alguma informação. Não vou citar nomes pra não dar spoilers, mas não tem um monte delas no livro e são maravilhosas demais. Jamais esperaria que um cara daquela época teria escrito personagens femininas tão fortes e decididas quanto essas. Ponto pra você, Sinclair! 

"Mas, de qualquer jeito, filhos a gente não vai ter. Ah, claro que gosto de crianças! Queria ter uma dúzia desses diabinhos por perto. Mas se as pessoas foram moles a ponto de entregar o mundo de bandeja pras múmias empavonadas e pros ditadores, melhor não esperar uma uma mulher decente traga filhos pra esse manicômio! Ah, quanto mais a pessoa gosta mesmo de crianças, menos vai querer que nasçam, daqui pra frente!" 


É muito interessante também ver como várias personagens são gente boa, gente como a gente, e conseguem mesmo assim apoiar um governo desses realmente na esperança de que as coisas vão melhorar. Não é diferente da vida real, onde a gente encontra pessoas dentro da nossa própria família que são pessoas bacanas, mas que pra política são ingênuas a ponto de apoiar esses extremismos que só tiram os direitos dos outros e ferram com a vida dos mais pobres. O livro é bem realista nesse quesito. (E é meio triste perceber que esse livro foi escrito em 1935, mas que as coisas não mudaram tanto assim.) 

Por que ele é ruim? Sabe quando alguém tem uma ideia muito boa, mas não sabe exatamente como colocá-la em prática? Então, com o Sinclair Lewis foi mais ou menos isso. Ou talvez eu ache isso porque li o livro em 2017 e não sou acostumada com a literatura dos Estados Unidos de 1935, que era toda cheia de descrições intermináveis sem sentido algum. Pra mim, o problema do Sinclair é o mesmo problema que eu tenho com os livros do Stephen King: ambos demoram demais pra criar o ambiente pra só então começar a história. Eu demorei 16 dias pra lê-lo. E, sim, 16 dias pra mim é um tempo imenso. Em 16 dias eu leio uns 3 livros. Mas esse me tomou mais atenção na leitura (e eu também estava toda atrapalhada com o final de semestre, então vamos colocar isso na equação). 

Mas é aquilo: persistindo, o livro fica bom de verdade. É só ter um pouco de paciência com uma narrativa mais antiga e política, com a qual não estamos acostumados. 

Você vai gostar se... é chegado numa distopia, está curioso pra saber que diabos esse livro tem a ver com o que está acontecendo hoje em dia, gosta de ler histórias com temas políticos ou só quer ler mais um cara que venceu o Nobel de Literatura. 

Em um quote: 

Ele receava que a luta mundial do momento não fosse do comunismo contra o fascismo, mas da tolerância contra a intolerância. 

 ~livro recebido em parceria com a editora~

O temido e horroroso final de semestre

Ele chegou e na última semana só me fez ter literalmente dores de cabeça que não passam. Não, elas não passam. Nem com paracetamol. Nem com ibuprofeno. Nem com neosaldina. Um pessoal já me falou que é tudo psicológico, mas honestamente eu acho isso até um insulto porque é como se a pessoa me dissesse que "uau, você só sabe se autossabotar". O que é bem a minha cara, na verdade, e provavelmente quem disse isso está certíssimo, mas pulemos o assunto. 

As últimas semanas têm sido o inferno. Além do final de semestre, do stress pelos trabalhos mil e do calor infernal que tem feito, decidi parar de tomar o remédio que estava supostamente regulando meus hormônios, e agora estamos aqui, com muita mais raiva do que o normal e querendo que todo o universo exploda num caos feito de antimatéria. 

Bem alegre, como podemos perceber. 

Mas okay, porque eu pensava: "hm, as férias estão chegando, mais três semanas e eu vou poder descansar". Porém essa semana tive uns dias sem aula e consegui maratonar 3 séries, ler um livro, organizar minha estante e me dei conta de que bateu um vazio porque eu sou essa pessoa agitada e vou fazer tudo o que tiver pra ser feito em uma semana e ficar me lamentando pelo resto dos três meses de férias, querendo logo a rotina da faculdade de volta, mesmo sabendo que isso é horrível e causa altas crises de ansiedade. 

~Janet chorandinho sem saber como porque não tem sentimentos é a minha única vibe possível~

Preciso arranjar algum projeto que me mantenha ocupada nas férias ou senão vou pirar e virar, sei lá, serial killer porque só falta um comentário babaca pra eu sair por aí matando pessoas com uma machadinha. 

Esse projeto deveria ser o de emagrecer pra poder caber nas minhas roupas novamente, porém eu consegui uma bela lesão no joelho que a recém está se recuperando e não posso forçar muito. Claro que vou retomar o projeto, mas não vou poder fazer aquela intensidade de que preciso pra me sentir bem, que é tirar 2h da manhã pra correr por aí. Não dá mais. Então vou ter de colocar toda essa energia reprimida em alguma coisa porque ficar parada vendo série, filmes e lendo livros não vai durar nem um mês (porque vou acabar com todo o catálogo antes, cês vão ver). 

A vida da pessoa intensa é deveras muito difícil. Não há moderação que me segure. 

Socorro. 

Brida

Brida
Paulo Coelho
271 páginas
Paralela
Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: nos anos 80, enquanto viajava pra os Pirineus, o Mago encontrou Brida, uma mulher que havia iniciado seu caminho na bruxaria há algum tempo. Ela contou a história de sua iniciação pra ele, que pediu pra escrever um livro sobre. Brida aceitou, e agora temos um livro lindo sobre o caminho de uma mulher se descobrindo bruxa. 

Por que ele é bom? Eu nunca, nunca mesmo, vou entender por que diabos as pessoas não gostam dos livros do Mago. Quer dizer, tecnicamente até entendo, mas acho tão babaca que meu cérebro simplesmente não processa. Essa vibe de "eu sou intelectual, uma pessoa profunda e só leio Dostoiévski" é de uma chatice e pedantismo tão grande que só reviro os olhos e passo longe porque não sou obrigada. Mas, seja como for, eu gosto muito dos livros do Mago e estou 100% nem aí pra quem diz que é literatura lixo. A literatura é boa ou ruim dependendo de quem a lê. O que é bom pra mim pode ser horrível pra outra pessoa e temos de aceitar isso e não ficar empurrando goela abaixo das pessoas um cânone feito basicamente de livros antigões (nada contra, adoro clássicos, mas...) e com linguagem rebuscada só porque tem gente que despreza as gerações atuais. Sinceramente, viu. 

Dito isso: o livro é lindo. ♥ 

Recebi ele em parceria com a Companhia lá pelo Valks, onde também escrevo e, apesar de já ter escrito um texto sobre ele por lá, precisava escrever aqui também porque as linhas editoriais são diferentes e a linguagem muda completamente na hora de escrever. 

Brida é, como eu disse acima, a história de uma mulher se descobrindo bruxa. Como ela conheceu o Paulo Coelho lá pelos anos 80, calculo que a iniciação dela tenha começado no final dos anos 70. Brida era uma pessoa normal, gente como a gente, mas que buscava algo a mais, tentava entender o universo e já havia feito vários cursos na área do esoterismo, do ocultismo e blablabla, mas ainda não havia achado o seu caminho. Até que lhe mandaram pra um mago que vivia isoladão numa floresta, e lá ela aprendeu a primeira lição da magia de acordo com a Tradição do Sol: a noite escura. Ela ficou uma noite inteira sozinha, na floresta, e teve de lidar com seus medos e encarar a si mesma. Só depois disso ela estaria pronta pra aprender o resto. 

“Mergulhamos na Noite Escura com fé, cumprimos o que os antigos alquimistas chamavam de Lenda Pessoal e nos entregamos por inteiro a cada instante, sabendo que sempre existe uma Mão que nos guia: cabe a nós aceitá-la ou não.”

No livro, Paulo Coelho diz que há duas tradições básicas: a do Sol e a da Lua. Uma ensina pelas coisas básicas do universo (como ficar numa floresta, em meio à natureza), a outra ensina pelos mistérios do tempo, ou seja, pelo tarot e outras coisas do tipo, como regressão, pra que a pessoa descubra seu dom, perdido em outras vidas. 

O que eu mais gosto no livro é que dá pra ver que o Mago realmente se baseou numa história real. Pode ser que ele tenha inventado alguma coisa, não duvido, mas pelo que eu conheço dos caminhos da magia, é bem por aí mesmo. Particularmente eu não frequento esses caminhos porque não gosto de religiões, seja elas quais forem, mas acho bem bacana quem vai atrás do que acredita e conheço muitas pessoas que estão nesse caminho (seja lá em qual tradição) e o que elas falam que fazem é basicamente o que está no livro mesmo. 

Não vou dar muitos spoilers porque é uma história bonita de se ler e ir conhecendo aos poucos, mas posso dizer que vale a pena e que tem umas mensagens bem interessantes, não importa a sua religião. Até porque, pra mim, o livro não é sobre ~magia~, mas sim sobre descobrir a si mesma e ao seu lugar no mundo - o que é uma busca universal pela qual todos passamos. 

"Vivo desistindo de tudo que começo", pensou, com certa amargura. Talvez, em breve, a vida começasse a perceber isso e parasse de lhe dar as mesmas oportunidades que sempre lhe dera. Ou talvez, desistindo sempre no começo, esgotasse todos os caminhos sem dar nem um passo sequer.

Enfim, recomendadíssimo. Não é o meu livro preferido do Mago, mas tá perto. 

Por que ele é ruim? Não é ruim, mas acho meio estranha essa coisa de colocar bruxaria e cristianismo lado a lado. Claro que entendo a vibe dos símbolos e de que a Deusa pode ser representada pela Virgem Maria e tal, só que a igreja literalmente matou trocentas mil bruxas ao longo dos séculos e é bizarro colocar uma bruxa dentro de uma igreja fazendo oração pra o Deus cristão. Okay, serve ao propósito do livro, mas achei um pouco incoerente. Porém, nada que atrapalhe a leitura (e é um momento bem bonito da narrativa, na verdade). 

Você vai gostar se... se interessa por magia, histórias da vida real com mulheres que vão atrás do que querem, livros de autodescoberta ou só quer dar uma chance pra o Mago e ver qualéquié dessa literatura dele de que as pessoas tanto falam mal (mas que na verdade é boa o suficiente pra ser lida em uma sentada).

Em um quote:

– Aceite o que a vida lhe oferece, e procure beber das taças que estão na sua frente. Todos os vinhos devem ser bebidos: alguns, apenas um gole; outros, a garrafa inteira.
– Como posso distinguir isso?
– Pelo gosto. Só conhece o vinho bom quem provou o vinho amargo.

Extraordinário: escolha ser gentil

Extraordinário
R. J. Palacio
315 páginas
Intrínseca
Ano de publicação: 2013 

Sobre o que é: Auggie é um menino de dez anos como qualquer outro: gosta de tomar sorvete, brincar, ver tevê. Exceto por uma coisa: ele nasceu com uma síndrome genética que lhe deu uma deformidade facial e, por isso, ele nunca frequentou a escola. Mas seus pais se dão conta de que um dia ele precisará viver em sociedade e, por isso, lhe matriculam numa escola. É aí que as coisas começam e Auggie se vê em meio a crianças que lhe fazem bullying o tempo inteiro e precisa aprender a lidar com isso da melhor forma possível. 

Por que ele é bom? Faz alguns anos que li esse livro pela primeira vez, logo no lançamento, mas ainda não tinha escrito sobre ele porque na época eu não era uma pessoa que escrevia sobre livros. Só que agora, vendo a minha lista de livros que li e amei, porém ainda não recomendei, lembrei desse e, já que estamos no hype do filme, que será lançado dia 7 do mês que vem (que por acaso é dezembro e não estamos todos pirando com isso????), decidi falar sobre.

Há alguns anos eu comecei um curso de Pedagogia. Eu havia recentemente lido o livro quando entrei no curso e lembro que quando uma professora perguntou que livro a gente recomendava para que todos lessem, eu respondi que todo mundo que estuda Pedagogia ou que lida com crianças deveria ler Extraordinário porque é um livro muito sensível e que nos faz entender o real perigo de permitir e contribuir com o bullying nas escolas. 

Auggie é um menino muito querido. Ele tem uma deformidade terrível no rosto que faz com que as pessoas (babacas) o tratem extremamente mal, o ignorando ou zombando dele na cara dura. Não sei quantas vezes conheci pessoas assim na vida, gente que zomba do outro só porque ele é diferente dos outros. E essa é a maior mensagem do livro: somos todos iguais, gente com sentimentos e sonhos e vida, mesmo que nossa aparência seja tão diferente da dos outros. 

Uma coisa que eu achei demais no livro - além da história, que já é tocante por si só - é que ele é divido em oito partes e cada parte tem o ponto de vista de um personagem diferente (só o Auggie repete sua parte na narração). Eu adoro esse tipo de recurso em livros porque dá pra gente entender o contexto maior da situação e conhecer o que realmente se passa na cabeça de cada um. No quesito sensibilidade, Extraordinário dá aula.

Esse é um daqueles livros que a pessoa termina de ler com o coração quentinho, se sentindo esperançosa com o mundo. Apesar de não ser o que eu costumo ler, é uma leitura pra fazer feliz, então eu recomendo fortemente.

Auggie

Por que ele é ruim? Ele não é. Duvido alguém achar algo de ruim nesse livro, mesmo.

Você vai gostar se... quer fazer uma leitura mais sensível, se envolver emocionalmente com um livro e ter um pouco de esperança na humanidade (difícil, eu sei, mas esse livro ajuda).

Em um quote:

Quando tiver que escolher entre estar certo e ser gentil, escolha ser gentil. 

Leiturinhas 10

~ilustração de Anya Karina~

Outubro foi um daqueles meses intermináveis em que a pessoa lê, lê, lê e parece que não leu nada. Nessas, li 6 livros, o que já foi uma grande conquista dado o fato de que detestei 3 deles. Vamos lá. 

.lidos 


♥ Comecei o mês terminando de ler um livro que parecia arrastado demais pra que pudesse ser lido: Extensão do domínio da luta, do Michel Houellebecq, pode facilmente entrar na lista de livros mais chatos que já tive de ler. Tive porque o Juremir, meu professor, não vai descansar enquanto não fizer todos os alunos de Jornalismo lerem a obra completa do Houellebecq. Eu realmente gostei do outro que tive de ler dele, o Partículas elementares, mas esse é completamente diferente: deprimente, com um enredo em que nada acontece, misógino e pedante. Me pergunto como alguém aceitou imprimir esse livro, sinceramente. 

♥ Aí achei que seria uma boa ideia ler um livro que recebi de parceria e parecia promissor. Foi aí que embarquei em As perguntas, do Antônio Xerxenesky e, como já falei aqui: que vibe errada. O livro poderia ter sido excelente se não se propusesse a ser terror. Mas enfim, vida que segue, tem gente que gosta. 

♥ Cansada de ler livros ruins e decepcionantes, fui reler um clássico que eu amo demais: Orgulho e preconceito, da Jane Austen, foi só amor e, nessa releitura, pude perceber várias coisas que eu não havia percebido antes (mas o que que a gente percebe direito aos 17 anos, né). Quero relê-lo muitas vezes ainda. 


♥ Mas aí veio um livro que só amor: O livro do juízo final, da Connie Willis, foi claramente a melhor escolha que fiz de parceria com a editora desde o início do ano e entrou facilmente pra lista de livros preferidos da vida. QUE LIVRO MARAVILHOSO. Eu já falei muito sobre ele, mas basicamente: sci-fi escrito por mulher, protagonizado por mulher e com viagem no tempo pra Idade Média!!!! AAAAAAAAAAAH 

♥ Porém, como a vida tem toda uma vibe roda gigante, acabei caindo num cocô tão gigantesco que não sei como ganhou tantas críticas boas: Enclausurado é tão ruim que nem parece que foi escrito pelo Ian McEwan. Juro. Maior decepção. Queria ler esse livro desde o ano passado e agora que li achei cem por cento fuén. 

♥ Como tava chegando o Dia das Bruxas e eu ainda não tinha lido um terrorzão, decidi fazer releitura de um dos meus livros preferidos: O exorcista, do William Peter Blatty, é muito mais do que o filme com a guria virando a cabeça e subiu mais ainda no meu ranking de preferidos porque me dei conta de um monte de coisa, tipo contexto psicológico e que não é o demônio, é tudo doença sem tratamento mesmo. MARAVILHOSO. 

.lendo 

Já estamos no dia 9 e eu ainda estou patinando na mesma leitura desde o dia 31: tá sendo difícil ler Não vai acontecer aqui, do Sinclair Lewis. A ideia é boa: nos EUA, ganha a eleição pra presidência um cara fascista, racista, misógino e que nem é político direito, mas um figurão da tevê. Foi escrito em 1935 e as pessoas acham, atualmente, que foi premonitório porque veja bem o que tem acontecido, não é mesmo. Só que a escrita é bem chata e, por mais que a história seja legal, tô tendo dificuldades pra lê-lo. 


Queria estar lendo Anna Kariênina, mas temos de terminar esse primeiro. Haja paciência. 

Resuminho de outubro


A única coisa que está me segurando no momento é saber que só mais três semanas e eu entro de férias. SÓ MAIS TRÊS SEMANAS. 

Nunca tive um semestre tão exaustivo na faculdade. É trabalho toda a semana, provas que ninguém entende nada, colegas (vou nem falar dos colegas porque na verdade eles têm sido bem chuchus, mas já esgotei minha quota de lidar com pessoas no ano) e mais a vida social. 

Affs. 

Passei quase o mês inteiro atrás de fontes pra fazer uma reportagem gigantesca de seis páginas que preciso entregar semana que vem e ainda não está pronta, obviamente. Nessas de ir pra lá e pra cá pra tentar achar gente que fale sobre o tema em questão, acabei num culto sul-coreano que tem elementos judaicos, mas que tá aqui no Rio Grande do Sul. Vejebem. Tive de usar inclusive VÉU pra poder entrar e entrevistar as gentes de lá - que não queriam dizer nadinha dessa fé estranha deles. 

Eu adoro escrever sobre religiões porque acho bizarro e misterioso como as pessoas se atiram nessas fés e mudam completamente suas vidas por causa delas. No caso desse culto sul-coreano-judaico, por exemplo, uma das mulheres que entrevistei tem mestrado em direito. Não é uma mulher sem instrução (como vergonhosamente a gente ainda pensa que é a maior parte do povo religioso), mas uma pessoa que realmente fez graduação + pós e trabalha numa firma de advocacia. E MESMO ASSIM usa véu, se tapa toda e diz que as mulheres são inferiores aos homens porque assim diz a Bíblia. 

A coisa é bem louca. 

Fora isso, também passei três semanas atrás de gente do veganismo pra falar sobre a produção de queijos veganos e por que as pessoas estão cada vez mais indo pra esse caminho. Descobri muita coisa (tipo receita de queijo de batata que "fermenta" com limão) e tive ainda mais certeza de que meu caminho é bem longe do veganismo. Desculpaí, pessoal, mas não rolou comigo. 

(Inclusive, tem um povo fazendo RAÇÃO VEGANA PARA ANIMAIS e o post de divulgação que fizeram dessa ração supimpa tinha a foto de um cachorro com uma cara de desânimo olhando pra suposta ração e a seguinte legenda: "ração sem sal, sem açúcar e sem carne - seu pet vai amar!" e eu fiquei pensando se alguém realmente compra essa ideia ou se é só zoeira porque não é possível.) 

#EXAUSTA

Passei o mês inteiro maratonando Merlin e terminei exatamente no dia 31. Acabei de maratonar todos os 8 episódios disponíveis de Outlander e, por mais que eu ame demais essa série, o vazio que Merlin deixou é grande demais e sinceramente aceito sugestões de séries bacanas e que preferencialmente se passem num período tipo Idade Média pra me distraírem durante esses dias de final de semestre. 

Mas tenho uma coisa a dizer: ARTHUR MERECIA MAIS! Ainda não superei o final de Merlin e vocês ainda vão me ouvir falar muito disso porque não é possível. A gente conhece as lendas, leu trocentas histórias arthurianas, mas continua com o coração triste cada vez que chega ao final de uma delas. Affs. 

.links.links.links.

Outubro é o mês do terror e todo mundo sabe disso, então escrevi muita coisa sobre porque não me contenho - e teria escrito mais se tivesse tido tempo, mas a vida universitária me impede de me dedicar ao terror como eu queria. Como não tive muito tempo pra ler muita coisa além do que era necessário (e dos livrinhos, porque sempre há livrinhos, mas isso fica pra outro post), vou ser bem narcisista e falar do que escrevi e do que as amigas também escreveram lá no Valks. 

♥ Li Brida, do nosso Mago* favorito, e escrevi sobre ele lá no Valks pra semana especial de dia das bruxas. Sei que rola todo um preconceito com os livros dele, mas vale a pena deixar esse ranço de lado e curtir uma boa história. Tá tudo em Brida: descobrindo as bruxas que moram dentro de nós

♥ Também pra semana especial de dia das bruxas escrevi um textão que virou meu orgulho tanto porque amei escrevê-lo quanto porque descobri que tem muito mais gente por aí que curte história do que eu imaginava. Ana Bolena: de rainha protestante a bruxa usurpadora é o meu texto queridinho e vocês precisam lê-lo pra entender como a forma mais fácil de condenar uma mulher e retirar seu poder era apelar pra acusação de bruxaria. Ana merecia mais.

♥ Ainda no Valks rolou um texto super bacana com indicações de filmes de terror. Esse não fui eu que escrevi, mas as indicações estão boas. Mulheres e terror: 8 filmes para o dia das bruxas tá valendo a leitura. (E vamos lembrar de que a gente não precisa ver filme de terror só no dia das bruxas, né?) 

♥ Aqui no blog também teve especial dia das bruxas porque eu realmente não me contenho e precisava escrever sobre. Falei que meus filmes preferidos são filmes de terror e já indiquei alguns pra o pessoal ver e levar uns sustos. 

♥ Escrevi também sobre a minha experiência pessoal a respeito de como a intolerância religiosa cria o mito da bruxa em Como se faz uma bruxa. Tá pesadinho, mas é real. 

♥ Pra encerrar, reli e revi O Exorcista e falei sobre como o que a guria tinha era uma doença e não o demônio, mas o verdadeiro terror é pensar que muita gente doente já morreu por conta dessa mania de culpar o demônio por tudo. 

UFA, é isso aí. 
Praticamente zero de vida pessoal e muita produção porque final de semestre é sempre essa correria que me deixa 200% mais irritada e sem tempo pra nada. Mas vamo que vamo que faltam só três semanas pra essa palhaçada terminar. 

Que Lestat nos ajude. 

* Coloquei um asterisco porque fui divulgar o texto no twitter e O MAGO CURTIU MEU TWEET 
AAAAAAAAAAAAAAAAH 


Não sei vocês, mas esse é o tipo de coisa pelo qual vale a pena ter um twitter. Meu deus, eu amo demais a internet. 

O Exorcista: o melhor livro de terror de todos os tempos

O exorcista 
William Peter Blatty
331 páginas
Harper Collins Brasil
Ano de publicação: 2013 

Sobre o que é: Regan MacNeil é uma menina de 12 que gosta de esculpir, desenhar, sair com sua mãe e brincar com um tabuleiro Ouija nas horas vagas. Numa dessas, ela começa a se comunicar com um espírito chamado Capitão Howdy e, a partir daí, coisas estranhas começam a acontecer e Regan fica muito doente. Mas será sua doença um problema médico ou um problema espiritual? 

Por que ele é bom? GENTE, QUE LIVRO! Eu sei que todo mundo parece conhecer a história, mas o filme e o livro - apesar de terem o mesmo plot - são bem diferentes um do outro. 

Quando eu li esse livro pela primeira vez, lá por 2013, fiquei com tanto medo que olhava pra trás a cada quinze minutos pra verificar se não tinha um espírito me encarando. Ele é realmente um livro assustador e as descrições da possessão demoníaca que Regan sofre são horríveis. O clima de tensão aumenta a cada página e parece que o clima ao redor da pessoa leitora também fica denso. Mas isso foi em 2013. A releitura que fiz agora, em 2017, me deu uma visão bem diferente desse livro sensacional e me fez perceber que ele é realmente o melhor livro de terror já escrito.

O que o Blatty fez foi genial porque em nenhum momento do livro ele afirma que é o demônio Pazuzu que está dentro da Regan fazendo com que ela vomite aquela batida de abacate ou que fale mil palavrões em trocentas línguas. Não. O que ele faz é dar argumentos tanto pra parte religiosa quanto pra médica. É dito o tempo inteiro motivos científicos pra Regan apresentar esses sinais de possessão. Só que, pra quem tem fé, esses mesmos sintomas podem ser interpretados como um demônio no corpo da guria.

Eu realmente acredito que o problema da Regan não é espiritual, mas sim médico. Não que eu seja uma pessoa cética, mas a guria claramente tinha probleminhas emocionais que foram se agravando com as coisas que acontecem no livro até chegar àquele ponto horroroso. Só que aí pegar e transformar um caso que possivelmente seria resolvido com medicação e tratamento extenso e dizer que é tudo culpa do demônio e o que a guria precisa é de um padre é algo perigosíssimo que foi tratado de forma incrível pelo Blatty.

O livro assusta por ser algo que poderia acontecer. É muito fácil confundir uma doença psicológica com um demônio se você tiver alguma crença religiosa. Foi esse tipo de coisa que levou a tratamentos estapafúrdios com exorcismos, ao atraso da medicina em séculos e à morte de várias pessoas durante muito tempo na história porque às vezes é mais fácil crer que o mal seja algo intocável, espiritual, misterioso do que algo que tá ali, que pode ser racionalmente explicado e que coisas horríveis realmente podem acontecer com nosso corpo por conta de uma doença e nada disso é relacionado ao demônio.


As pessoas qualquer coisa é ÓOOO O DEMÔNIO quando a pessoa só precisa mesmo é de bons médicos e tempo pra se recuperar. MAS VAMOS CULPAR O DEMÔNIO POR TUDO, ISSO AÍ. O comportamento humano é muito mais assustador do que qualquer demônio, podem ter certeza.

Por que ele é ruim? Ele não é ruim. Mesmo. Na verdade, entrou pra minha lista de favoritos da vida assim que fiz a releitura e percebi que ele não é apenas mais uma historinha de terror, mas tem toda uma construção incrível sobre ciência vs religião. Mas pode assustar numa primeira leitura, porém nada que vá fazer ter pesadelos.

Vale lembrar que a gente fala da Regan e da possessão, mas a história MESMO é a do padre Karras, que é o exorcista do livro, um padre psiquiatra que perdeu a fé em deus e no mundo após ver tantas coisas erradas e sentir culpa por não poder mudá-las. A Regan está lá como forma de testar a fé dele, de ver como ele vai se sair com isso, mas a gente sempre esquece que a questão não é a possessão, mas a fé (ou a falta dela) e como coisas que não podemos impedir nos afetam a ponto de sentirmos tanta culpa que acabamos caindo em estados terríveis por causa da nossa mente e da incapacidade de nos perdoarmos. 

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Você vai gostar se... já viu o filme trocentas vezes (assim como eu), adora histórias de terror, gosta de enredos que te deixam na dúvida entre o sobrenatural e o real ou apenas quer levar uns sustos mesmo.

Em um quote:

— Afinal, e todas aquelas histórias na Bíblia sobre Cristo expulsar todos os demônios?
— Veja, se Cristo tivesse dito que aquelas pessoas que supostamente estavam possuídas tinham esquizofrenia, e eu imagino que tinham, ele provavelmente teria sido crucificado três anos antes. 

Ah, e não se esqueçam que ainda está rolando lá na página do blog um sorteio incrível de um dos melhores livros que li este ano: Fraude Legítima. Para participar basta clicar aqui e seguir as regrinhas. Boa sorte! 

Como se faz uma bruxa

Este vai ser um post longo e pessoal, então já vou avisando pra arrumarem seus chazinhos, sentarem confortavelmente ou deixarem isso pra mais tarde porque aqui vou eu. 

Final de semana passado parei pra finalmente ver um filme que todo mundo já viu: A Bruxa (2015). Eu deliberadamente evitei ver o filme nos últimos dois anos porque, apesar de eu amar filmes de terror, às vezes rolam umas identificações meio absurdas com essas histórias de fantasma, espírito e coisas que estão ali mas não deveriam estar. 

A história do filme é aquela que vocês já devem conhecer: alguns anos antes dos acontecimentos de Salém, uma família sai da Inglaterra e vai pra Nova Inglaterra (que se tornaria Estados Unidos depois) e fica lá, vivendo da fazendinha e isolados de todos. Literalmente. Coisas começam a acontecer e é claro que o bode expiatório usado pra desculpar tudo é a bruxa. Que precisa ser alguém. Que acaba sendo a filha mais velha porque alguém precisa ser culpado por toda a desgraça que está acontecendo.


Esse filme me assustou de verdade. Não pela cena com o bode demoníaco (que ficou bem legal, mas não é o ponto forte pra mim) ou o final (que achei bem forçado, na verdade), mas sim por toda a construção narrativa da tensão do puritanismo cristão. Aquela coisa horrorosa de achar um bode expiatório, de sempre se considerar pecador, culpado, de acreditar ter nascido com o pecado original e precisar eternamente se redimir a uma criatura que ninguém nunca viu ou ouviu é simplesmente assustadora. Assusta porque é algo imposto e é algo que sabemos que aconteceu. Aquele século XVI foi de um puritanismo absurdo de tão forte. Não que isso não tenha havido em outros séculos, mas a concentração que teve ali de fanatismo foi tão forte que deu origem à histeria coletiva da caça às bruxas de Salém. 

Obviamente que esse episódio passou e hoje em dia a gente tem mais acesso a coisas como informação de que esse tipo de bruxa que eles achavam existir na época não existe. (Tem gente que pratica o que é chamado de bruxaria, mas isso é outra coisa bem diferente.) Só que ainda existe uma repressão religiosa forte, um puritanismo que beira o fanatismo e gente tapada que acha que só a igreja salva e todo o resto é do demônio. 

Aí você vai me dizer que é exagero e eu vou lhe dizer que: queria eu que fosse. Como já disse algumas vezes aqui, cresci numa família evangélica. Mas era tudo relativamente tranquilo até a gente se mudar pra o local onde moro hoje, o local onde encontrei as piores pessoas que já conheci até agora. 

Fui chamada de bruxa pela primeira vez aos 11 anos. Foi por meus colegas de classe. Não era bullying normal de criança que chama a outra de qualquer termo pejorativo. Eles realmente tinham medo de mim. Ninguém chegava perto, ninguém me encostava. Se eu falava algo, todo mundo parava achando que eu tinha poderes sobrenaturais e que podia amaldiçoá-los. Eu nem sabia o que era uma bruxa pra além do que havia visto nos filmes da Disney, mas era chamada disso por ser estranha. E os pais desses meus colegas eram uns fanáticos que colocaram na cabeça dos filhos que não deveriam se aproximar da bruxa

Depois a coisa continuou. Eu ainda frequentava a igreja com a minha família e a coisa chegou a um ponto em que o pastor da época disse, em pleno altar pra todo mundo ouvir, que eu iria pra o inferno por ser uma pessoa corrupta e estar corrompendo as pessoas. Eu só tinha 17 anos, veja bem que grande corrupção eu fazia. Mas eu era uma bruxa porque me vestia diferente, nunca fui adepta do fanatismo mesmo que participasse dos cultos (mas era uma obrigação social, não algo real pra mim) e sempre tive esse humor peculiar que todo mundo conhece. Aí eu era a bruxa. Porque enquanto eles entravam na histeria coletiva de chorar e se atirar no chão dizendo sentir deus, eu tava lá, rindo daquela palhaçada toda porque eu já senti muitas coisas dentro de uma igreja: raiva, desprezo, nojo, solidão, angústia... Mas deus não foi uma delas. 

Aproveitei essa deixa pra sair de uma vez por todas e nunca mais voltei pra aquele inferno de gente fanática. Mas continuo vivendo aqui. E encontro essas pessoas todos os dias. E todos os dias elas riem de mim, mas se escondem se eu olho. Sussurram um "olha a bruxa" e fazem um sinal da cruz quando eu passo. Essas pessoas são amigas dos meus irmãos, que continuaram nessa seita maluca que está cada vez mais ganhando força no país porque as pessoas são ignorantes demais pra perceber a vibe errada que isso é. 

Uma vez uma família dessa igreja invadiu a minha casa pra tentar matar a bruxa. Obviamente não conseguiram porque eu fui mais ágil e me tranquei no quarto, ligando pra polícia (o que não resultou em nada porque um dos chefes da polícia daqui é integrante desse culto maluco e encobriu tudo). Mas eles conseguiram machucar a minha mãe no processo. E só não foram adiante pelo medo da polícia chegando. 

Aí eu vejo um filme desses e fico com medo real porque eu sei bem o que a histeria coletiva de uma fé cristã pode fazer com alguém. Sei bem o que forma uma bruxa. Não é se ela fala com o diabo ou não, se dança nua numa floresta, se tem saquinhos de feitiço na bolsa. Não. O que forma uma bruxa é a intolerância das pessoas de bem que estão sempre prontas a condenar qualquer um que não concorde com elas, que seja ligeiramente diferente delas.

~cena do filme~ 

Depois eu falo que odeio pessoas e odeio religiões e ninguém sabe o porquê. Mas essa loucura de fanatismo roubou minha infância/adolescência e tirou a vida de milhares de mulheres ao longo da história, transformando-as em coisas que elas não eram. Sinceramente, melhorem.*

*"Ah, mas isso é injusto porque sou cristã e nunca fiz ou ouvi falar disso." Joinha pra você, continue assim, mas os cristãos que eu conheço são bem horríveis. Mas sempre há tempo pra ser uma pessoa melhor, independente de religião; eu acho.  

O livro do juízo final

O livro do juízo final
Connie Willis
572 páginas
Suma
Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: em 2054 as viagens no tempo já são uma realidade - ao menos na faculdade de História de Oxford - e Kivrin, uma futura historiadora, está louca pra ir pra Idade Média conhecer o dia a dia do povo de lá. A ideia é fazer um estudo de campo, porém o século para onde ela vai está marcado com um 10, indicando um alto risco. Mas Kivrin consegue um professor que a apoie pra que possa realizar o salto para a Inglaterra de 1320. No entanto, assim que ela consegue ir, uma doença misteriosa se espalha por Londres e entra uma quarentena em ação - impedindo que monitorem a viagem de Kivrin e ameaçando sua volta pra casa. 

Por que ele é bom? MEU DEUS QUE LIVRO INCRÍVEL!!!! Antes mesmo de terminar a leitura já havia marcado ele como favorito no meu coração porque ele é demais mesmo

Eu adoro ficção científica, mas não leio tanto quanto deveria pra quem gosta do gênero porque desanimei um pouco com aquelas descrições infinitas de termos científicos e blablabla que costumam rechear esses livros e atrapalhar a história. Só que isso não acontece com O livro do juízo final. O que temos aqui é uma das melhores narrativas que já tive o prazer de ler. 

Como apaixonada por história que sou e levemente obcecada em aprender mais sobre como vivemos em outras épocas, fiquei encantada com a descrição que a Connie faz da Idade Média. Ela não romantiza nada, é tudo muito cru: as doenças, a sujeira, a fome e também a religiosidade fortíssima que o povo tinha. Afinal, na Idade Média a Igreja tinha muito poder e basicamente tudo girava em torno da fé católica. E a Connie mostra bem isso. Claramente ela fez uma pesquisa histórica bem detalhada porque a narrativa dela - assim como as personagens - convencem demais de que tudo que está acontecendo ali é real. E eu adoro isso em um livro.

Amei demais também o fato de que uma das personagens principais (existem duas, uma pra cada época) é uma mulher: a Kivrin, a estudante que vai pra 1320. São poucos os livros de ficção científica escritos por mulheres, ainda mais os que têm uma mulher como protagonista - e que não é, de forma alguma, sexualizada ou tratada como inferior por seu gênero. 

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A Connie acertou demais ao escrever a Kivrin: uma guria forte e decidida que se preparou durante 2 anos pra ir pra Idade Média e que não desistiria disso mesmo com todos os obstáculos (como, por exemplo, o fato de a caça às bruxas já ter começado, o total desprezo que sentiam por mulheres na época ou o perigo de doenças como a peste negra e outras tantas que não foram catalogadas, mas que deixaram vários mistérios no ar, como aquela em que as pessoas começavam a dançar e não paravam nunca mais e literalmente morriam dançando). Kivrin dá um jeito, se prepara, estuda incansavelmente os costumes e a língua da época e inventa uma história sobre quem é pra que ninguém possa duvidar dela. 

Já em 2054, o outro núcleo do livro, temos o sr. Dunworthy, um dos professores de Kivrin e o que mais gostava dela e era totalmente contra o salto dela pra 1320. Também gostei bastante da forma com que ele é construído, sendo uma pessoa preocupada e atenta a tudo, sempre tentando auxiliar Kivrin. Ele é um pouco paternal demais, mas eu também seria se uma aluna minha fosse pra Idade Média e eu não conseguisse rastrear ela porque a cidade está em quarentena com uma doença sinistra e não identificada. 

Connie escreveu esse livro nos anos 90, mas já fez o que tem gente que em pleno 2017 não faz: colocou personagens femininas fortes no enredo. Além da Kivrin, temos também a Mary, a médica que descobre a doença misteriosa e cuida da quarentena em 2054. Mary é maravilhosa demais e só tenho amor pela determinação dessa mulher. 

Aliás, é todo mundo determinado nesse livro e eu adoro pessoas decididas, então pensem numa leitora feliz. :) 

Resumindo: 
SCI-FI 
ESCRITO POR MULHER 
PROTAGONIZADO POR MULHER 
COM VIAGEM NO TEMPO 
PRA IDADE MÉDIA 

VÃO LER ISSO JÁ!!!! 


Por que ele é ruim? ELE NÃO É RUIM, VÃO LER ESSE LIVRO! Até vi gentes falando que ele é arrastado, mas não achei. Acho que é um livro bem construído e não tem por que achar arrastada descrições já que a ideia da Kivrin era fazer um estudo de campo pra relatar como era a vida em 1320, então não considero que haja nada sobrando, não. 

Você vai gostar se... curte umas vibes Doctor Who, adora histórias com viagem no tempo, é fascinado por história e sempre quis dar um pulinho na Idade Média pra ver qualéquié. Também vai adorar se quiser ler um livro com 0% de machismo e que tem personagens que poderiam ser muito reais, sem aquele exagero sexual todo que sempre acabam colocando em livros assim. É demais, leiam isso. 

Em um quote:

— Será que não havia uma só pessoa de bem na Idade Média?
— Estavam todas ocupadas, queimando feiticeiras. 

~livro recebido em parceria com a editora~

Ah, e não se esqueçam que está rolando lá na página do blog um sorteio incrível de um dos melhores livros que li este ano: Fraude Legítima. Para participar basta clicar aqui e seguir as regrinhas. Boa sorte!

Meus filmes preferidos são filmes de terror (ou: o que ver no dia das bruxas)

~The Magic Circle, John William Waterhouse~

Quando eu tinha 5 anos, meus primos me trancaram na sala da casa da minha avó e colocaram O Exorcista pra rodar - naquelas fitas VHS antigonas. Obviamente eu morri de medo e fiquei semanas enxergando a Reagan aonde quer que eu fosse. Mas isso passou e me fez perder o medo de histórias apavorantes. Acabei pegando gosto pela coisa e agora estamos aí, já tendo visto praticamente todos os filmes do gênero e querendo mais. 

Eu realmente fico muito animada com o dia das bruxas. Não pela questão bruxaria e rituais e blablabla (sou cética demais pra isso), mas porque eu adoro essa temática do terror. No resto do ano sempre fico meio deslocada porque as pessoas costumam preferir filmes românticos, histórias bonitinhas e coisa e tal, mas eu não funciono nesse universo de coisas fofinhas. Amo demais terror e adoro uma boa história com sustos e mistérios e aparições. 

Coincidência ou não, meus filmes preferidos são de terror e eu vou listá-los agora porque vocês precisam ver essas coisas maravilhosas. 

O iluminado 


Ninguém vai me convencer de que esse filme não é bom. Tô 100% nem aí pra o fato de o Stephen King não ter gostado dele porque, olha, esse filme é GENIAL. Não é só porque é do Kubrick, apesar dele ter sido um ótimo diretor, mas porque a história é maravilhosa e as atuações são melhores ainda (JACK NICHOLSON, TE DEDICO!). 

Tudo se passa dentro do Hotel Overlook, onde Jack, Wendy e seu filho vão passar 5 meses de total isolamento cuidando do hotel durante o período de inverno - no meio de nevascas intensas e praticamente nenhuma comunicação com o mundo exterior. É a década de 80, então não tinha internet e essas distrações que a gente tem hoje. Coisas estranhas começam a acontecer e você se pergunta o tempo todo se é tudo loucura da cabeça do Jack ou se realmente há algo a mais naquele hotel além da família. 

O orfanato 


FILME DE TERROR ESPANHOL. Eu nem precisaria dizer mais nada porque, honestamente, pra mim não tem nada mais assustador do que espanhóis fazendo terror. Não sei se é a língua ou como eles sabem usar as cores e luzes, mas os filmes deles assustam mesmo quando não é essa a ideia (aliás, cinema espanhol = ♥). Mas esse é demais. 

Uma mulher compra a casa onde cresceu, que por acaso era um orfanato. Lá ela decide viver com seu marido, criando seu filho e tocando os dias. Só que acontecem coisas e fica a questão: o que diabos houve naquele orfanato pra ficar atormentando as pessoas 30 anos depois? Sensacional. 

It 


Nem me venham com esse novo It porque quem é Bill Skarsgård perto de Tim Curry? Tim Curry poderia interpretar uma árvore e ainda assim eu estaria aplaudindo fervorosamente porque pensa em ator bom. Eu sei que o remake tem todos os efeitos especiais e blablabla e todo mundo diz que é incrível etc e tal, só que o remake não tem o que o original dos anos 90 tem: terror psicológico. Ninguém supera o Tim Curry nessa. Por mais que os efeitos sejam toscos (apesar de que na época eram muito bons), o filme vale muito mais a pena só pelas atuações e pelo fato de não ser dividido em três mil e quatrocentas partes, mas ser inteiro. Tenho pavor dessas sequências infinitas e prefiro histórias que tu pode sentar e ver de uma só vez. 

A história todo mundo já conhece: palhaço assassino que na verdade é uma manifestação do mal e que mata criancinhas atormenta uma cidade se transformando no pior pesadelo da criança em questão até levá-la à loucura. É genial. 

O exorcista 


Esse filme me assusta até hoje, deuzôlivre. As atuações são convincentes demais e a ideia de que isso foi baseado em algo que realmente ocorreu é simplesmente assustadora. Sério, esse filme é perturbador. Estava conversando com o namorado dia desses pra programar nossa Super Sessão Pipoca Dia das Bruxas e ele me disse que as crianças de hoje não se assustam com esse filme porque não é o tipo de terror a que elas estão acostumadas. Mas eu sinceramente não consigo ver como alguém não se assustaria com o demônio possuindo o corpo de uma menina de 12 anos e fazendo ela se masturbar com um crucifixo. Sério. Perturbador. 

Todo mundo deve saber, mas sempre bom falar: Reagan é a menina de 12 anos que acaba sendo possuída por Pazuzu, o demônio, após dar uma de inteligentona e brincar com o tabuleiro ouija porque a internet ainda não existia naquela época. Coisas acontecem e padres aparecem lá pra tirar o demônio da guria, mas o troço desemboca pra um final que creeeeeeeeeeedo. Creio em deus pai. 

Insidious 


Se tem uma pessoa que sabe fazer terror hoje em dia essa pessoa é o James Wan. QUE MEDO DESSE FILME, CREDO. Já vi umas trinta vezes, mas toda vez sinto medo e fico olhando pra trás pra ver se está tudo bem, risos. 

Uma família acabou de se mudar pra uma casa nova e aparentemente está tudo bem, até que um dia o menino mais velho entra em coma e não sai nunca mais. Apesar de toda a busca por exames e médicos monitorando o guri, nada adianta. Então, coisas estranhas começam a acontecer e eles se dão conta de que a assombração não está na casa, mas sim no guri. ASSUSTADOR. 

Invocação do mal 2 


Eu tenho verdadeiro PAVOR de freiras, acho elas seres totalmente demoníacos e corro toda vez que vejo uma porque deuzôlivre. Aí vem o James Wan e me faz um filme com uma freira horrorosa que é um demônio terrível que atormenta as pessoas até matá-las. GENTE, QUE FILME TERRÍVEL. O primeiro eu nem acho essas coisas, mas esse segundo é demais. 

Novamente Lorraine e Ed Warren se metem num caso sobrenatural, mas dessa vez ele se passa na Inglaterra e é baseado em fatos reais, no caso Enfield Poltergeist, e as coisas são horríveis. Mesmo. 

A entidade 


TERROR COM CRIANÇAS. Gente, terror com crianças é algo sempre perturbador, mas esse é perturbador demais. Esse filme me deixa sempre com uma sensação de perigo constante, é terrível - e por isso recomendadíssimo pra o Dia das Bruxas. 

Ethan Hawke é um jornalista que descobre umas fitas de vídeo com gravações estranhas. Ele não se aquieta e vai investigar, mas acaba se metendo em matanças em série e algo muito maior do que ele poderia imaginar. VEJAM ESSE FILME. 

Cês já têm muita coisa pra ver, agora me deem mais recomendações porque filme de terror nunca é demais. ♥ 

As perguntas (ou como não fazer um livro de terror)

As perguntas
Antônio Xerxenesky 
184 páginas
Companhia das Letras
Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: Alina é uma guria que está fazendo doutorado em História das Religiões com ênfase em tradições ocultistas, mas que trabalha editando vídeos em São Paulo pra ganhar a vida porque não está fácil ter um diploma em História no Brasil. Nessas de edita videozinho, fica entediada, edita mais um vídeo, ela recebe uma ligação de uma delegada pedindo consultoria num caso bem bizarro. Aparentemente tem havido surtos psicóticos na cidade causados por uma suposta seita satânica. Alina se joga nisso e tenta ajudar, mas coisas acontecem e ela recomeça a ver as sombras misteriosas que ela via quando era criança. 

Por que ele é bom? Se eu tivesse de realmente destacar um aspecto bom dele seria o fato de que a escrita do Xerxenesky é muito tranquila de ser lida. Ele tem uma escrita fluída que só vai - tanto que li o livro em um dia; obviamente que o livro ter menos de 200 páginas contribuiu muito com isso, mas mesmo assim: parabéns, Xerxenesky, você tem uma linguagem bacana.

Também fiquei bem satisfeita ao perceber que a Alina é uma personagem que convence como mulher. Muitos autores homens, ao escreverem personagens femininas, transformam suas personagens em representações de estereótipos machistas terríveis. Mas Xerxenesky não faz isso e por conta desse ponto ele merece os parabéns. 

Se tivesse de escolher outro aspecto bom eu estaria em maus lençóis porque... bem, ele é um livro muito insatisfatório. Ao menos no que se propõe: ser um livro de terror. Não assusta e o terror que existe é muito mal construído. Mas explicarei isso melhor.

Por que ele é ruim? Quando terminei de ler esse livro fiquei em completo choque porque virei a página e NÃO TINHA MAIS NADA. A história é incompleta. Mas não é só isso. Parece que toda a construção é incompleta. A minha impressão foi que o Xerxenesky não sabia muito bem o que fazer com o universo que criou, de ocultismo e rituais em plena São Paulo dos dias de hoje, e aí decidiu simplesmente não fazer nada e parar por ali.

Posso estar enganada? Posso. A história pode ser uma alegoria sobre o vazio interior dos millennials e como eles buscam sentido em coisas aleatórias e nas quais nem acreditam muito? Também pode. (Inclusive, seria muito legal se fosse.) Mas acho mais provável que o autor simplesmente não tenha sabido conduzir sua história.

Ao final do livro é dito que ele pesquisou religiões ocultas, seitas, satanismo, bruxaria e blablabla por 2 anos pra poder escrever essa história. Aí ele escreve uma personagem que é DOUTORANDA nesse assunto em específico e que não entende bulhufas dele. As coisas mencionadas a respeito disso são o básico do básico que se encontra na primeira página do Google. Eu, que nem sou adepta dessas coisas (e sou bem cética, na verdade), entendo mais disso do que a personagem que deveria ser referência no troço. Por isso mesmo fiquei bem chateada com o livro. Achei que fosse ser muito legal, é uma temática que me chama atenção demais. Mas foi FUÉN. Muito fuén.

Se você cria uma personagem que já fez um mestrado e está fazendo um doutorado sobre ocultismo, o mínimo que pode fazer é realmente dar uma aprofundadinha no assunto. Não precisa ser expert, não precisa se iniciar na Alta Magia e fazer rituais e blablabla. Mas também não precisa ser tão raso a ponto de uma estudante de Jornalismo (eu), que nem participa dessas coisas mas que lê bastante e adora fazer matérias sobre religiões estranhas, ter mais conhecimento de causa do que a personagem em questão.

~Suspiria, filme dos anos 70 e uma das inspirações do livro~

Menino Xerxenesky, você tem potencial, mas precisa escrever sobre coisas que você conhece ou vai acabar se perdendo.

Eu queria muito, muito, muito ter gostado desse livro. Mas não foi dessa vez. Se a ideia era fazer terror, a única coisa que fez foi irritação. Mas é claro que isso não quer dizer que não vá funcionar pra você. Cada pessoa tem um gosto e quem sou eu pra dizer do que as pessoas deveriam gostar? Só diria se o livro tivesse misoginia, machismo ou qualquer coisa relacionada a preconceitos (racismo, homofobia e por aí vai), mas, como não é o caso, se jogue e veja o que cê acha. Pode ser que você goste bastante de um enredo nada clichê.

Você vai gostar se... curte um terror psicológico, é facilmente impressionável ou quer ler uma história diferente que se passa nos dias atuais.

Em um quote:

As religiões foram construídas em torno da morte, elas foram criadas para aprendermos a lidar com isso sem nos desesperarmos, e tem gente que diz que os filmes de terror também têm esse caráter utilitário de nos familiarizar com a violência e a morte. Porém, Alina se perguntou, o que fazer quando não acreditamos em deus algum, em Paraíso algum, quando até os filmes de terror se tornaram banais, e a morte na ficção não nos ensina mais nada. 

~livro recebido em parceria com a editora~

Vomitaram em mim no ônibus

E é por isso que eu odeio as pessoas. 

Estava eu lindamente e cansadamente tentando voltar pra casa após uma aula exaustiva sobre como fazer perguntas a pessoas que não querem revelar nada quando pego um ônibus lotado. Okay, os ônibus de Viamão, a cidade do inferno, estão sempre lotados, por essa eu já esperava. Mas havia um lugarzinho vago lá no fundo, no último banco. Fui até lá, obviamente, e sentei. Deu aquela sensação de alívio, já esperava poder pegar meu livrinho da vez pra ler mais umas 30 páginas até chegar em casa, quando...

UMA GARGALHADA ESTRIDENTE NOS MEUS OUVIDOS.

Estranhei. Senti um cheiro azedo. Não sabia de onde vinha. A gargalhada continuava a reverberar naquele ônibus cada vez mais lotado. Olhei pra os lados, não entendia o que estava acontecendo. Todos olhavam pra mim e pra o homem que gargalhava. Então ele olhou pra o chão e eu percebi:

ELE HAVIA VOMITADO EM MIM 


E TAVA ACHANDO MUITA GRAÇA DISSO 


Ele havia vomitado na minha saia toda colorida e bonitosa. Na minha sapatilha de lacinho. Ele vomitou na minha sapatilha de lacinho, cara. Quem é que vomita na sapatilha de lacinho de alguém e não pede desculpas?

Cês acham que em algum momento eu ouvi um pedido de desculpas? Nãaaaaaaaaaaaaao. Isso seria demais pra o cidadão viamonense. A única coisa que ouvi foi o som daquela gargalhada por cerca de 20 minutos - mas nesse ponto eu já havia levantado dali porque não sou obrigada, apesar de que minha vontade mesmo era de matar uma criatura daquelas, mas as pessoas são tão horrivelmente nojentas neste lugar que a errada seria eu e sem condições de lidar com uma população ignorante presa num ônibus sujo naquele momento.

Se ele estava bêbado? Duvido muito, já que não senti cheiro de álcool (ainda bem, essa desgraça é ainda pior pra tirar do que vômito simples).
O que eu acho de tudo isso? Acho que já cansei de ser pobre e ter de andar de ônibus com gente fedorenta, mal-educada e sem escrúpulo algum. O UNIVERSO QUE TRATE DE ME FAZER RYCA PORQUE JÁ CHEGOU ISSO DE USAR TRANSPORTE COLETIVO E SER VOMITADA NO PROCESSO.


Eu odeio demais essa gente, me tirem daqui. 

A garota no trem

A garota no trem
Paula Hawkins
378 páginas
Record
Ano de publicação: 2015

Sobre o que é: Rachel é uma mulher bem problemática que sai todos os dias de casa e pega o trem das 8h04. Nessas viagens diárias de trem ela fica observando o trajeto e se detém numa casa onde mora um jovem casal que ela idealiza como sendo perfeito. Porém um dia ela vê algo que a deixa de boca aberta e, a partir de então, acontecem coisas que a levam por um caminho perigoso envolvendo um mistério, uma investigação policial e a hostilidade de pessoas dizendo que ela não é uma fonte confiável. 

Por que ele é bom? Alguém me explica, por favor? Eu queria muito ter gostado porque uma amiga me emprestou e escolheu a leitura pra mim, achando que eu fosse gostar. Todo mundo gostou. As pessoas parecem obcecadas por esse livro. Tudo é "oooh, a garota no trem, nossa, que misterioso". Mas achei um grande FUÉN em neon e letras garrafais. 

Mas tá, sempre tem algo de bom e o que eu gostei não foi do mistério. O que eu gostei é de que o livro é um ótimo exemplo de como homens fazem mulheres passar por loucas e se perguntarem se is this the real life, is this just fantasy? porque o gaslight nesse livro é forte demais. O que é bem bacana, ainda mais em tempos como hoje em que finalmente as pessoas estão se dando conta de que pra um relacionamento ser abusivo não precisa haver, necessariamente, violência física. A violência psicológica, emocional, aquela intimidação básica do dia a dia também é violência e é crime. 

Achei ótimo também que o livro tem 3 narradoras - todas mulheres dentro de um relacionamento abusivo - e que elas não se dão conta do que está acontecendo até que seja tarde demais. Posso não ter gostado do mistério, mas adorei a abordagem que a autora usou pra tratar um tema tão delicado e atual. 

Valeu 3 estrelinhas só por isso. 

Por que ele é ruim? Assim: não sei se é porque eu já li muitos livros de mistério, romance policial ou porque fui criada vendo séries tipo Lost, mas o grande plot do livro foi resolvido nos primeiros capítulos pra mim. Por isso, a leitura se tornou enfadonha. Quer dizer, se você prestar atenção verá que o mistério está bem na cara. Mas, novamente, isso pode ser porque eu já tenho uma carga grande de leitura desse tipo e pra mim é mais fácil solucionar esse tipo de coisa. 

Não é um livro ruim, só que não funcionou pra mim. Ao menos não como pra outras pessoas. 

Também achei todo mundo meio chato e cansativo. A Rachel é bem chata. Okay, dá pra entender que na situação dela não tem muito como ter coerência, só que ela se autossabota o tempo inteiro. É desgastante ler páginas e páginas dela se embebedando e vomitando tudo depois, sendo inconveniente, mentindo pra todo mundo... E as outras personagens são tão chatas quanto ela, ainda mais aquela lá que se acha melhor do que ela porque ainda não teve problemas com álcool nem perdeu seu emprego. 

Mas é aquilo: é chato separadamente, mas no contexto geral da história faz sentido porque tudo é resultado de trauminha de relacionamento abusivo com homem escroto. Gente ruim pode causar muito estrago na vida das pessoas e esse, pra mim, é o verdadeiro plot do livro.

Você vai gostar se... curte mistérios e narrativas com personagens femininas. 

Em um quote: 

De vazio eu entendo. Começo a achar que não há nada a se fazer para preenchê-lo. Foi o que percebi com as sessões de terapia: os buracos na sua vida são permanentes. É preciso crescer ao redor deles, como raízes de árvore ao redor do concreto; você se molda a partir das lacunas.