Fraude legítima

Fraude legítima
E. Lockhart
273 páginas
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Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: Jule é uma guria bem louca e que não sabe viver direito em sociedade, mas se adapta a qualquer lugar porque observa bem as regras sociais de onde está pra poder passar despercebida. Imogen é uma guria milionária que está 100% nem aí e só se importa em comer bem, sair bem vestida e viver sua juventude longe dos pais doentes. Quando as duas se encontram e descobrem coisas em comum, a vida fica bem estranha e tudo começa a dar errado de um jeito que não se sabe quem é errado ou certo na história. 

Por que ele é bom? Pensem num livro de mistério envolvente. Pensem num livro de mistério tão envolvente e bem escrito quanto os livros da Agatha Christie. Pensem em personagens coerentes e que fazem sentido na vida real, mas que ao mesmo tempo são espetaculares por serem únicas. Pensem isso e teremos Fraude Legítima

Eu nunca havia lido um livro da E. Lockhart porque pessoas próximas a mim (sim, estou olhando feio pra vocês agora) me disseram que os livros dela são chatos, sem sentido e com uma narrativa péssima. Okay, não li outro livro dela a não ser esse, mas já quero ler todos porque simplesmente sensacional. 

É difícil falar desse livro pra além da sinopse sem contar spoilers no processo, então vamos falar da estrutura dele: a história é contada de trás pra frente. O livro começa no capítulo 18 e a cada capítulo retrocedemos mais um pouco na história de Jule e Imogen e vamos descobrindo aos poucos o que diabos aconteceu entre aquelas duas. Esse estilo narrativo é maravilhoso demais porque começamos num ponto em que tudo já ocorreu e só então vamos juntando pecinha por pecinha do quebra-cabeça intrincado que E. Lockhart criou. 

Outra coisa de que gostei bastante é que, apesar do livro se passar nos dias atuais, temos muitas referências de literatura clássica, especialmente a do período vitoriano - e com uma pitadinha especial de Charles Dickens, cujos livros de órfãos são pontos super importantes na vida das duas meninas. 

Isso pra não falar nas várias passagens com feminismo transbordando - sério, é simplesmente demais e vocês precisam ler isso; eu rabisquei todo o meu exemplar de tão animada que fiquei ao ler esses trechos. 

Jule assistiu a uma porrada de filmes. Ela sabia que mulheres raramente eram o centro desse tipo de história. Não passavam de um refresco para os olhos, companheiras, vítimas ou interesses amorosos. Em geral, existiam para ajudar o grandioso herói branco e heterossexual em sua jornada épica e muito foda. Quando havia uma heroína, ela era muito magra, usava quase nenhuma roupa e tinha dentes perfeitos.
Jule sabia que não parecia com aquelas mulheres. Nunca ia parecer. Mas ela era tudo o que aqueles heróis eram - e, em certos aspectos, mais ainda. 

Por que ele é ruim? ELE NÃO É RUIM, VÃO LER ESSE LIVRO!!!! 


Você vai gostar se... adora bons livros de mistério, curte Agatha Christie, estava com saudade de mistérios bem escritos e tramas com espionagem e gente completamente insana que justifica suas mais horríveis ações com uma racionalidade assustadora. 

Em um quote: 

Como a heroína de um filme de ação, Jule West Williams era o centro da história. 

~livro cedido em parceria com a editora~ 

Nolite te bastardes carborundorum

O conto da aia 
Margaret Atwood
368 páginas
Rocco
Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: por meados dos anos 80 um grupo fundamentalista teocrático aplica um golpe aos Estados Unidos, que passa a viver uma ditadura baseada nos preceitos bíblicos. É nesse cenário que conhecemos Offred, a nossa narradora, que nessa nova República de Gileade se tornou uma aia, ou seja, uma serva abençoada por Deus pra dar filhos àqueles que não conseguem mais tê-los. É uma distopia assustadora sobre o que acontece quando religião e política se misturam - mulheres oprimidas, pessoas sem direitos e abusos de poder pra todos os lados justificados em nome da fé. 

Por que ele é bom? Eu demorei uma semana e meia pra conseguir escrever esta resenha porque muitos feelings. Tudo que eu disser a respeito de como esse livro é bom não será nada comparado ao livro em si porque ele é excelente.

Talvez o fato de eu ter sido criada numa família extremamente religiosa fez com que eu tivesse medo genuíno enquanto lia as páginas desse livro. Mas seja lá pelo que for, o que nos faz ter medo do que a aia fala é que tudo o que é descrito pode ser real. Poderia ser. Poderia se tornar realidade. Basta que apenas algumas pessoas fiquem quietas em meio a mudanças sociais que restringem direitos de algumas partes da sociedade pra que esse tipo de realidade aconteça. Não é tão impossível assim.

Tudo começa aos poucos e então a coisa fica violenta. No início, as contas de banco de todas as mulheres são bloqueadas. E então é um passo pra que elas não possam mais trabalhar e tenham de depender inteiramente de seus pais e maridos. Não é muito diferente do que acontece em alguns países ainda hoje. Se a gente olhar, por exemplo, o que foi o regime Talibã no Afeganistão (há pouco mais de dez anos), veremos que essa realidade não está tão longe de nós quanto podemos pensar.

O livro é incrível porque é uma distopia que poderia ser real e que já se tornou realidade pra muita gente. E vamos lembrar que ele foi escrito na década de 80.

Tem um diálogo que a Offred, narradora de O conto da aia, tem com a mãe dela antes da ditadura teocrática tomar o poder que me fez pensar muito a respeito das coisas que estão acontecendo atualmente e como elas estão acontecendo: 

"Vocês jovens não dão valor às coisas, dizia. Não sabem as coisas por que tivemos que passar, só para conseguir fazer com que vocês chegassem onde estão. Olhe só para ele cortando as cenouras. Vocês não sabem quantas vidas de mulheres, quantos corpos de mulheres os tanques tiveram que passar por cima só para chegar a este ponto?
Cozinhar é o meu hobby, dizia Luke. Gosto de cozinhar.
Hobby, coisa de trouxa, diria a minha mãe. Você não precisa inventar desculpas para mim. Houve um tempo em que não lhe teria sido permitido ter um hobby desses, teriam chamado você de bicha.
Não, mãe, eu dizia. Não vamos começar a discutir por nada.
Por nada, dizia ela com amargura. Você chama isso de nada. Você não entende, não é. Você não entende absolutamente nada do que estou falando."

Fora toda essa crítica social a religião vs Estado, também há a questão da maternidade: mulheres estéreis eram literalmente consideradas Não Mulheres, retiradas da sua condição de gênero e passavam a trabalhar em campos altamente contaminados com radiação, pois não faria parte da sociedade quem fosse velha ou não pudesse produzir filhos. Nós, desde crianças, somos expostas a filmes e livros e todo o tipo de mídia e história sobre como a maternidade é maravilhosa e completa a mulher. Só que não é bem assim. E ainda bem que hoje em dia temos uma certa noção de que podemos dizer não a esses padrões sociais e viver nossas vidas sem filhos - ou com, se for uma escolha nossa. Mas imagine viver em uma sociedade em que você só tem valor se puder parir. E se você não puder parir, por ser velha ou coisa do tipo, mas estiver casada, então seu marido arrumará uma aia, uma mulher jovem e fértil, que lhe dará filhos - assim como os patriarcas da Bíblia fizeram. Horrível.

É assustador, mas necessário pra vida fazer essa leitura.

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Por que ele é ruim? Ele não é ruim de forma alguma, mas a leitura foi bem cansativa nas primeiras quarenta páginas. Só que isso se dá pelo fato de que, além da narrativa ser exaustiva por tratar de temas tão pesados, a narradora fala em primeira pessoa e eu tenho certa dificuldade com livros em primeira pessoa porque é tudo muito íntimo, muito restrito ao olhar daquela narradora. Prefiro livros com um narrador universal. Mas isso é questão de preferência mesmo. O livro não perde em nada por conta disso.

Você vai gostar se... for uma pessoa crítica, que gosta de distopias por elas nos trazerem cenários possíveis que devemos evitar. Também vai gostar quem gostou das distopias clássicas, como 1984 e Admirável mundo novo.

Em um quote:

"Somos para fins de procriação: não somos concubinas, garotas gueixas, cortesãs. Pelo contrário: tudo o que era possível foi feito para nos distanciar dessa categoria. [...] Somos úteros de duas pernas, apenas isso: receptáculos sagrados, cálices ambulantes." 

O cúmulo do ridículo

É estar andando tranquilamente da estação de trem pra o Mercado Público comprar 1 quilo de aveia e ser abordada por duas mulheres armadas que me roubaram exatamente: 
- meu CPF que estava quebrado e eu precisaria trocar de qualquer forma; 
- o cartão de um banco em que eu não tenho absolutamente nada; 
- 1 espelho arranhado; 
- 1 porta-níquel caindo aos pedaços; 
- uns trocados tão ricos que não dava pra comprar nem um livro; 
- 1 celular estragado que estava ali só em caso de roubo mesmo. 

O único inconveniente foi o CPF, de resto estamos de boas, estamos tranquilas. 

Mas que é ridículo, é. 

Affs

E é por isso que eu não gosto de pessoas

As pessoas sempre perguntam: "Mia, por que tu tem tanta raiva?", "Mia, por que tu não gosta de pessoas?" e variações ridículas dessas perguntas. A resposta é sempre a mesma: porque eu moro em Viamão e passo horas no transporte público todos os dias e não tem como você manter a serenidade nessas condições. 

Viamão é uma cidadezinha-dormitório que fica ao lado da capital, Porto Alegre. Quem já foi a Porto Alegre, especialmente pelo centro, sabe que aquilo é o inferno em forma de metrópole: gente gritando, gente suada, gente expelindo fumaças fedidas e fazendo com que seu banho com óleos perfumados e hidratação não adiante de nada porque todo mundo fede nessa cidade maldita. 

Viamão é pior. 

Por mais que Porto Alegre seja uma cidade dozinfernos porque as pessoas de todas as cidades vizinhas vão pra lá e tem uma lotação incrível de gente estranha, de todos os tipos, circulando em todos os lugares, por algum motivo - talvez justamente por ser MUITA gente - o povo se controla um pouco e é minimamente educado. 

Isso não acontece em Viamão. 

Em Viamão as pessoas só não se chutam porque todo mundo se cuida muito pra não ficar no caminho de ninguém. Pegar um ônibus viamonense significa andar no transporte oficial de Satanás porque é uma mistura de tudo que é ruim: sujeira, ônibus caindo aos pedaços sem manutenção e que não veem uma água com detergente há uns bons anos, cheiros estranhos de vômito, cachaça e cheetos, horários que simplesmente não são cumpridos pois os motoristas de Viamão são espíritos livres e encaram a tabela de horários como uma mera sugestão da empresa, cobradores que não dão troco e gente mal-educada. 

Veja bem, tudo isso que eu falei é apenas uma amostra porque o horror mesmo está no último item: as pessoas mal-educadas. E se você vier aqui me dizer que é preciso amar as pessoas com se não houvesse amanhã e toda essa vibe só-o-amor-salva eu vou lhe dar uns tabefes virtuais porque vá tomar no meio do seu cy. Eu odeio gente mal-educada e jamais compreenderei pessoas que vão pra um transporte coletivo pra azucrinar a existência alheia. 


As pessoas nos ônibus dessa cidade dozinfernos - que nem hospital tem porque FECHOU e cujos postos de saúde não funcionam - simplesmente entram nas viagens pra fazer seu pior. Cada viagem é como uma competição de Quem Pode Fazer Pior. A começar pelo fato de que aparentemente ninguém toma banho. Não sei quantas vezes tive que enrolar a echarpe na cara porque não estava sendo possível respirar sem querer vomitar a cada segundo por causa do fedor. Não sei como diabos alguém sai de casa fedendo, mas as pessoas de Viamão têm esse dom e parecem não se importar nem um pouco com a palavra do sabonete. 

Como se isso não bastasse, elas gritam. O tempo todo. Sobre tudo. Porque aparentemente o cidadão viamonense médio desconhece o uso do volume normal e comedido em conversas. Ele quer que todo o ônibus escute o que ele diz. E grita. E gargalha. E grita mais um pouco. 

Imagine um ônibus com mais de setenta pessoas gritando e fedendo. Pois é. 


Aí vem o que aconteceu ontem. Uma noite infernal, 23h e eu cansadíssima só querendo ir pra casa. Não achei lugar pra sentar, havia cerca de 70 pessoas sentadas + 30 de pé e fiquei espremida num canto, de pé, esperando aquela longa viagem dozinfernos terminar. Mas parece que quando a gente quer chegar logo num lugar aí é que a coisa demora, e não foi diferente dessa vez.

Porém, tive sorte: vagou um lugar. Corri pra ficar sentadinha, abri o livrinho da vez (Brida, sim, do Paulo Coelho, e vocês aí com seu preconceito literário que vão catar coquinho) e fiquei felizinha lendo. Quer dizer, assim estava, até acontecer de um grupo de passageiros começar a ter uma animada reuniãozinha uns bancos atrás de mim.

Juro pela deusa que não é que eu odeie pessoas, mas ninguém coopera pra ser querido porque vamos combinar que a última coisa que se quer num ônibus lotado, fedido, que ainda tem 1h de viagem às 23h é ouvir gente gritando, gargalhando e fazendo tamanho escândalo que olhei pra trás porque jurei que uma daquelas pessoas estava com um megafone.

Mas a errada sou eu por detestar pessoas, né? É.

O resultado disso foi uma dor de ouvido por causa dos gritos dessa gente. Eu tenho ouvidos sensíveis. Não suporto nem gente falando alto perto de mim (vejebem que eu disse alto), que o fará gritando. A dor foi tanta que mal consegui dormir, acordei diversas vezes no meio da noite e fiquei com dor - que se espalhou pela cabeça - até metade da tarde de hoje. Mesmo medicada. Porque AS PESSOAS SÃO UNS VERMES SEM EDUCAÇÃO QUE NÃO SABEM SE COMPORTAR EM PÚBLICO!!!!

Mas a gente tem que amar as pessoas como se não houvesse amanhã senão o fantasma do Renato Russo vem puxar nosso pé, né?

É.
 

Um atlas todo feito de nuvens

Atlas de nuvens
David Mitchell
538 páginas
Companhia das Letras
Ano de publicação: 2016 

Sobre o que é: David Mitchell decidiu escrever um livro com seis histórias diferentes, mas que na verdade são a mesma: a grande história da humanidade e como ela sempre acaba estragando tudo por causa da ganância e do desejo de poder absoluto. De acordo com o Skoob, o livro é sobre "um viajante forçado a atravessar o oceano Pacífico em 1850; um jovem compositor deserdado, conquistando à força de tortuosas invenções um modo de vida precário num solar da Bélgica, entre a Primeira e a Segunda Grande Guerra; uma jornalista com princípios morais na Califórnia do governador Reagan; um editor menor fugindo aos seus credores mafiosos; o testamento de uma 'criada de restaurante' geneticamente modificada, ditado na ala da morte; e Zachry, jovem ilhéu do Pacífico que assiste ao crepúsculo da Ciência e da Civilização: são os narradores de 'Atlas de Nuvens', que escutam os ecos uns dos outros através dos corredores da história e veem os seus destinos alterados de várias maneiras." Eu não vou discordar, mas ele é sobre muito, muito mais do que isso. 

"Deitado no fundo do caiaque fiquei veno as nuve. As alma travessa os tempo que nem as nuve travessa o céu, e por mais que mude a forma e a cor e o tamanho da nuve ela continua seno nuve, e as alma tamém. Quem que sabe dizer de adonde que veio a nuve ou quem que a alma vai ser amanhã? Só Sonmi o leste e o oeste e a bussa e o atlas, é, só o atlas de nuve." 

Ano passado vi o filme que fizeram desse livro. É um filme gigantesco, de 3 horas, chamado Cloud Atlas (e horrivelmente traduzido como A Viagem porque por algum motivo o pessoal da indústria cinematográfica acha que brasileiro é burro e não entenderia a referência do título), mas que eu vi sem nem notar a duração e terminei querendo mais. Tanto que em seguida revi o filme. Fiquei completamente obcecada com a história e fui pesquisar sobre. Aí descobri que a Companhia das Letras havia recém lançado o livro aqui em nossas terras. EU PRECISAVA DELE. Fiquei tão contente que assim que consegui a parceria com a editora (♥) solicitei o livro. 

Eu sou uma pessoa que acredita em reencarnação, que acredita em outras vidas e que o propósito de uma alma não é cumprido em apenas uma vida, mas sim em várias. Também acredito que ninguém precisa ser O Grande Salvador pra ter um destino e que mudanças - destinadas ou não a acontecer - acontecem de pessoas comuns, gente como a gente que estuda, trabalha e vive da melhor forma possível. 

É sobre isso que esse livro trata. São seis histórias que se entrelaçam. Cada história se passa numa época diferente e tem pessoas diferentes, porém a gente percebe que algumas dessas pessoas são as mesmas, mas vivendo situações bem diversas, só que com um tema em comum: pessoas gananciosas querendo levar vantagem mesmo que os outros se ferrem. E é aí que essas personagens são colocadas em teste: me meter e acabar mal ou olhar pra o lado e esperar que outro tome conta da situação? 

As seis histórias são lindas, cada uma de um jeito. 
(Não tem spoilers, podem relaxar que não faria uma malvadeza dessas.) 

Na primeira, Diário de viagem ao Pacífico de Adam Ewing, um simples advogado americano do século XIX acaba se metendo numa viagem ao Pacífico e registra em seu diário as crueldades que ele viu serem cometidas contra negros e índios - e é aí que ele percebe que o admirável homem branco & europeu não é tão bonzinho assim e que os missionários cristãos não estão lá no meio dos índios apenas de boa vontade para servir ao "Senhor".

Anos depois, na segunda história, Cartas de Zedelghem, em 1931, um rapaz chamado Robert Frobisher é apaixonado por música e quer muito dedicar sua vida a isso, só que a família o rejeitou porque "onde já se viu um músico numa família renomada!", então ele tenta viver a vida sem nenhum tostão e acaba tendo suas ideias roubadas por um músico já prestigiado, mas velho e doente, que o emprega só pra poder produzir mais alguma coisa antes de morrer e ser conhecido por ter uma obra decente. Enquanto passa perrengues com esse músico, Robert acha um velho diário de viagem de um advogado americano e fica fazendo leitura daquilo, maravilhado. Enquanto isso, ele escreve cartas para Rufus Sixsmith, seu melhor amigo e amante. 

Mais alguns anos se passam e temos a terceira história, Meias-vidas - o primeiro romance policial da série Luisa Rey, meu núcleo preferido do livro, o núcleo jornalístico de Luisa Rey, uma foca cujo pai era um baita jornalista, mas que não quer viver à sombra do pai e infelizmente só consegue trabalho em um jornal que está 100% nem aí pra verdade dos fatos. Até que um dia ela fica presa no elevador com um senhorzinho físico chamado Sixsmith, que era o amor da vida do jovem Robert Frobisher lá na década de 30. Sixsmith acaba confiando naquela guria não apenas por ter ouvido falar do pai dela ou por ela parecer honesta, mas porque ela tem o mesmo sinal em forma de cometa que o Robert tinha. E aí Luisa se envolve numa conspiração louquíssima cheia de assassinos e problemas de gente com poder querendo mais poder. 

Não sabemos quanto tempo se passa entre a terceira e a quarta histórias, mas a quarta é a mais divertida de todas: O pavoroso calvário de Timothy Cavendish é a história de um senhorzinho editor de livros que foi parar num asilo horroroso graças a seu irmão, que o trancou lá dizendo que era um hotel. São horríveis as situações pelas quais ele passa, mas ele tenta matar o tempo lendo um manuscrito de um livro que ele recebeu: o primeiro romance policial da série Luisa Rey. E justamente essa história o inspira a fazer algo que ele nunca faria. 

Então muitos séculos se passam e estamos mais ou menos em 2250, na Coréia, e essa parte do livro é uma entrevista, Uma rogativa de Sonmi~451, em que a Sonmi, uma nascida-clone pra servir durante 12 anos numa rede de fast food, acaba se libertando e conhecendo o mundo fora daquele rede e percebendo como o governo escraviza pessoas para ter mais lucro. O mundo virou uma coisa louca, um Grande Império Capitalista, e as pessoas não são cidadãos, mas consumidoras. 

Novamente não dá pra saber quanto tempo se passa, mas a sexta história é no Havaí pós-Queda, ou seja: aquele mundo da Sonmi acabou sendo completamente tomado por consumidores e eles consumiram tanto que esgotaram os recursos naturais e toda sua produção tecnológica se extinguiu por falta de conhecimento pra lidar com aquilo e/ou matéria-prima. O vau do Sloosha e o que deu adespois é narrado por Zachry, um rapaz do Vale que um dia é obrigado a hospedar uma Presciente, uma mulher "das Ciença", do que restou da Queda, e vê sua vida mudar por conta disso. 


Atlas de Nuvens é um livro lindo, visualmente e também no conteúdo. Não gosto muito de livros com mensagens porque parece que eles tendem a ver o leitor como meio burro, que precisa ter uma moral da história pra entender as coisas. Também não acho que histórias precisem ter uma moral no final ou uma lição ou qualquer coisa que o valha. Acredito demais no poder da ficção de nos levar a outros lugares pra poder compactuar com essa ideia velha de que a gente lê pra aprender algo. A gente lê porque quer, porque gosta, porque é bom. A gente lê pra conhecer novos lugares ou pra se entreter. Mas não porque temos de aprender algo e fazer algo útil. A vida já nos cobra utilidade demais e certamente não precisamos colocar isso na nossa esfera de entretenimento e paz. 

Só que esse livro tem uma mensagem e não dá pra ignorar isso. Também não dá pra dizer que ele é ruim. Acho que o que o David Mitchell fez é genial porque ele não nos esfrega uma lição na cara ou nos diz "viram, é isso que vocês deixaram escapar e eu me dei conta e estou mostrando, rá!". O que ele faz é simplesmente nos acompanhar cenas de vidas de gente comum, de gente normal, de gente que estava ali vivendo e que se deparou com situações que poderiam e acontecem na nossa vida cotidiana: gente sofrendo preconceito, pessoas com poder aquisitivo e/ou intelectual humilhando outras, um governo sem escrúpulos que escraviza seu povo, mas diz que tá tudo bem. 

O livro não é sobre reencarnação, mas tem pistas sutis que mostram que as personagens foram as outras em tempos passados. Eu acho isso muito consistente com as minhas crenças, mas tudo bem não achar. O livro não vai ficar menos bonito ou interessante se a gente ignorar completamente o fator vidas passadas. 

"É isso aí, mais ou menos. A meia-idade passou, mas é a atitude, e não o número de anos, que condena uma criatura à condição de Morto-Vivo, ou então lhe concede a salvação. No mundo dos jovens vivem muitas almas Mortas-Vivas. Elas correm de um lado para o outro de tal modo que sua putrefação interior permanece oculta por algumas décadas, só isso." 

Uma coisa que eu achei incrível e não posso deixar de mencionar é que o autor (e o tradutor, convenhamos) fez algo que a gente não tá acostumado: usou uma linguagem pra cada parte do livro. Como são seis histórias que se passam em épocas diferentes, a linguagem muda completamente de uma pra outra. Na do Adam Ewing, temos aquela escrita bem clássica, de 1800 e antigamente. Já quando a gente chega na da Somni, vemos que os "h" caíram e palavras como "história" agora viraram istória - coisa que eu acho que total vai acontecer e realmente vejo nossa gramática caminhando pra uma forma mais simples de escrita. Só que a grande surpresa é quando chegamos à última parte e percebemos que a linguagem ficou absurdamente simples, com aglomeração de palavras e sendo tudo extremamente coloquial. Inteligentíssimo da parte do David Mitchell, hein. Um pouco trabalhoso pra leitura, mas nada que realmente vá atrapalhar. 


Somos todos gotas d'água, afinal de contas

É um livro lindo, lindo, lindo demais que precisa ser lido, relido e guardado com muito carinho pra eventuais consultas. (Assim como o filme. ASSISTAM AO FILME. Não tem como não gostar.) 

Resuminho de agosto


Depois de um merecido descanso pós-BEDA, estamos aqui pra falar de agosto. Agosto foi mês de BEDA, ou seja, teve texto todo dia aqui no blog porque o pessoal da blogosfera entra numa loucura coletiva todo ano - ainda bem, adoro isso. Mas é até difícil falar desse mês porque O QUE FALAR, já que está tudo registrado nos trinta e um dias de posts? 

Como eu já falei, bedar é sempre uma experiência bacana e de autoconhecimento, mas também cansativa demais. E justamente por isso que eu não consigo entender como li OITO LIVROS EM AGOSTO.

Quer dizer, não é como se eu tivesse passado meu agosto à toa, somente lendo livrinhos e escrevendo textos diários no blog. Tive aulas, tive de dar atenção pras pessoas (sempre um suplício porque por algum motivo que desconheço as pessoas querem que eu lhes dê atenção; acho que ainda não descobriram que eu sou uma pessoa desinteressante, mas enfim), tive de ser funcional mesmo com dorzinhas no joelho que ainda persistem e vontade de matar meio mundo porque as pessoas são muito mal educadas. Mas cá estamos, com 8 leiturinhas no mês.

.do que li 


Finalmente terminei de ler a saga Harry Potter e muitos feels. Não tantos quanto eu imaginava, mas mesmo assim muitos. Quer dizer, eu pensei que fosse chorar, que ficaria triste, que blablabla. Mas nem? Gostei demais, só que não foi aquela emoção toda que sempre vejo as pessoas falarem que sentem ao ler os livros - o último especialmente.

Agora, o que dizer de Harry Potter e a criança amaldiçoada? Acho que já disse tudo o que havia pra ser dito aqui, mas reitero e reafirmo que J.K. VOCÊ ESTÁ LOUCA. 


Também reli o meu livro preferido da vida, também conhecido como A insustentável leveza do ser. Recentemente saiu um certo vídeo por aí falando de como o livro é erótico e sem enredo e sem roteiro e, olha: apenas não. O livro é maravilhoso, nada erótico e o enredo existe sim, só que não é da maneira como estamos acostumados a ler. Enfim, melhor leiturinha do mês. ♥

Acabei lendo A guerra não tem rosto de mulher pra faculdade, mas é aquele tipo de leitura que fica pra vida porque todo mundo deveria ler esse livro. Sim, mesmo quem não gosta de reportagens. Sim, mesmo quem não é fã da temática ~guerra~. Isso porque a gente precisa conhecer a história das mulheres que lutaram na guerra. (E não, as mulheres não foram apenas enfermeiras na guerra, isso quem nos faz pensar é a indústria cinematográfica e nossos livros de história, que são escritos majoritariamente por homens.)

Também li meu primeiro livrinho da Jojo Moyes, Em busca de abrigo. É aquilo que já falei: pensei que fosse odiar, mas acabei gostando bastante pois não é meloso e trata de dramas familiares. Essa vibe famílias que se odeiam muito me apetece e o livro não foi nada do que eu esperava - ainda bem!

Ainda li outros dois livros que não estão nas imagens porque não achei imagens com resolução decente deles no Grande Oráculo: O livreiro de Cabul, que é outra reportagem que conta as impressões de uma repórter norueguesa que passou 3 meses morando com uma família afegã após a queda do regime Talibã, em 2001. Em uma palavra: tenso. O que ela mostrou com esse livro-reportagem são as condições horríveis em que vivem as mulheres afegãs, como elas são vistas como mercadoria e maltratadas por todos. É simplesmente horrível.

Depois disso desanuviei lendo algo engraçado de tão bobo - mas divertido mesmo assim. Descubra a missão de sua alma usando a astrologia kármica foi um livro que devorei em um dia pois divertidíssimo - e tem algumas coisas aplicáveis à vida, eu acho. Descobri que a cor da minha alma é vermelho escuro e, sendo coincidência ou não, essa é a minha cor preferida e estou sempre com alguma peça vermelha no corpo. Também descobri que preciso ser mais escorpiana, mas acho que ninguém aqui quer isso porque se eu tiver mais características escorpiônicas vou virar uma pessoa muito mais séria do que já sou e estamos bem com a vibe aquariana de ser.

.do que estou lendo 

Tô na metade de Atlas de Nuvens e cheguei naquela parte em que o Zachry narra e, gente: essa parte tá difícil porque o David Mitchell resolveu mudar a forma de linguagem pra cada narrador/época, o que eu achei bem genial, só que quando chegamos nessa época, que se passa num futuro pós queda da humanidade altamente tecnológica e os seres humanos vivem uma nova Era do Bronze, a linguagem é bem prática, com uma gramática terrivelmente pobre e isso dá nos nervos.

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Na lista de leituras próximas, tô bem aflita porque tenho uma pilha de uns 10 livros pra ler, mas minhas prioridades estão entre O conto da aia e Brida (que veio em parceria com a editora pra o Valks ♥).

E é isso, gente.
Tô com uns trabalhos de reportagem em texto e em áudio pra fazer e vamos ver como se dará o processo de leitura e bloguices. Vamo que vamo que a gente consegue.