Um atlas todo feito de nuvens

Atlas de nuvens
David Mitchell
538 páginas
Companhia das Letras
Ano de publicação: 2016 

Sobre o que é: David Mitchell decidiu escrever um livro com seis histórias diferentes, mas que na verdade são a mesma: a grande história da humanidade e como ela sempre acaba estragando tudo por causa da ganância e do desejo de poder absoluto. De acordo com o Skoob, o livro é sobre "um viajante forçado a atravessar o oceano Pacífico em 1850; um jovem compositor deserdado, conquistando à força de tortuosas invenções um modo de vida precário num solar da Bélgica, entre a Primeira e a Segunda Grande Guerra; uma jornalista com princípios morais na Califórnia do governador Reagan; um editor menor fugindo aos seus credores mafiosos; o testamento de uma 'criada de restaurante' geneticamente modificada, ditado na ala da morte; e Zachry, jovem ilhéu do Pacífico que assiste ao crepúsculo da Ciência e da Civilização: são os narradores de 'Atlas de Nuvens', que escutam os ecos uns dos outros através dos corredores da história e veem os seus destinos alterados de várias maneiras." Eu não vou discordar, mas ele é sobre muito, muito mais do que isso. 

"Deitado no fundo do caiaque fiquei veno as nuve. As alma travessa os tempo que nem as nuve travessa o céu, e por mais que mude a forma e a cor e o tamanho da nuve ela continua seno nuve, e as alma tamém. Quem que sabe dizer de adonde que veio a nuve ou quem que a alma vai ser amanhã? Só Sonmi o leste e o oeste e a bussa e o atlas, é, só o atlas de nuve." 

Ano passado vi o filme que fizeram desse livro. É um filme gigantesco, de 3 horas, chamado Cloud Atlas (e horrivelmente traduzido como A Viagem porque por algum motivo o pessoal da indústria cinematográfica acha que brasileiro é burro e não entenderia a referência do título), mas que eu vi sem nem notar a duração e terminei querendo mais. Tanto que em seguida revi o filme. Fiquei completamente obcecada com a história e fui pesquisar sobre. Aí descobri que a Companhia das Letras havia recém lançado o livro aqui em nossas terras. EU PRECISAVA DELE. Fiquei tão contente que assim que consegui a parceria com a editora (♥) solicitei o livro. 

Eu sou uma pessoa que acredita em reencarnação, que acredita em outras vidas e que o propósito de uma alma não é cumprido em apenas uma vida, mas sim em várias. Também acredito que ninguém precisa ser O Grande Salvador pra ter um destino e que mudanças - destinadas ou não a acontecer - acontecem de pessoas comuns, gente como a gente que estuda, trabalha e vive da melhor forma possível. 

É sobre isso que esse livro trata. São seis histórias que se entrelaçam. Cada história se passa numa época diferente e tem pessoas diferentes, porém a gente percebe que algumas dessas pessoas são as mesmas, mas vivendo situações bem diversas, só que com um tema em comum: pessoas gananciosas querendo levar vantagem mesmo que os outros se ferrem. E é aí que essas personagens são colocadas em teste: me meter e acabar mal ou olhar pra o lado e esperar que outro tome conta da situação? 

As seis histórias são lindas, cada uma de um jeito. 
(Não tem spoilers, podem relaxar que não faria uma malvadeza dessas.) 

Na primeira, Diário de viagem ao Pacífico de Adam Ewing, um simples advogado americano do século XIX acaba se metendo numa viagem ao Pacífico e registra em seu diário as crueldades que ele viu serem cometidas contra negros e índios - e é aí que ele percebe que o admirável homem branco & europeu não é tão bonzinho assim e que os missionários cristãos não estão lá no meio dos índios apenas de boa vontade para servir ao "Senhor".

Anos depois, na segunda história, Cartas de Zedelghem, em 1931, um rapaz chamado Robert Frobisher é apaixonado por música e quer muito dedicar sua vida a isso, só que a família o rejeitou porque "onde já se viu um músico numa família renomada!", então ele tenta viver a vida sem nenhum tostão e acaba tendo suas ideias roubadas por um músico já prestigiado, mas velho e doente, que o emprega só pra poder produzir mais alguma coisa antes de morrer e ser conhecido por ter uma obra decente. Enquanto passa perrengues com esse músico, Robert acha um velho diário de viagem de um advogado americano e fica fazendo leitura daquilo, maravilhado. Enquanto isso, ele escreve cartas para Rufus Sixsmith, seu melhor amigo e amante. 

Mais alguns anos se passam e temos a terceira história, Meias-vidas - o primeiro romance policial da série Luisa Rey, meu núcleo preferido do livro, o núcleo jornalístico de Luisa Rey, uma foca cujo pai era um baita jornalista, mas que não quer viver à sombra do pai e infelizmente só consegue trabalho em um jornal que está 100% nem aí pra verdade dos fatos. Até que um dia ela fica presa no elevador com um senhorzinho físico chamado Sixsmith, que era o amor da vida do jovem Robert Frobisher lá na década de 30. Sixsmith acaba confiando naquela guria não apenas por ter ouvido falar do pai dela ou por ela parecer honesta, mas porque ela tem o mesmo sinal em forma de cometa que o Robert tinha. E aí Luisa se envolve numa conspiração louquíssima cheia de assassinos e problemas de gente com poder querendo mais poder. 

Não sabemos quanto tempo se passa entre a terceira e a quarta histórias, mas a quarta é a mais divertida de todas: O pavoroso calvário de Timothy Cavendish é a história de um senhorzinho editor de livros que foi parar num asilo horroroso graças a seu irmão, que o trancou lá dizendo que era um hotel. São horríveis as situações pelas quais ele passa, mas ele tenta matar o tempo lendo um manuscrito de um livro que ele recebeu: o primeiro romance policial da série Luisa Rey. E justamente essa história o inspira a fazer algo que ele nunca faria. 

Então muitos séculos se passam e estamos mais ou menos em 2250, na Coréia, e essa parte do livro é uma entrevista, Uma rogativa de Sonmi~451, em que a Sonmi, uma nascida-clone pra servir durante 12 anos numa rede de fast food, acaba se libertando e conhecendo o mundo fora daquele rede e percebendo como o governo escraviza pessoas para ter mais lucro. O mundo virou uma coisa louca, um Grande Império Capitalista, e as pessoas não são cidadãos, mas consumidoras. 

Novamente não dá pra saber quanto tempo se passa, mas a sexta história é no Havaí pós-Queda, ou seja: aquele mundo da Sonmi acabou sendo completamente tomado por consumidores e eles consumiram tanto que esgotaram os recursos naturais e toda sua produção tecnológica se extinguiu por falta de conhecimento pra lidar com aquilo e/ou matéria-prima. O vau do Sloosha e o que deu adespois é narrado por Zachry, um rapaz do Vale que um dia é obrigado a hospedar uma Presciente, uma mulher "das Ciença", do que restou da Queda, e vê sua vida mudar por conta disso. 


Atlas de Nuvens é um livro lindo, visualmente e também no conteúdo. Não gosto muito de livros com mensagens porque parece que eles tendem a ver o leitor como meio burro, que precisa ter uma moral da história pra entender as coisas. Também não acho que histórias precisem ter uma moral no final ou uma lição ou qualquer coisa que o valha. Acredito demais no poder da ficção de nos levar a outros lugares pra poder compactuar com essa ideia velha de que a gente lê pra aprender algo. A gente lê porque quer, porque gosta, porque é bom. A gente lê pra conhecer novos lugares ou pra se entreter. Mas não porque temos de aprender algo e fazer algo útil. A vida já nos cobra utilidade demais e certamente não precisamos colocar isso na nossa esfera de entretenimento e paz. 

Só que esse livro tem uma mensagem e não dá pra ignorar isso. Também não dá pra dizer que ele é ruim. Acho que o que o David Mitchell fez é genial porque ele não nos esfrega uma lição na cara ou nos diz "viram, é isso que vocês deixaram escapar e eu me dei conta e estou mostrando, rá!". O que ele faz é simplesmente nos acompanhar cenas de vidas de gente comum, de gente normal, de gente que estava ali vivendo e que se deparou com situações que poderiam e acontecem na nossa vida cotidiana: gente sofrendo preconceito, pessoas com poder aquisitivo e/ou intelectual humilhando outras, um governo sem escrúpulos que escraviza seu povo, mas diz que tá tudo bem. 

O livro não é sobre reencarnação, mas tem pistas sutis que mostram que as personagens foram as outras em tempos passados. Eu acho isso muito consistente com as minhas crenças, mas tudo bem não achar. O livro não vai ficar menos bonito ou interessante se a gente ignorar completamente o fator vidas passadas. 

"É isso aí, mais ou menos. A meia-idade passou, mas é a atitude, e não o número de anos, que condena uma criatura à condição de Morto-Vivo, ou então lhe concede a salvação. No mundo dos jovens vivem muitas almas Mortas-Vivas. Elas correm de um lado para o outro de tal modo que sua putrefação interior permanece oculta por algumas décadas, só isso." 

Uma coisa que eu achei incrível e não posso deixar de mencionar é que o autor (e o tradutor, convenhamos) fez algo que a gente não tá acostumado: usou uma linguagem pra cada parte do livro. Como são seis histórias que se passam em épocas diferentes, a linguagem muda completamente de uma pra outra. Na do Adam Ewing, temos aquela escrita bem clássica, de 1800 e antigamente. Já quando a gente chega na da Somni, vemos que os "h" caíram e palavras como "história" agora viraram istória - coisa que eu acho que total vai acontecer e realmente vejo nossa gramática caminhando pra uma forma mais simples de escrita. Só que a grande surpresa é quando chegamos à última parte e percebemos que a linguagem ficou absurdamente simples, com aglomeração de palavras e sendo tudo extremamente coloquial. Inteligentíssimo da parte do David Mitchell, hein. Um pouco trabalhoso pra leitura, mas nada que realmente vá atrapalhar. 


Somos todos gotas d'água, afinal de contas

É um livro lindo, lindo, lindo demais que precisa ser lido, relido e guardado com muito carinho pra eventuais consultas. (Assim como o filme. ASSISTAM AO FILME. Não tem como não gostar.) 

20 comentários

  1. Olá!! Já ouvi falar desse livro e do filme, mas confesso não ter dado muita importância antes. Você me pareceu muito empolgada a falar do filme e do livro e por isso vou ver e ler.
    Beijocas.

    www.meumundosecreto.com.br

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  2. Olá Mia;
    Um enredo um tanto quanto intrigante eu diria, para se refletir durante a leitura eu acredito.
    Que bom que o autor e companhia soube enriquecer a leitura com a línguagem condizente com a época, isso
    dá ainda mais realismo a história.
    Vou procurar o filme para assistir, pela sua resenha parece bom.

    https://cabinedeleitura0.blogspot.com.br/2017/09/eu-li-fake_8.html

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  3. Olá Mia,
    Conheci esse livro quando foi lançado e fiquei muito curiosa para fazer a leitura. Sua resenha é a primeira que leio do livro, se não me engano, e fiquei muito intrigada diante da grandiosidade dessa obra, parece ser fascinante. O autor parece ter dosado muito bem tudo e vou anotar a dica sem dúvidas.
    Beijos

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  4. Olá!
    Fiquei super interessada pela suas anotações ( pegadas)rs
    Vou anotar pra falar com propriedade,
    Bjs

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  5. Olá! Não conhecia o livro e nem o filme, mas pla sua resenha, deu para perceber que é uma história incrível. Também concordo que poderiam ter posto o título original no filme, acredito em outras vidas também e fiquei super curiosa para conhecer o livro, beijos!

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  6. Adorei esta parte da linguagem diferente para cada história. Um cuidado que fez diferença, vou anotar a dica.
    Bjs, Rose

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  7. Oi tudo bem?
    Não conhecia nem o livro e por ora o filme também. Fiquei bem curiosa quanto a leitura me parece uma leitura cheia de ensinamentos.

    Beijos

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  8. Eu já tinha visto esse livro por aí, mas nunca tinha lido sobre o que era a história. Acho que deve ser uma leitura maravilhosa e fiquei super curiosa para saber mais de cada uma das histórias.
    Beijos
    Mari
    Pequenos Retalhos

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  9. Oie,
    Nunca tinha ouvido falar do filme e nem do livro. Confesso que ao ler apenas a sinopse me senti bem confusa, mas ao ler sua resenha consegui entender perfeitamente a essência do livro e do filme. Também acredito em outras vidas e gostei da história ter um pouco disso, além da mensagem que o autor passa que é linda.
    Vou anotar a dica e ver o filme primeiro.
    Beijos
    Blog Relicário de Papel

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  10. poxa, curti esse lance da linguagem mudar conforme a época em que se passa a trama... acredita que eu tinha visto o lançamento mas nem me atentei sobre o que tratava a história? parece realmente ser uma leitura muito impactante...
    se tiver chance vou ler...
    bjs :D

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  11. Bom dia, gostei da resenha, bom que você gostou da leitura, anotei a dica.

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  12. Acredita que eu não conhecia esse livro, nem o filme?
    Também acredito em reencarnação, acredito que temos tanto a oferecer e aprender, que uma encarnação é pouco.

    Você despertou meu interesse e agora sinto que preciso conhecer logo estas histórias.

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  13. Olá, ainda não conhecia o livro nem o filme, mas pelo seu post fiquei com vontade de ver/ler. Achei interessantes todas as histórias, e gosto bastante quando diferentes tramas se entrelaçam em alguns pontos.

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  14. Olá!!! Fiquei super curiosa para ler o livro e assistir o filme. Ainda não conhecia e gostei bastante da sua resenha. Com certeza, vale super a pena, bjoooooo

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  15. Caramba!!!! Não conseguiria descrever esse livro tão bem como você conseguiu, parece ser um livro incrivelmente incrível!!!
    Preciso muuuito.
    Bjs

    https://blog-myselfhere.blogspot.com.br/

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  16. nunca tinha ouvido falar de nenhum dos dois! na verdade, o livro me chamou mais atenção... como são histórias diferentes, acho que no filme ficará confuso. enfim, vou anotar pra ver por mim mesma :)

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  17. Que capa lindaa. Primeira resenha que vejo sobre este livro e já gostei. A premissa é interessante, gostei da ideia de várias histórias. E fiquei louca para ver o filme, vou atrás. Haha. Amei a dica.

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  18. olá Mia, eu não conhecia o filme e nem o livro, mas depois da sua resenha quero assistir e lê-lo em breve *-* As historias do livro parecem bem bacana e esse detalhe da reencarnação me deixou bem curiosa *-*

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  19. O jeito como você monta suas resenhas é muito bom e atrativo, gostei tanto que só agora parando pra pensar que eu amaria ler esse livro, apesar de antes ter visto ele por aí e nem dado bola. Acho legal essa ideia de reencarnação implícita e tudo mais, além de acompanhar a vida de personagens concretos.

    Beijos!

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  20. Ainda nem li mas confesso que já estou completamente apaixonada por esse livro, parece ser uma leitura maravilhosa.

    http://laoliphant.com.br/

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