O Exorcista: o melhor livro de terror de todos os tempos

O exorcista 
William Peter Blatty
331 páginas
Harper Collins Brasil
Ano de publicação: 2013 

Sobre o que é: Regan MacNeil é uma menina de 12 que gosta de esculpir, desenhar, sair com sua mãe e brincar com um tabuleiro Ouija nas horas vagas. Numa dessas, ela começa a se comunicar com um espírito chamado Capitão Howdy e, a partir daí, coisas estranhas começam a acontecer e Regan fica muito doente. Mas será sua doença um problema médico ou um problema espiritual? 

Por que ele é bom? GENTE, QUE LIVRO! Eu sei que todo mundo parece conhecer a história, mas o filme e o livro - apesar de terem o mesmo plot - são bem diferentes um do outro. 

Quando eu li esse livro pela primeira vez, lá por 2013, fiquei com tanto medo que olhava pra trás a cada quinze minutos pra verificar se não tinha um espírito me encarando. Ele é realmente um livro assustador e as descrições da possessão demoníaca que Regan sofre são horríveis. O clima de tensão aumenta a cada página e parece que o clima ao redor da pessoa leitora também fica denso. Mas isso foi em 2013. A releitura que fiz agora, em 2017, me deu uma visão bem diferente desse livro sensacional e me fez perceber que ele é realmente o melhor livro de terror já escrito.

O que o Blatty fez foi genial porque em nenhum momento do livro ele afirma que é o demônio Pazuzu que está dentro da Regan fazendo com que ela vomite aquela batida de abacate ou que fale mil palavrões em trocentas línguas. Não. O que ele faz é dar argumentos tanto pra parte religiosa quanto pra médica. É dito o tempo inteiro motivos científicos pra Regan apresentar esses sinais de possessão. Só que, pra quem tem fé, esses mesmos sintomas podem ser interpretados como um demônio no corpo da guria.

Eu realmente acredito que o problema da Regan não é espiritual, mas sim médico. Não que eu seja uma pessoa cética, mas a guria claramente tinha probleminhas emocionais que foram se agravando com as coisas que acontecem no livro até chegar àquele ponto horroroso. Só que aí pegar e transformar um caso que possivelmente seria resolvido com medicação e tratamento extenso e dizer que é tudo culpa do demônio e o que a guria precisa é de um padre é algo perigosíssimo que foi tratado de forma incrível pelo Blatty.

O livro assusta por ser algo que poderia acontecer. É muito fácil confundir uma doença psicológica com um demônio se você tiver alguma crença religiosa. Foi esse tipo de coisa que levou a tratamentos estapafúrdios com exorcismos, ao atraso da medicina em séculos e à morte de várias pessoas durante muito tempo na história porque às vezes é mais fácil crer que o mal seja algo intocável, espiritual, misterioso do que algo que tá ali, que pode ser racionalmente explicado e que coisas horríveis realmente podem acontecer com nosso corpo por conta de uma doença e nada disso é relacionado ao demônio.


As pessoas qualquer coisa é ÓOOO O DEMÔNIO quando a pessoa só precisa mesmo é de bons médicos e tempo pra se recuperar. MAS VAMOS CULPAR O DEMÔNIO POR TUDO, ISSO AÍ. O comportamento humano é muito mais assustador do que qualquer demônio, podem ter certeza.

Por que ele é ruim? Ele não é ruim. Mesmo. Na verdade, entrou pra minha lista de favoritos da vida assim que fiz a releitura e percebi que ele não é apenas mais uma historinha de terror, mas tem toda uma construção incrível sobre ciência vs religião. Mas pode assustar numa primeira leitura, porém nada que vá fazer ter pesadelos.

Vale lembrar que a gente fala da Regan e da possessão, mas a história MESMO é a do padre Karras, que é o exorcista do livro, um padre psiquiatra que perdeu a fé em deus e no mundo após ver tantas coisas erradas e sentir culpa por não poder mudá-las. A Regan está lá como forma de testar a fé dele, de ver como ele vai se sair com isso, mas a gente sempre esquece que a questão não é a possessão, mas a fé (ou a falta dela) e como coisas que não podemos impedir nos afetam a ponto de sentirmos tanta culpa que acabamos caindo em estados terríveis por causa da nossa mente e da incapacidade de nos perdoarmos. 

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Você vai gostar se... já viu o filme trocentas vezes (assim como eu), adora histórias de terror, gosta de enredos que te deixam na dúvida entre o sobrenatural e o real ou apenas quer levar uns sustos mesmo.

Em um quote:

— Afinal, e todas aquelas histórias na Bíblia sobre Cristo expulsar todos os demônios?
— Veja, se Cristo tivesse dito que aquelas pessoas que supostamente estavam possuídas tinham esquizofrenia, e eu imagino que tinham, ele provavelmente teria sido crucificado três anos antes. 

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Como se faz uma bruxa

Este vai ser um post longo e pessoal, então já vou avisando pra arrumarem seus chazinhos, sentarem confortavelmente ou deixarem isso pra mais tarde porque aqui vou eu. 

Final de semana passado parei pra finalmente ver um filme que todo mundo já viu: A Bruxa (2015). Eu deliberadamente evitei ver o filme nos últimos dois anos porque, apesar de eu amar filmes de terror, às vezes rolam umas identificações meio absurdas com essas histórias de fantasma, espírito e coisas que estão ali mas não deveriam estar. 

A história do filme é aquela que vocês já devem conhecer: alguns anos antes dos acontecimentos de Salém, uma família sai da Inglaterra e vai pra Nova Inglaterra (que se tornaria Estados Unidos depois) e fica lá, vivendo da fazendinha e isolados de todos. Literalmente. Coisas começam a acontecer e é claro que o bode expiatório usado pra desculpar tudo é a bruxa. Que precisa ser alguém. Que acaba sendo a filha mais velha porque alguém precisa ser culpado por toda a desgraça que está acontecendo.


Esse filme me assustou de verdade. Não pela cena com o bode demoníaco (que ficou bem legal, mas não é o ponto forte pra mim) ou o final (que achei bem forçado, na verdade), mas sim por toda a construção narrativa da tensão do puritanismo cristão. Aquela coisa horrorosa de achar um bode expiatório, de sempre se considerar pecador, culpado, de acreditar ter nascido com o pecado original e precisar eternamente se redimir a uma criatura que ninguém nunca viu ou ouviu é simplesmente assustadora. Assusta porque é algo imposto e é algo que sabemos que aconteceu. Aquele século XVI foi de um puritanismo absurdo de tão forte. Não que isso não tenha havido em outros séculos, mas a concentração que teve ali de fanatismo foi tão forte que deu origem à histeria coletiva da caça às bruxas de Salém. 

Obviamente que esse episódio passou e hoje em dia a gente tem mais acesso a coisas como informação de que esse tipo de bruxa que eles achavam existir na época não existe. (Tem gente que pratica o que é chamado de bruxaria, mas isso é outra coisa bem diferente.) Só que ainda existe uma repressão religiosa forte, um puritanismo que beira o fanatismo e gente tapada que acha que só a igreja salva e todo o resto é do demônio. 

Aí você vai me dizer que é exagero e eu vou lhe dizer que: queria eu que fosse. Como já disse algumas vezes aqui, cresci numa família evangélica. Mas era tudo relativamente tranquilo até a gente se mudar pra o local onde moro hoje, o local onde encontrei as piores pessoas que já conheci até agora. 

Fui chamada de bruxa pela primeira vez aos 11 anos. Foi por meus colegas de classe. Não era bullying normal de criança que chama a outra de qualquer termo pejorativo. Eles realmente tinham medo de mim. Ninguém chegava perto, ninguém me encostava. Se eu falava algo, todo mundo parava achando que eu tinha poderes sobrenaturais e que podia amaldiçoá-los. Eu nem sabia o que era uma bruxa pra além do que havia visto nos filmes da Disney, mas era chamada disso por ser estranha. E os pais desses meus colegas eram uns fanáticos que colocaram na cabeça dos filhos que não deveriam se aproximar da bruxa

Depois a coisa continuou. Eu ainda frequentava a igreja com a minha família e a coisa chegou a um ponto em que o pastor da época disse, em pleno altar pra todo mundo ouvir, que eu iria pra o inferno por ser uma pessoa corrupta e estar corrompendo as pessoas. Eu só tinha 17 anos, veja bem que grande corrupção eu fazia. Mas eu era uma bruxa porque me vestia diferente, nunca fui adepta do fanatismo mesmo que participasse dos cultos (mas era uma obrigação social, não algo real pra mim) e sempre tive esse humor peculiar que todo mundo conhece. Aí eu era a bruxa. Porque enquanto eles entravam na histeria coletiva de chorar e se atirar no chão dizendo sentir deus, eu tava lá, rindo daquela palhaçada toda porque eu já senti muitas coisas dentro de uma igreja: raiva, desprezo, nojo, solidão, angústia... Mas deus não foi uma delas. 

Aproveitei essa deixa pra sair de uma vez por todas e nunca mais voltei pra aquele inferno de gente fanática. Mas continuo vivendo aqui. E encontro essas pessoas todos os dias. E todos os dias elas riem de mim, mas se escondem se eu olho. Sussurram um "olha a bruxa" e fazem um sinal da cruz quando eu passo. Essas pessoas são amigas dos meus irmãos, que continuaram nessa seita maluca que está cada vez mais ganhando força no país porque as pessoas são ignorantes demais pra perceber a vibe errada que isso é. 

Uma vez uma família dessa igreja invadiu a minha casa pra tentar matar a bruxa. Obviamente não conseguiram porque eu fui mais ágil e me tranquei no quarto, ligando pra polícia (o que não resultou em nada porque um dos chefes da polícia daqui é integrante desse culto maluco e encobriu tudo). Mas eles conseguiram machucar a minha mãe no processo. E só não foram adiante pelo medo da polícia chegando. 

Aí eu vejo um filme desses e fico com medo real porque eu sei bem o que a histeria coletiva de uma fé cristã pode fazer com alguém. Sei bem o que forma uma bruxa. Não é se ela fala com o diabo ou não, se dança nua numa floresta, se tem saquinhos de feitiço na bolsa. Não. O que forma uma bruxa é a intolerância das pessoas de bem que estão sempre prontas a condenar qualquer um que não concorde com elas, que seja ligeiramente diferente delas.

~cena do filme~ 

Depois eu falo que odeio pessoas e odeio religiões e ninguém sabe o porquê. Mas essa loucura de fanatismo roubou minha infância/adolescência e tirou a vida de milhares de mulheres ao longo da história, transformando-as em coisas que elas não eram. Sinceramente, melhorem.*

*"Ah, mas isso é injusto porque sou cristã e nunca fiz ou ouvi falar disso." Joinha pra você, continue assim, mas os cristãos que eu conheço são bem horríveis. Mas sempre há tempo pra ser uma pessoa melhor, independente de religião; eu acho.  

O livro do juízo final

O livro do juízo final
Connie Willis
572 páginas
Suma
Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: em 2054 as viagens no tempo já são uma realidade - ao menos na faculdade de História de Oxford - e Kivrin, uma futura historiadora, está louca pra ir pra Idade Média conhecer o dia a dia do povo de lá. A ideia é fazer um estudo de campo, porém o século para onde ela vai está marcado com um 10, indicando um alto risco. Mas Kivrin consegue um professor que a apoie pra que possa realizar o salto para a Inglaterra de 1320. No entanto, assim que ela consegue ir, uma doença misteriosa se espalha por Londres e entra uma quarentena em ação - impedindo que monitorem a viagem de Kivrin e ameaçando sua volta pra casa. 

Por que ele é bom? MEU DEUS QUE LIVRO INCRÍVEL!!!! Antes mesmo de terminar a leitura já havia marcado ele como favorito no meu coração porque ele é demais mesmo

Eu adoro ficção científica, mas não leio tanto quanto deveria pra quem gosta do gênero porque desanimei um pouco com aquelas descrições infinitas de termos científicos e blablabla que costumam rechear esses livros e atrapalhar a história. Só que isso não acontece com O livro do juízo final. O que temos aqui é uma das melhores narrativas que já tive o prazer de ler. 

Como apaixonada por história que sou e levemente obcecada em aprender mais sobre como vivemos em outras épocas, fiquei encantada com a descrição que a Connie faz da Idade Média. Ela não romantiza nada, é tudo muito cru: as doenças, a sujeira, a fome e também a religiosidade fortíssima que o povo tinha. Afinal, na Idade Média a Igreja tinha muito poder e basicamente tudo girava em torno da fé católica. E a Connie mostra bem isso. Claramente ela fez uma pesquisa histórica bem detalhada porque a narrativa dela - assim como as personagens - convencem demais de que tudo que está acontecendo ali é real. E eu adoro isso em um livro.

Amei demais também o fato de que uma das personagens principais (existem duas, uma pra cada época) é uma mulher: a Kivrin, a estudante que vai pra 1320. São poucos os livros de ficção científica escritos por mulheres, ainda mais os que têm uma mulher como protagonista - e que não é, de forma alguma, sexualizada ou tratada como inferior por seu gênero. 

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A Connie acertou demais ao escrever a Kivrin: uma guria forte e decidida que se preparou durante 2 anos pra ir pra Idade Média e que não desistiria disso mesmo com todos os obstáculos (como, por exemplo, o fato de a caça às bruxas já ter começado, o total desprezo que sentiam por mulheres na época ou o perigo de doenças como a peste negra e outras tantas que não foram catalogadas, mas que deixaram vários mistérios no ar, como aquela em que as pessoas começavam a dançar e não paravam nunca mais e literalmente morriam dançando). Kivrin dá um jeito, se prepara, estuda incansavelmente os costumes e a língua da época e inventa uma história sobre quem é pra que ninguém possa duvidar dela. 

Já em 2054, o outro núcleo do livro, temos o sr. Dunworthy, um dos professores de Kivrin e o que mais gostava dela e era totalmente contra o salto dela pra 1320. Também gostei bastante da forma com que ele é construído, sendo uma pessoa preocupada e atenta a tudo, sempre tentando auxiliar Kivrin. Ele é um pouco paternal demais, mas eu também seria se uma aluna minha fosse pra Idade Média e eu não conseguisse rastrear ela porque a cidade está em quarentena com uma doença sinistra e não identificada. 

Connie escreveu esse livro nos anos 90, mas já fez o que tem gente que em pleno 2017 não faz: colocou personagens femininas fortes no enredo. Além da Kivrin, temos também a Mary, a médica que descobre a doença misteriosa e cuida da quarentena em 2054. Mary é maravilhosa demais e só tenho amor pela determinação dessa mulher. 

Aliás, é todo mundo determinado nesse livro e eu adoro pessoas decididas, então pensem numa leitora feliz. :) 

Resumindo: 
SCI-FI 
ESCRITO POR MULHER 
PROTAGONIZADO POR MULHER 
COM VIAGEM NO TEMPO 
PRA IDADE MÉDIA 

VÃO LER ISSO JÁ!!!! 


Por que ele é ruim? ELE NÃO É RUIM, VÃO LER ESSE LIVRO! Até vi gentes falando que ele é arrastado, mas não achei. Acho que é um livro bem construído e não tem por que achar arrastada descrições já que a ideia da Kivrin era fazer um estudo de campo pra relatar como era a vida em 1320, então não considero que haja nada sobrando, não. 

Você vai gostar se... curte umas vibes Doctor Who, adora histórias com viagem no tempo, é fascinado por história e sempre quis dar um pulinho na Idade Média pra ver qualéquié. Também vai adorar se quiser ler um livro com 0% de machismo e que tem personagens que poderiam ser muito reais, sem aquele exagero sexual todo que sempre acabam colocando em livros assim. É demais, leiam isso. 

Em um quote:

— Será que não havia uma só pessoa de bem na Idade Média?
— Estavam todas ocupadas, queimando feiticeiras. 

~livro recebido em parceria com a editora~

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Meus filmes preferidos são filmes de terror (ou: o que ver no dia das bruxas)

~The Magic Circle, John William Waterhouse~

Quando eu tinha 5 anos, meus primos me trancaram na sala da casa da minha avó e colocaram O Exorcista pra rodar - naquelas fitas VHS antigonas. Obviamente eu morri de medo e fiquei semanas enxergando a Reagan aonde quer que eu fosse. Mas isso passou e me fez perder o medo de histórias apavorantes. Acabei pegando gosto pela coisa e agora estamos aí, já tendo visto praticamente todos os filmes do gênero e querendo mais. 

Eu realmente fico muito animada com o dia das bruxas. Não pela questão bruxaria e rituais e blablabla (sou cética demais pra isso), mas porque eu adoro essa temática do terror. No resto do ano sempre fico meio deslocada porque as pessoas costumam preferir filmes românticos, histórias bonitinhas e coisa e tal, mas eu não funciono nesse universo de coisas fofinhas. Amo demais terror e adoro uma boa história com sustos e mistérios e aparições. 

Coincidência ou não, meus filmes preferidos são de terror e eu vou listá-los agora porque vocês precisam ver essas coisas maravilhosas. 

O iluminado 


Ninguém vai me convencer de que esse filme não é bom. Tô 100% nem aí pra o fato de o Stephen King não ter gostado dele porque, olha, esse filme é GENIAL. Não é só porque é do Kubrick, apesar dele ter sido um ótimo diretor, mas porque a história é maravilhosa e as atuações são melhores ainda (JACK NICHOLSON, TE DEDICO!). 

Tudo se passa dentro do Hotel Overlook, onde Jack, Wendy e seu filho vão passar 5 meses de total isolamento cuidando do hotel durante o período de inverno - no meio de nevascas intensas e praticamente nenhuma comunicação com o mundo exterior. É a década de 80, então não tinha internet e essas distrações que a gente tem hoje. Coisas estranhas começam a acontecer e você se pergunta o tempo todo se é tudo loucura da cabeça do Jack ou se realmente há algo a mais naquele hotel além da família. 

O orfanato 


FILME DE TERROR ESPANHOL. Eu nem precisaria dizer mais nada porque, honestamente, pra mim não tem nada mais assustador do que espanhóis fazendo terror. Não sei se é a língua ou como eles sabem usar as cores e luzes, mas os filmes deles assustam mesmo quando não é essa a ideia (aliás, cinema espanhol = ♥). Mas esse é demais. 

Uma mulher compra a casa onde cresceu, que por acaso era um orfanato. Lá ela decide viver com seu marido, criando seu filho e tocando os dias. Só que acontecem coisas e fica a questão: o que diabos houve naquele orfanato pra ficar atormentando as pessoas 30 anos depois? Sensacional. 

It 


Nem me venham com esse novo It porque quem é Bill Skarsgård perto de Tim Curry? Tim Curry poderia interpretar uma árvore e ainda assim eu estaria aplaudindo fervorosamente porque pensa em ator bom. Eu sei que o remake tem todos os efeitos especiais e blablabla e todo mundo diz que é incrível etc e tal, só que o remake não tem o que o original dos anos 90 tem: terror psicológico. Ninguém supera o Tim Curry nessa. Por mais que os efeitos sejam toscos (apesar de que na época eram muito bons), o filme vale muito mais a pena só pelas atuações e pelo fato de não ser dividido em três mil e quatrocentas partes, mas ser inteiro. Tenho pavor dessas sequências infinitas e prefiro histórias que tu pode sentar e ver de uma só vez. 

A história todo mundo já conhece: palhaço assassino que na verdade é uma manifestação do mal e que mata criancinhas atormenta uma cidade se transformando no pior pesadelo da criança em questão até levá-la à loucura. É genial. 

O exorcista 


Esse filme me assusta até hoje, deuzôlivre. As atuações são convincentes demais e a ideia de que isso foi baseado em algo que realmente ocorreu é simplesmente assustadora. Sério, esse filme é perturbador. Estava conversando com o namorado dia desses pra programar nossa Super Sessão Pipoca Dia das Bruxas e ele me disse que as crianças de hoje não se assustam com esse filme porque não é o tipo de terror a que elas estão acostumadas. Mas eu sinceramente não consigo ver como alguém não se assustaria com o demônio possuindo o corpo de uma menina de 12 anos e fazendo ela se masturbar com um crucifixo. Sério. Perturbador. 

Todo mundo deve saber, mas sempre bom falar: Reagan é a menina de 12 anos que acaba sendo possuída por Pazuzu, o demônio, após dar uma de inteligentona e brincar com o tabuleiro ouija porque a internet ainda não existia naquela época. Coisas acontecem e padres aparecem lá pra tirar o demônio da guria, mas o troço desemboca pra um final que creeeeeeeeeeedo. Creio em deus pai. 

Insidious 


Se tem uma pessoa que sabe fazer terror hoje em dia essa pessoa é o James Wan. QUE MEDO DESSE FILME, CREDO. Já vi umas trinta vezes, mas toda vez sinto medo e fico olhando pra trás pra ver se está tudo bem, risos. 

Uma família acabou de se mudar pra uma casa nova e aparentemente está tudo bem, até que um dia o menino mais velho entra em coma e não sai nunca mais. Apesar de toda a busca por exames e médicos monitorando o guri, nada adianta. Então, coisas estranhas começam a acontecer e eles se dão conta de que a assombração não está na casa, mas sim no guri. ASSUSTADOR. 

Invocação do mal 2 


Eu tenho verdadeiro PAVOR de freiras, acho elas seres totalmente demoníacos e corro toda vez que vejo uma porque deuzôlivre. Aí vem o James Wan e me faz um filme com uma freira horrorosa que é um demônio terrível que atormenta as pessoas até matá-las. GENTE, QUE FILME TERRÍVEL. O primeiro eu nem acho essas coisas, mas esse segundo é demais. 

Novamente Lorraine e Ed Warren se metem num caso sobrenatural, mas dessa vez ele se passa na Inglaterra e é baseado em fatos reais, no caso Enfield Poltergeist, e as coisas são horríveis. Mesmo. 

A entidade 


TERROR COM CRIANÇAS. Gente, terror com crianças é algo sempre perturbador, mas esse é perturbador demais. Esse filme me deixa sempre com uma sensação de perigo constante, é terrível - e por isso recomendadíssimo pra o Dia das Bruxas. 

Ethan Hawke é um jornalista que descobre umas fitas de vídeo com gravações estranhas. Ele não se aquieta e vai investigar, mas acaba se metendo em matanças em série e algo muito maior do que ele poderia imaginar. VEJAM ESSE FILME. 

Cês já têm muita coisa pra ver, agora me deem mais recomendações porque filme de terror nunca é demais. ♥ 

As perguntas (ou como não fazer um livro de terror)

As perguntas
Antônio Xerxenesky 
184 páginas
Companhia das Letras
Ano de publicação: 2017 

Sobre o que é: Alina é uma guria que está fazendo doutorado em História das Religiões com ênfase em tradições ocultistas, mas que trabalha editando vídeos em São Paulo pra ganhar a vida porque não está fácil ter um diploma em História no Brasil. Nessas de edita videozinho, fica entediada, edita mais um vídeo, ela recebe uma ligação de uma delegada pedindo consultoria num caso bem bizarro. Aparentemente tem havido surtos psicóticos na cidade causados por uma suposta seita satânica. Alina se joga nisso e tenta ajudar, mas coisas acontecem e ela recomeça a ver as sombras misteriosas que ela via quando era criança. 

Por que ele é bom? Se eu tivesse de realmente destacar um aspecto bom dele seria o fato de que a escrita do Xerxenesky é muito tranquila de ser lida. Ele tem uma escrita fluída que só vai - tanto que li o livro em um dia; obviamente que o livro ter menos de 200 páginas contribuiu muito com isso, mas mesmo assim: parabéns, Xerxenesky, você tem uma linguagem bacana.

Também fiquei bem satisfeita ao perceber que a Alina é uma personagem que convence como mulher. Muitos autores homens, ao escreverem personagens femininas, transformam suas personagens em representações de estereótipos machistas terríveis. Mas Xerxenesky não faz isso e por conta desse ponto ele merece os parabéns. 

Se tivesse de escolher outro aspecto bom eu estaria em maus lençóis porque... bem, ele é um livro muito insatisfatório. Ao menos no que se propõe: ser um livro de terror. Não assusta e o terror que existe é muito mal construído. Mas explicarei isso melhor.

Por que ele é ruim? Quando terminei de ler esse livro fiquei em completo choque porque virei a página e NÃO TINHA MAIS NADA. A história é incompleta. Mas não é só isso. Parece que toda a construção é incompleta. A minha impressão foi que o Xerxenesky não sabia muito bem o que fazer com o universo que criou, de ocultismo e rituais em plena São Paulo dos dias de hoje, e aí decidiu simplesmente não fazer nada e parar por ali.

Posso estar enganada? Posso. A história pode ser uma alegoria sobre o vazio interior dos millennials e como eles buscam sentido em coisas aleatórias e nas quais nem acreditam muito? Também pode. (Inclusive, seria muito legal se fosse.) Mas acho mais provável que o autor simplesmente não tenha sabido conduzir sua história.

Ao final do livro é dito que ele pesquisou religiões ocultas, seitas, satanismo, bruxaria e blablabla por 2 anos pra poder escrever essa história. Aí ele escreve uma personagem que é DOUTORANDA nesse assunto em específico e que não entende bulhufas dele. As coisas mencionadas a respeito disso são o básico do básico que se encontra na primeira página do Google. Eu, que nem sou adepta dessas coisas (e sou bem cética, na verdade), entendo mais disso do que a personagem que deveria ser referência no troço. Por isso mesmo fiquei bem chateada com o livro. Achei que fosse ser muito legal, é uma temática que me chama atenção demais. Mas foi FUÉN. Muito fuén.

Se você cria uma personagem que já fez um mestrado e está fazendo um doutorado sobre ocultismo, o mínimo que pode fazer é realmente dar uma aprofundadinha no assunto. Não precisa ser expert, não precisa se iniciar na Alta Magia e fazer rituais e blablabla. Mas também não precisa ser tão raso a ponto de uma estudante de Jornalismo (eu), que nem participa dessas coisas mas que lê bastante e adora fazer matérias sobre religiões estranhas, ter mais conhecimento de causa do que a personagem em questão.

~Suspiria, filme dos anos 70 e uma das inspirações do livro~

Menino Xerxenesky, você tem potencial, mas precisa escrever sobre coisas que você conhece ou vai acabar se perdendo.

Eu queria muito, muito, muito ter gostado desse livro. Mas não foi dessa vez. Se a ideia era fazer terror, a única coisa que fez foi irritação. Mas é claro que isso não quer dizer que não vá funcionar pra você. Cada pessoa tem um gosto e quem sou eu pra dizer do que as pessoas deveriam gostar? Só diria se o livro tivesse misoginia, machismo ou qualquer coisa relacionada a preconceitos (racismo, homofobia e por aí vai), mas, como não é o caso, se jogue e veja o que cê acha. Pode ser que você goste bastante de um enredo nada clichê.

Você vai gostar se... curte um terror psicológico, é facilmente impressionável ou quer ler uma história diferente que se passa nos dias atuais.

Em um quote:

As religiões foram construídas em torno da morte, elas foram criadas para aprendermos a lidar com isso sem nos desesperarmos, e tem gente que diz que os filmes de terror também têm esse caráter utilitário de nos familiarizar com a violência e a morte. Porém, Alina se perguntou, o que fazer quando não acreditamos em deus algum, em Paraíso algum, quando até os filmes de terror se tornaram banais, e a morte na ficção não nos ensina mais nada. 

~livro recebido em parceria com a editora~

Vomitaram em mim no ônibus

E é por isso que eu odeio as pessoas. 

Estava eu lindamente e cansadamente tentando voltar pra casa após uma aula exaustiva sobre como fazer perguntas a pessoas que não querem revelar nada quando pego um ônibus lotado. Okay, os ônibus de Viamão, a cidade do inferno, estão sempre lotados, por essa eu já esperava. Mas havia um lugarzinho vago lá no fundo, no último banco. Fui até lá, obviamente, e sentei. Deu aquela sensação de alívio, já esperava poder pegar meu livrinho da vez pra ler mais umas 30 páginas até chegar em casa, quando...

UMA GARGALHADA ESTRIDENTE NOS MEUS OUVIDOS.

Estranhei. Senti um cheiro azedo. Não sabia de onde vinha. A gargalhada continuava a reverberar naquele ônibus cada vez mais lotado. Olhei pra os lados, não entendia o que estava acontecendo. Todos olhavam pra mim e pra o homem que gargalhava. Então ele olhou pra o chão e eu percebi:

ELE HAVIA VOMITADO EM MIM 


E TAVA ACHANDO MUITA GRAÇA DISSO 


Ele havia vomitado na minha saia toda colorida e bonitosa. Na minha sapatilha de lacinho. Ele vomitou na minha sapatilha de lacinho, cara. Quem é que vomita na sapatilha de lacinho de alguém e não pede desculpas?

Cês acham que em algum momento eu ouvi um pedido de desculpas? Nãaaaaaaaaaaaaao. Isso seria demais pra o cidadão viamonense. A única coisa que ouvi foi o som daquela gargalhada por cerca de 20 minutos - mas nesse ponto eu já havia levantado dali porque não sou obrigada, apesar de que minha vontade mesmo era de matar uma criatura daquelas, mas as pessoas são tão horrivelmente nojentas neste lugar que a errada seria eu e sem condições de lidar com uma população ignorante presa num ônibus sujo naquele momento.

Se ele estava bêbado? Duvido muito, já que não senti cheiro de álcool (ainda bem, essa desgraça é ainda pior pra tirar do que vômito simples).
O que eu acho de tudo isso? Acho que já cansei de ser pobre e ter de andar de ônibus com gente fedorenta, mal-educada e sem escrúpulo algum. O UNIVERSO QUE TRATE DE ME FAZER RYCA PORQUE JÁ CHEGOU ISSO DE USAR TRANSPORTE COLETIVO E SER VOMITADA NO PROCESSO.


Eu odeio demais essa gente, me tirem daqui. 

A garota no trem

A garota no trem
Paula Hawkins
378 páginas
Record
Ano de publicação: 2015

Sobre o que é: Rachel é uma mulher bem problemática que sai todos os dias de casa e pega o trem das 8h04. Nessas viagens diárias de trem ela fica observando o trajeto e se detém numa casa onde mora um jovem casal que ela idealiza como sendo perfeito. Porém um dia ela vê algo que a deixa de boca aberta e, a partir de então, acontecem coisas que a levam por um caminho perigoso envolvendo um mistério, uma investigação policial e a hostilidade de pessoas dizendo que ela não é uma fonte confiável. 

Por que ele é bom? Alguém me explica, por favor? Eu queria muito ter gostado porque uma amiga me emprestou e escolheu a leitura pra mim, achando que eu fosse gostar. Todo mundo gostou. As pessoas parecem obcecadas por esse livro. Tudo é "oooh, a garota no trem, nossa, que misterioso". Mas achei um grande FUÉN em neon e letras garrafais. 

Mas tá, sempre tem algo de bom e o que eu gostei não foi do mistério. O que eu gostei é de que o livro é um ótimo exemplo de como homens fazem mulheres passar por loucas e se perguntarem se is this the real life, is this just fantasy? porque o gaslight nesse livro é forte demais. O que é bem bacana, ainda mais em tempos como hoje em que finalmente as pessoas estão se dando conta de que pra um relacionamento ser abusivo não precisa haver, necessariamente, violência física. A violência psicológica, emocional, aquela intimidação básica do dia a dia também é violência e é crime. 

Achei ótimo também que o livro tem 3 narradoras - todas mulheres dentro de um relacionamento abusivo - e que elas não se dão conta do que está acontecendo até que seja tarde demais. Posso não ter gostado do mistério, mas adorei a abordagem que a autora usou pra tratar um tema tão delicado e atual. 

Valeu 3 estrelinhas só por isso. 

Por que ele é ruim? Assim: não sei se é porque eu já li muitos livros de mistério, romance policial ou porque fui criada vendo séries tipo Lost, mas o grande plot do livro foi resolvido nos primeiros capítulos pra mim. Por isso, a leitura se tornou enfadonha. Quer dizer, se você prestar atenção verá que o mistério está bem na cara. Mas, novamente, isso pode ser porque eu já tenho uma carga grande de leitura desse tipo e pra mim é mais fácil solucionar esse tipo de coisa. 

Não é um livro ruim, só que não funcionou pra mim. Ao menos não como pra outras pessoas. 

Também achei todo mundo meio chato e cansativo. A Rachel é bem chata. Okay, dá pra entender que na situação dela não tem muito como ter coerência, só que ela se autossabota o tempo inteiro. É desgastante ler páginas e páginas dela se embebedando e vomitando tudo depois, sendo inconveniente, mentindo pra todo mundo... E as outras personagens são tão chatas quanto ela, ainda mais aquela lá que se acha melhor do que ela porque ainda não teve problemas com álcool nem perdeu seu emprego. 

Mas é aquilo: é chato separadamente, mas no contexto geral da história faz sentido porque tudo é resultado de trauminha de relacionamento abusivo com homem escroto. Gente ruim pode causar muito estrago na vida das pessoas e esse, pra mim, é o verdadeiro plot do livro.

Você vai gostar se... curte mistérios e narrativas com personagens femininas. 

Em um quote: 

De vazio eu entendo. Começo a achar que não há nada a se fazer para preenchê-lo. Foi o que percebi com as sessões de terapia: os buracos na sua vida são permanentes. É preciso crescer ao redor deles, como raízes de árvore ao redor do concreto; você se molda a partir das lacunas. 

Ovelha negra da família

Às vezes eu sinto que sou uma das filhas da sra. Bennet porque o tanto que minha mãe é obcecada por casamento só poderia ser explicado se ela tivesse saído diretamente do livro pra vida real. Ela acorda falando que sonhou comigo casando, almoça perguntando se tenho planos de casar, antes de dormir fala que mal pode esperar pelo dia do meu casamento. 

Como se casar fosse assim, né. 

Estamos em pleno 2017, na capital de um dos estados mais cheios de gente estranha e alternativa do país, e me sinto como se fosse Elizabeth Bennet eternamente fugindo do Mr. Collins e da própria mãe porque essa obsessão por casamento não pode ser saudável. 

Nestes 23 anos de vida fui pedida em casamento duas vezes. 
Na primeira eu tinha meus 16 anos e o cara era completamente retardado porque onde já se viu pedir em casamento uma guria que nem é maior de idade ainda? A gente namorava há alguns meses e eu me apavorei tanto que a coisa terminou por ali porque olha, questões, né. 

Na segunda eu tinha meus 19 e a gente namorava. Ele pediu, a gente até "noivou", usava aliancinha e tal, mas ele era muito Wickham e não prestava mesmo, tinha um caráter bem duvidoso. Ainda bem que não deu certo e a vida seguiu. 

Obviamente minha mãe ficou bravíssima nas duas ocasiões. 
Pra ela, namorar é pra casar. Porém eu nunca tive o sonho de casar. Não acho que casamento é o upgrade da vida - pelo contrário, acho que pode muito mais ser um atraso do que algo bom. E não, eu não sou contra o casamento. Eu sou contra essa coisa de casar às pressas pra "honrar os pais", "fazer bonito pra sociedade", "fazer como deus manda" e blablabla. Não é assim que as coisas funcionam há muito tempo e tá mais do que na hora das pessoas aceitarem isso. 

Mas se uma mulher namora por anos e não casa há duas alternativas para a sociedade: ou ela está sendo enrolada pelo rapaz ou ela é que não presta porque não quer subir ao altar. 

Olha, que coisa mais cansativa isso. 
Talvez as pessoas não casem porque estejam se conhecendo? Porque não tenham dinheiro pra se sustentar? Porque ainda têm metade de uma faculdade pela frente e nem perspectiva de um emprego estável à vista? Porque precisam de uma casa? Porque não querem morar com os pais? Porque casar é muito fácil, o difícil é sustentar uma casa com comida, roupa, produtos de limpeza, luz e água todos os dias? 

As pessoas só se importam com a cerimônia, com o vestido, com a boniteza do evento. Mas ninguém pensa no depois, nas contas e na total inabilidade de arrumar emprego num país em crise. 

Tenho uma sobrinha que vai se casar por esses dias. Ela tem 17 anos. O orgulho da família. Tenho outras duas sobrinhas que já casaram. Elas têm 21 e 19 anos. Ambas já são mães. Um dia eu ouvi de uma delas que ela tinha tudo e eu não tinha nada, eu era infeliz, eu era seca. Porque ela é casada e tem filhos. E é mais nova do que eu. 

Mas essa sobrinha que vai casar, ela é da igreja. Família toda da igreja. E eu sei como é o pensamento das gurias que crescem nesse meio. Cresci ouvindo os pastores e líderes de jovens falando de como é honrado casar, encontrar o homem que deus enviou e constituir família. Todas as meninas que cresceram comigo na igreja casaram e estão com filhos. Menos eu. Porque eu saí de lá na adolescência pra nunca mais voltar pra essa lavagem cerebral. 

Só que eu sou a errada porque namoro há mais de ano, me dou bem com a família do namorado, vou pra lá aos findes, tenho uma convivência bacana com todo mundo. Eu sou errada porque estou cursando uma graduação e pretendo terminá-la antes de pensar em casamento. Eu sou errada porque durante 3 anos trabalhei direto pra pagar conta em casa e ajudar minha família ao invés de constituir a minha própria família e ser o exemplo de guria, né? 

É. 

Eu sou muito errada por ter saído do século XVIII, em que as mulheres eram obrigadas a casar tanto pela sociedade quanto pra ter uma renda e não morrer de fome, e preferir estudar pra conseguir me sustentar por mim mesma. Eu sou bem errada mesmo por não ter já dois filhos e ficar o dia inteiro pensando em como a vida de mãe é maravilhosa. 

Eu sou bem errada por nem querer ter filhos.  

Assim como é errado você ter de escolher uma profissão pra o resto da vida aos 17 anos, também é errado casar aos 17, 18, 19, quando você nem se conhece direito, nem conhece o mundo, a recém começou a viver a vida e não tem meios pra se sustentar. "Ah, mas meu marido vai me sustentar." Cês me deem licença, mas eu acho isso bem horrível. Todo mundo deveria ter sua independência financeira. Passar por momentos em que um se desemprega é normal, mas casar já com o pensamento de ser sustentada é algo bem perigoso. Eu não contaria com isso. 

Depois aparece gente louca nas redes sociais falando coisas como "em vez de procurar emprego, casem com maridos que lhe sustentem e sejam fiéis como deus manda" e "não usem camisinha, quem usa camisinha é vagabunda que não é fiel ao seu marido" (exemplos reais, exemplos infelizmente verídicos) e aí temos um altíssimo índice de DSTs, ainda mais aqui em PoA - porque por mais modernosos que sejamos, o povo do Sul é extremamente conservador. 

Mas a escolha é de cada um, anyway. 
Só não venham querer me obrigar a seguir os moldes conservadores de vocês que isso eu não faço. 

Leiturinhas 09

~arte da capa da nova edição de Mrs. Dalloway, pela Penguin-Companhia~

Como eu disse no post anterior, decidi separar a parte das leituras e a parte dos filmes e séries do resuminho mensal porque aquilo tava ficando gigantesco e ain't nobody got time for that. Então agora vai ser assim: um post todo dedicado a falar do que li no mês anterior e o que estou lendo no momento. 

Vamos lá. 

.lidos


♥ Comecei o mês lendo um livro que me deu trabalho mas que foi tão maravilhoso que nem me importei: Atlas de nuvens é incrível em todos os sentidos. Já falei muito sobre ele aqui, mas não canso de dizer: LEIAM ESSE LIVRO!!!! Ele tem 6 histórias que se passam em tempos e locais diferentes e todas se entrelaçam de alguma forma. É demais. 

♥ Depois li O conto da aia, que foi bem difícil porque pra mim esse livro é de terror. Foi um livro que me assustou de verdade porque além de eu conhecer vários exemplos de locais que tiveram ou têm ainda um regime teocrático em que as mulheres não possuem voz alguma, como fui criada dentro de igreja e tenho uma família extremamente evangélica, percebi várias coisas no livro que são exatamente o que eu ouvia dentro da igreja quando ainda era obrigada a frequentar - mas ainda bem que a gente cresce e escolhe o próprio caminho. Falei sobre ele aqui, mas é sempre bom ressaltar que é uma leitura necessária pra vida. 

♥ Aí finalmente consegui ler algo mais leve e bonitinho - após 2 livros pesados eu tava precisando. Apesar do que todo mundo diz, eu gosto do Paulo Coelho. 100% nem aí pra vocês que fazem bullying com o cara sem nunca o terem lido ou pra o povo que só lê "alta literatura" (eu tenho PAVOR dessa expressão completamente falaciosa) e despreza o Mago. Gosto mesmo. E amei ler Brida. Li pra o Valkirias e o texto vai sair no Dia das Bruxas, mas depois vou escrever algo sobre ele aqui também. Pra adiantar: Brida é o relato real de uma moça que um dia se mandou pra o interior da Irlanda pra aprender magia. Recomendadíssimo. 

♥ Mas todo mês tem aquele livro que leva menos estrelinhas por ser incoerente ou chato ou simplesmente não ornar com a essência. Pra mim, esse foi o A garota no trem. Uma amiga me emprestou e eu realmente queria ter gostado, sempre vejo as pessoas falando bem desse livro, de como o mistério é surpreendente, de como a autora criou todo um enredo de tirar o fôlego. Aí fui ler, e... fuén. Descobri o grande mistério já nos primeiros capítulos e a leitura se tornou arrastada, só li pra ter certeza de que estava certa mesmo e também porque raramente largo um livro pela metade. Mas olha, não foi bacana. Tem apenas um aspecto que achei legal: são 3 narradoras, todas mulheres e cada uma conta uma história de abuso - mesmo sem perceber que foram/estão sendo abusadas. Essa questão ficou bacana, mas o mistério em si, não. 

♥ Porém, como setembro foi um mês relativamente bom, consegui encerrá-lo com um livro que MEU DEUS QUE INCRÍVEL. A Paralela (selo da Companhia das Letras) me enviou a versão de prova do novo lançamento deles, Fraude legítima, e o tanto que eu amei esse livro nem dá pra dizer apenas aqui (inclusive, já falei bastante sobre ele, confiram aqui). Após ler A garota no trem, que promete ser um mistério mas acabou sendo fuén, ler Fraude legítima foi um tapa na cara de como fazer um livro de mistério que realmente vá te deixar confusa até o final da leitura. QUE LIVRÃO. Não canso de dizer. Taí um lançamento que vale a pena. 

.lendo 

Outubro mal começou e já li 2 livros, mas foram TÃO, MAS TÃO RUINS que decidi largar tudo pra o alto e reler Orgulho e preconceito, que quase nem é uma releitura, e sim uma leitura, já que faz muitos anos que o li pela primeira vez (com 17, risos) e nem lembro mais direito da história a não ser pelas falas do filme de 2005. 

Tá sendo ótimo ler esse livro porque além do fato de Jane Austen = ♥, também adoro a história e a lembrança que tinha da primeira leitura é bem diferente do que estou percebendo agora. Antes achava o Mr. Darcy o maior babaca, agora percebo que eu virei o Mr. Darcy na vibe sai de mim gente estranha, quero ficar sozinho com meus livros


Eu adoro isso porque tem certos livros que a gente sempre vai ter uma nova visão na releitura (alguns, porque tem certas coisas que não mudam mesmo). Com A insustentável leveza do ser foi assim, com O retrato de Dorian Gray também - ambos são livros que sempre me fazem ver novas coisas a cada releitura. 

Então é isso, gente. 

Resuminho de setembro


Aparentemente passei todo setembro vendo The Tudors e nem me daria conta do fato se não fosse eu ser a louca das listas e ter registrado tudo no meu listography. Isso porque foi tudo muito rápido e intenso. Aliás, este ano todo está sendo rápido e intenso, tão intenso que na maior parte do tempo eu mal consigo sentir o que supostamente deveria estar sentindo e bam, já temos um novo sentimento impactante com o qual lidar. 

Resultado: não estou lidando com nenhum, portanto. 

Tem gente que diz que a culpa dessa vibe de inutilidade que pegou geral em setembro é do eclipse, da mudança de energias, um novo ciclo, blablabla. Eu honestamente tenho uma preguiça descomunal do povo hippie, zen, wicca, budista e essas vibes todas - se você for quaisquer uma dessas coisas saiba que não tenho nada contra você especificamente, até porque a probabilidade de nos conhecermos é bem pequena, mas o ranço é com o estereótipo ativista que fica feito tio do pavê gritando nas redes sociais que todos seríamos muito melhores se fizéssemos ______ (complete o espaço com yoga, meditação, tomar o sangue de Cristo, celebrar a menstruação, não comer carne ou o que a doutrina em questão mandar). Seja lá como for, tem todo um nicho da internet dizendo que a culpa é do eclipse e ontem eu parei pra analisar o quadro com uma amiga e... e se for? Nesse momento crédulo, que durou exatos 5 minutos porque essa coisa de repousar meu destino ou o destino coletivo da humanidade nas estrelas não é comigo, parei pra analisar todas as cagadas de setembro, e... não foram tantas assim, hein. Pensei que fosse bem pior, mas ó, tô equilibrada, tô sã, tô de boas. Seja lá o que for - eclipse, desespero de fim de ano, a crise -, tô lidando bem melhor do que já lidei com outras situações. Ou talvez isso se deva ao fato de eu não estar lidando at all. A posteridade irá dizer. 

Talvez o que tenha dado esse surto de não lembro o que fiz o mês inteiro seja o fato de que a última semana foi bem conturbada porque, tudo ao mesmo tempo, o homem ficou doente, aí como ele mora longe e me leva até Porto Alegre pra poder voltar pra casa eu não pude voltar porque sou geograficamente perdida mesmo, então fiquei lá, bem pasmada, cuidando pra que a febre dele não aumentasse e vendo uns filmes ruins no processo. Também tive que escrever 5 textos, reescrever 1 - que ficou horrível, mas vamo que vamo, não dá pra fazer o melhor sempre, especialmente quando estamos escrevendo num notebook cujo teclado se recusa a funcionar e não estamos em casa, com nossos livros, referências e trocentas coisinhas inúteis mas que total ajudam no bom funcionamento da coisa. Pra completar, tive de voltar correndinho no meio da semana por causa de uma entrevista que deu em zeros nada porque a vida às vezes é muito ridícula mesmo, mas isso fica pra outra hora. 

Eu ainda tenho 2 textos + 1 reportagem pra escrever, mas estou ignorando a questão no momento porque sem condições de me preocupar com isso numa manhã de quarta-feira que já está pela metade e só me faz lembrar que ainda tenho de ler um texto gigantesco pra aula de hoje. 

Enfim, a vida universitária é um cocô gigante flutuando no vaso. 

~this is my design~

Também fui assaltada lá pelo meio do mês e foi a coisa mais ridícula que poderia ter acontecido. Mas fiquei de boas, nem tremi, só entreguei as porcarias e segui meu caminho. Aí, na outra semana, tive de fazer uma reportagem de rádio ao vivo e mal consegui segurar o microfone porque A TREMEDEIRA MEU DEUS. 

Claramente minhas prioridades estão um pouco invertidas. 

.links.links.links.

♥ A Raquel escreveu o texto que eu queria ter escrito sobre The handmaid's tale. O livro, não a série. Porque a série eu comecei, mas ainda não terminei porque sinceramente. De desgraçamento mental já basta a vida. Mas ainda vou terminar de ver aquilo. 

♥ Uma das minhas pequenas obsessões da vida é pela era Tudor e eu acompanho sempre os textos do Tudor Brasil. Um deles eu amei demais: a análise do mapa astral de Elizabeth I, filha do Henricoitavo com a Ana Bolena e primeira rainha aceita pelo povo da Inglaterra (mulheres já haviam governado antes, mas nunca tinham sido tão aceitas quanto a Elizabeth - sua própria irmã, Mary Tudor, reinou antes dela, mas ficou conhecida como Bloody Mary por perseguir protestantes e matar todo mundo, então digamos que ela não era lá muito popular...). 

♥ No Valks sempre saem textos bons e a Júlia escreveu sobre Mãe!, aquele novo filme do Aronofsky. Eu nem vi o filme ainda, mas adorei as trocentas referências do texto e quero assistir pra ver qualéquié. O que me incomoda um pouco é todo esse hype em cima do Aronofsky. Okay, ele tem filmes bacanas (Cisne negro), mas calmaí. 

♥ Saiu uma matéria ótima na BBC Brasil sobre Monopoly, um jogo de tabuleiro que foi criado por uma mulher e pra denunciar os males do capitalismo - e acabou se tornando uma espécie de símbolo capitalista porque essa é a ótica do sistema. 

É isso, gente. 
Mudei os esquemas e vou fazer posts separados pra os livros lidos e filmes/séries do mês porque os posts estavam ficando gigantescos e ninguém tem tempo pra isso. 

Até.