Ovelha negra da família

Às vezes eu sinto que sou uma das filhas da sra. Bennet porque o tanto que minha mãe é obcecada por casamento só poderia ser explicado se ela tivesse saído diretamente do livro pra vida real. Ela acorda falando que sonhou comigo casando, almoça perguntando se tenho planos de casar, antes de dormir fala que mal pode esperar pelo dia do meu casamento. 

Como se casar fosse assim, né. 

Estamos em pleno 2017, na capital de um dos estados mais cheios de gente estranha e alternativa do país, e me sinto como se fosse Elizabeth Bennet eternamente fugindo do Mr. Collins e da própria mãe porque essa obsessão por casamento não pode ser saudável. 

Nestes 23 anos de vida fui pedida em casamento duas vezes. 
Na primeira eu tinha meus 16 anos e o cara era completamente retardado porque onde já se viu pedir em casamento uma guria que nem é maior de idade ainda? A gente namorava há alguns meses e eu me apavorei tanto que a coisa terminou por ali porque olha, questões, né. 

Na segunda eu tinha meus 19 e a gente namorava. Ele pediu, a gente até "noivou", usava aliancinha e tal, mas ele era muito Wickham e não prestava mesmo, tinha um caráter bem duvidoso. Ainda bem que não deu certo e a vida seguiu. 

Obviamente minha mãe ficou bravíssima nas duas ocasiões. 
Pra ela, namorar é pra casar. Porém eu nunca tive o sonho de casar. Não acho que casamento é o upgrade da vida - pelo contrário, acho que pode muito mais ser um atraso do que algo bom. E não, eu não sou contra o casamento. Eu sou contra essa coisa de casar às pressas pra "honrar os pais", "fazer bonito pra sociedade", "fazer como deus manda" e blablabla. Não é assim que as coisas funcionam há muito tempo e tá mais do que na hora das pessoas aceitarem isso. 

Mas se uma mulher namora por anos e não casa há duas alternativas para a sociedade: ou ela está sendo enrolada pelo rapaz ou ela é que não presta porque não quer subir ao altar. 

Olha, que coisa mais cansativa isso. 
Talvez as pessoas não casem porque estejam se conhecendo? Porque não tenham dinheiro pra se sustentar? Porque ainda têm metade de uma faculdade pela frente e nem perspectiva de um emprego estável à vista? Porque precisam de uma casa? Porque não querem morar com os pais? Porque casar é muito fácil, o difícil é sustentar uma casa com comida, roupa, produtos de limpeza, luz e água todos os dias? 

As pessoas só se importam com a cerimônia, com o vestido, com a boniteza do evento. Mas ninguém pensa no depois, nas contas e na total inabilidade de arrumar emprego num país em crise. 

Tenho uma sobrinha que vai se casar por esses dias. Ela tem 17 anos. O orgulho da família. Tenho outras duas sobrinhas que já casaram. Elas têm 21 e 19 anos. Ambas já são mães. Um dia eu ouvi de uma delas que ela tinha tudo e eu não tinha nada, eu era infeliz, eu era seca. Porque ela é casada e tem filhos. E é mais nova do que eu. 

Mas essa sobrinha que vai casar, ela é da igreja. Família toda da igreja. E eu sei como é o pensamento das gurias que crescem nesse meio. Cresci ouvindo os pastores e líderes de jovens falando de como é honrado casar, encontrar o homem que deus enviou e constituir família. Todas as meninas que cresceram comigo na igreja casaram e estão com filhos. Menos eu. Porque eu saí de lá na adolescência pra nunca mais voltar pra essa lavagem cerebral. 

Só que eu sou a errada porque namoro há mais de ano, me dou bem com a família do namorado, vou pra lá aos findes, tenho uma convivência bacana com todo mundo. Eu sou errada porque estou cursando uma graduação e pretendo terminá-la antes de pensar em casamento. Eu sou errada porque durante 3 anos trabalhei direto pra pagar conta em casa e ajudar minha família ao invés de constituir a minha própria família e ser o exemplo de guria, né? 

É. 

Eu sou muito errada por ter saído do século XVIII, em que as mulheres eram obrigadas a casar tanto pela sociedade quanto pra ter uma renda e não morrer de fome, e preferir estudar pra conseguir me sustentar por mim mesma. Eu sou bem errada mesmo por não ter já dois filhos e ficar o dia inteiro pensando em como a vida de mãe é maravilhosa. 

Eu sou bem errada por nem querer ter filhos.  

Assim como é errado você ter de escolher uma profissão pra o resto da vida aos 17 anos, também é errado casar aos 17, 18, 19, quando você nem se conhece direito, nem conhece o mundo, a recém começou a viver a vida e não tem meios pra se sustentar. "Ah, mas meu marido vai me sustentar." Cês me deem licença, mas eu acho isso bem horrível. Todo mundo deveria ter sua independência financeira. Passar por momentos em que um se desemprega é normal, mas casar já com o pensamento de ser sustentada é algo bem perigoso. Eu não contaria com isso. 

Depois aparece gente louca nas redes sociais falando coisas como "em vez de procurar emprego, casem com maridos que lhe sustentem e sejam fiéis como deus manda" e "não usem camisinha, quem usa camisinha é vagabunda que não é fiel ao seu marido" (exemplos reais, exemplos infelizmente verídicos) e aí temos um altíssimo índice de DSTs, ainda mais aqui em PoA - porque por mais modernosos que sejamos, o povo do Sul é extremamente conservador. 

Mas a escolha é de cada um, anyway. 
Só não venham querer me obrigar a seguir os moldes conservadores de vocês que isso eu não faço. 

4 comentários

  1. Socorro Mia, sei bem como você se sente. Eu já tenho 26 anos, sou formada, terminando pós, trabalho, sou independente financeiramente e mesmo assim as pessoas ainda acham que eu preciso de um casamento para completar minha "felicidade". Eu tenho alguém, estamos felizes e se um dia a gente casar vai ser porque queremos, não porque os outros querem, mas é foda lidar com gente que se acha no direito de escolher nosso destino só porque acham que é certo, enche o saco!

    ResponderExcluir
  2. Eu sou feliz por ter uma mãe que nunca me colocou nada desse tipo na cabeça. Apesar de eu ter crescido na religião da minha mãe e ter decidido sair dela mais cedo ela me aceita do jeito que sou. Eu não digo que casar em tal idade é errado pq depende muito das circunstancias. Eu fui morar com meu boy aos 17 anos, não casamos, apenas fizemos união estável e estamos muito bem. Não me arrependo de nada, pra mim foi bom.
    A única coisa que penso era que seria muito mais fácil eu esperar para terminar a faculdade e financiar um apartamento e ir juntando dinheiro naquela época, but anyway...
    Minha mãe sempre me incentivou a nunca depender de homem, a buscar a minha independência e até morar sozinha (como eu sempre quis) e ela nunca me pressionou a casar e fala que a melhor escolha que eu fiz é não querer ter filhos...
    É difícil lidar com a sociedade em um todo, mas o importante é que a gente saiba o que nós queremos e nunca nos levar pelos desejos dos outros.

    Amei esse texto, e não, você não está errada, você está certa! Está vivendo a sua vida da maneira que lhe agrada.

    Carol Justo | Pink is not Rose

    ResponderExcluir
  3. O teu pensamento não é que seja errado ou certo, é um pensamento crítico, que lida com a realidade como ela é (boa ou não), com toda sua complexidade. A partir daí, uma das questões é saber como lidar com os simulacros, com os tais shows de Trumans (1998) em nossas vivências concretas e/ou abstratas. Porque é óbvio que sempre haverão sanções negativas e positivas pra quem questiona e pra quem sai da caverna, e, mesmo que quem prova do fruto do conhecimento seja expulso de algum ''paraíso'', há sempre novos paraísos, há sempre novas cavernas. É uma sucessão sem fim. Tudo isso faz parte. Como diria Renato Russo, apesar de vermos o mundo doente por causa dos espelhos, apesar disso ''na verdade... não há''. Somos todos grãos de areia, gotas d'água.

    E sim: Você é uma das pessoas mais sensatas que eu já li na vida.

    ResponderExcluir
  4. me desculpe a indiscrição mas fiquei curiosa com a posição do seu pai diante tudo isso, porque sei que ele é bacana e etc, um paizão a meu ver.

    te acho corretíssima e racional, fiquei nervosa só de pensar na sua sobrinha dizendo isso. minha família também não é fácil. ela é do tipo que se namora no sofá vendo tv (meu primeiro namoro foi assim). aliás, meu primeiro namoro terminou porque parecia que eu estava vivendo tudo isso aí, só que o rapaz era extremamente católico, com uma família de classe média que pensa em carros e churrasco aos domingos, onde o diploma de curso superior é qualquer um, não importa, desde que você seja concursado em um banco e seja promovido a cada dois anos.

    minha família que pretendia ser "margarina" (pai-mãe-filhas) virou um matriarcado depois que "o homem da casa" fez umas cagadas e foi embora. mas ainda bem eu me sinto mais livre.

    sobre casais: por mais que seja toda romântica e tals e apaixonada, quero viver com um rapaz em questão... mas sem casar. prefiro o dinheiro que seria gasto com padre, igreja, parentes preconceituosos bem empregado em estudos ou viagens. tenho pavor de cerimônias, tradição, costumes, e de uma frase que minha professora de "empreendedorismo" comentou há alguns dias: o mundo funciona assim. bem, eu sou aquela porca solta que não encaixa no parafuso, e ainda bem que não. prefiro ser solta a me prender num sistema irracional e sem porquê.

    desculpa o desabafo! costumes me deixam doida de nervoso. siga sempre seu caminho de consciência limpa e nunca desista de ser você. é o que te desejo do fundo do coração.

    ResponderExcluir